(1900) SIBELIUS Sinfonia n. 1

Compositor: Jean Sibelius
Número de catálogo: Opus 39
Data da composição: 11898-1899; revisão em 1900
Estréia: 26 de abril de 1899, em Helsinque, com a Orquestra da Sociedade Filarmônica de Helsinque sob regência do compositor (primeira versão, depois perdida). A versão final foi apresentada em 1º de julho de 1900, em Helsinque, sob regência de Robert Kajanus


Duração: 35 a 40 minutos
Efetivo: 2 flautas (podendo dobrar com o flautim), 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes; 4 trompas, 3 trompetes, 3 trombones, tuba; tímpanos, bombo, pratos, triângulo; harpa; cordas.

Quando Sibelius começa a escrever sua Primeira Sinfonia, ele já não é mais um talento promissor local: desde Kullervo (1892) e das Lendas de Lemminkäinen (1895–1896), seu nome circula como uma esperança concreta de um grande compositor finlandês, numa época em que a vida cultural do Grão-Ducado estava politicamente pressionada pelo Império Russo. A Sinfonia, porém, representa um passo diferente: é uma obra de concerto “pura”, sem coro, sem cena e sem enredo explícito. Mesmo assim, Sibelius não abandona o instinto dramático, apenas o coloca dentro de uma estrutura que o público do fim do século XIX reconhecia como o grande cartão de visita de um compositor europeu. A estreia de 1899 foi regida pelo próprio autor, mas Sibelius não se deu por satisfeito: voltou ao texto, retrabalhou passagens e consolidou a versão final em 1900, já com a participação decisiva de Robert Kajanus, maestro fundamental na difusão de sua música. 
 
I. Andante ma non troppo – Allegro energico 
(Passo de caminhada, sem arrastar – Rápido e enérgico) — de 9 a 12 minutos 
A sinfonia abre com um dos começos mais pessoais do repertório: um chamado do clarinete sobre um tremor de tímpanos, como se a obra surgisse lentamente de um fundo escuro. O movimento então se expande em ondas, alternando tensão e lirismo, com temas que retornam transformados ao longo do percurso. Aqui se ouve um Sibelius ainda ligado ao romantismo tardio europeu, mas já com um modo muito próprio de construir climas: a sensação de que a música avança por grandes massas e por súbitas mudanças de perspectiva, como se a paisagem se reorganizasse diante dos olhos. 
 
II. Andante, ma non troppo lento 
(Passo de caminhada, mas não lento demais) — de 8 a 10 minutos 
O segundo movimento é o núcleo de canto interior da obra. Em vez de buscar um grande efeito, Sibelius trabalha com linhas longas, com melancolia controlada e com um crescimento central que adensa o drama antes de voltar a um recolhimento final. É o tipo de movimento que ajuda a entender por que Sibelius se tornaria um mestre em fazer a orquestra respirar em blocos: ele cria continuidade sem precisar de retórica constante. 
 
III. Scherzo: Allegro 
(Bricadeira ou Jogo: Rápido) — cerca de 6 minutos 
Scherzo, a palavra italiana