VI Concerti a flauto traverso
Compositor: Antonio Lucio Vivaldi
Número de catálogo: Opus 10
Data da composição: de 1713 até a publicação, em 1728 (ou 1729)
Data da composição: de 1713 até a publicação, em 1728 (ou 1729)
Estréia: não há registros
Duração: cerca de 50 minutos; os Concertos tem entre 7 e 10 minutos
Efetivo: 1 flauta-solista, cordas e baixo-contínuo (usualmente, o cravo)
Se o Opus 3, L'Estro Armonico, estabeleceu Vivaldi como o mestre dos Concerto para violino, o Opus 10 o consagrou como o pioneiro que elevou a flauta à condição de solista virtuoso. Publicada por volta de 1728 em Amsterdam, pelo editor Michel-Charles Le Cène, esta foi a primeira coleção de concertos inteiramente dedicada à flauta transversal na história da música. A decisão foi um marco que mudaria para sempre a percepção dos músicos sobre o instrumento.
Para entender a dimensão desse feito, é preciso recuar: a flauta é um dos mais antigos instrumentos da humanidade, há exemplares de osso com mais de 40 mil anos. No Renascimento e no início do Barroco, o instrumento dominante era a flauta-doce (hoje, no meio musical, a chamamos flauta barroca), tocada verticalmente. Aquela, que damos de presente às crianças. Longe de ser o instrumento escolar que muitos imaginam hoje, era um instrumento profissional, para o qual compositores como Händel, Telemann e o próprio Vivaldi escreveram repertório vasto e sério.
A flauta transversal, tocada horizontalmente, era um instrumento diferente. Por volta de 1670, na França, a família de artesãos Hotteterre — a mesma que ajudou a desenvolver o oboé moderno — redesenhou a flauta transversal medieval. O novo modelo, com furo cônico e a adição de uma chave, possuía maior volume, uma gama de cores sonoras mais rica e, o principal para se utilizá-la como instrumento de virtuosismo: mais agilidade. Era um instrumento superior, mas sua ascensão foi lenta.
No início do século XVIII, a flauta transversal ainda era vista como um instrumento para o entretenimento amador da aristocracia, especialmente na França. Na Itália, o preconceito era ainda maior. O célebre compositor Alessandro Scarlatti resumiu o sentimento geral ao se recusar a ouvir um flautista com a famosa frase: — "Não suporto instrumentistas de sopro: todos sopram desafinado". Na hierarquia instrumental da época, a flauta estava decididamente abaixo do violino e do oboé.
Vivaldi, no entanto, enxergou o potencial do novo instrumento. Embora outros mestres já tivessem escrito para a flauta transversal, como Telemann e Bach, que a destacou no Concerto de Brandemburgo n. 5, ninguém havia ainda apostado em uma publicação inteiramente dedicada a ela. O Opus 10 foi essa aposta. A coleção não apenas apresentou seis obras de virtuosismo e lirismo, mas também as embalou com uma estratégia comercial inteligente: três dos concertos receberam títulos programáticos — La Tempesta di Mare, La Notte e Il Gardellino —, repetindo o sucesso de marketing de As Quatro Estações.
A publicação desses 6 Concertos para flauta foi um sucesso retumbante e seu impacto, imenso. Décadas depois, a corte de Frederico II da Prússia, ele próprio um flautista talentoso, se tornaria o maior centro de produção de música para flauta da Europa, com centenas de obras compostas por ele e seus músicos de Corte, incluindo o filho de Bach, Carl Philipp. Esse florescimento tem uma linha direta com a ousadia de Vivaldi e seu editor.
Curiosamente, pesquisas recentes sugerem que a publicação pode ter sido uma iniciativa mais comercial do editor Le Cène, do que vontade do próprio Vivaldi. A ausência de uma dedicatória, algo incomum nas publicações que Vivaldi supervisionava diretamente, e certas características das adaptações orquestrais indicam que o compositor pode não ter estado envolvido em todos os detalhes da edição. Das seis obras, cinco são reelaborações de Concertos anteriores. Delas, três já eram para flauta transversal e duas para flauta doce (ver, abaixo). A coleção, portanto, é um misto de composições originais e arranjos engenhosos, um testemunho da genialidade de Vivaldi e da visão de mercado de seu editor.
Concerto n. 1, La Tempesta di Mare
A Tempestade no Mar
Número de catálogo: Opus 10 n. 1 / RV 433
Duração: cerca de 7 minutos
Vivaldi já havia explorado o tema da tempestade marítima em outras obras (RV 98 e RV 570), mas esta versão para flauta se tornou a mais célebre. O concerto captura a fúria do mar com uma energia contagiante, transformando a flauta em protagonista de um drama da natureza.I. Allegro — II. Largo — III. Presto(Rápido — Devagar — Muito rápido)O primeiro movimento evoca a agitação das ondas, com escalas rápidas e arpejos turbulentos, enquanto a orquestra fornece rajadas de acordes que intensificam a cena. O virtuosismo exigido da flauta é notável, pintando um quadro sonoro vívido e dramático. O Largo central oferece um breve momento de calmaria, uma pausa reflexiva antes que a tempestade retorne com força total no Presto final, um turbilhão de notas que encerra a obra de forma eletrizante.
Concerto n. 2, La Notte
A Noite
Número de catálogo: Opus 10 n. 2 / RV 439
Duração: cerca de 10 minutos
Único da coleção com uma estrutura de seis movimentos interligados, La Notte é uma das obras mais originais de Vivaldi. O concerto descreve uma noite cheia de inquietação, fantasmas e, finalmente, o sono.I. Largo — II. Presto: Fantasmi — III. Largo — IV. Presto — V. Largo: Il Sonno — VI. Allegro(Devagar — Muito Rápido: Fantasmas — Devagar — Muito Rápido — Devagar: O Sono — Rápido)A obra se desenrola como uma cena teatral. A introdução lenta e sombria dá lugar a uma seção rápida e agitada intitulada Fantasmas, onde a flauta executa passagens velozes que evocam aparições noturnas. Após um breve retorno à calmaria, a agitação volta, até que um movimento que evoca O Sono traz uma atmosfera de paz e imobilidade, com as cordas em surdina e a ausência do cravo. O Allegro final, no entanto, retoma a inquietação inicial, sugerindo que os terrores da noite nunca estão longe. Esse Concerto foi preparado para a publicação do Opus 10 reformatando um Concerto anterior, o RV 104, que era um pouquinho mais prolixo.
Concerto n. 3, Il Gardellino
O Pintassilgo
Número de catálogo: Opus 10 n. 3 / RV 428
Duração: cerca de 10 minutos
O mais delicioso da série. E o mais popular, também. Nele, Vivaldi transforma a flauta no pequeno pássaro, imitando seu canto com uma delicadeza e um virtuosismo encantadores. O interessante é que, na verdade, o pintassilgo deveria ser grafado como Cardellino e não Gardellino como Vivaldi colocou; não se sabe ao certo a razão do erro, mas a suspeita é que no dialeto veneziano a variação existisse.I. Allegro — II. Cantabile — III. Allegro(Rápido — Cantarolável — Rápido)Desde o primeiro movimento, a flauta solista imita o canto do pintassilgo, com trinados, notas repetidas e arpejos brilhantes. A orquestra dialoga com o solista, criando a paisagem pastoral irresistível. O movimento central, um Cantabile acompanhado apenas pelo baixo-contínuo, é um momento de lirismo puro, como se o pássaro descansasse em um galho. O Allegro final retoma a imitação do canto com uma energia contagiante, encerrando a obra em um clima de alegria e celebração.
Concerto n. 4
Número de catálogo: Opus 10 n. 4 / RV 435
Duração: cerca de 7 minutos
Concerto n. 5Este é o único Concerto da coleção que não possui uma versão anterior conhecida, tendo sido aparentemente composto diretamente para o Opus 10. É uma obra de caráter sereno e pastoral, que contrasta com a dramaticidade dos concertos anteriores.I. Allegro — II. Largo — III. Allegro(Rápido — Devagar — Rápido)Um Concerto que se destaca pelo lirismo e pela elegância. O primeiro movimento apresenta um diálogo equilibrado entre a flauta e a orquestra, com melodias graciosas e fluidas. O Largo central é um momento de profunda melancolia e beleza, como uma ária sem palavras. O Allegro final, em ritmo de dança, conclui a obra com um espírito leve e festivo, demonstrando a versatilidade de Vivaldi mesmo sem apelar a um programa descritivo.
Número de catálogo: Opus 10 n. 5 / RV 434
Duração: cerca de 9 minutos
Uma adaptação de um Concerto anterior, escrito para flauta-doce, o RV 442. Se destaca por sua atmosfera contida, de caráter íntimo e delicado.
I. Allegro ma non tanto — II. Largo e cantabile — III. Allegro
(Rápido mas não muito — Devagar e cantarolável — Rápido)O primeiro movimento é marcado por uma fluidez melódica e um virtuosismo muito atraentes, promovendo um diálogo entre o solista e a orquestra de uma elegância notável. O coração da obra é o Largo e cantabile, um dos movimentos lentos mais belos de Vivaldi, onde a flauta canta uma melodia expressiva e comovente sobre o acompanhamento discreto das cordas. O Allegro final encerra o Concerto com uma dança espirituosa.
Concerto n. 6
Número de catálogo: Opus 10 n. 6 / RV 437
Duração: cerca de 8 minutos
Encerrando a coleção, este Concerto é uma adaptação de uma obra anterior, o RV 101, que já incluía a flauta-doce, além de um oboé e um fagote. A versão atualizada para o Opus 10 concentra o virtuosismo em um único solista, criando uma peça de grande brilho e energia.I. Allegro — II. Largo — III. Allegro(Rápido — Devagar — Rápido)Concerto que é o exemplo perfeito do estilo vivaldiano maduro. Os movimentos rápidos são repletos de passagens virtuosísticas para a flauta, com ritmos vigorosos e um diálogo enérgico com a orquestra. O Largo central, breve e expressivo, serve como um interlúdio lírico antes do Allegro final, que conclui a coleção com uma explosão de virtuosismo e alegria, selando o novo caminho da flauta transversal como um instrumento concertante de primeira grandeza.
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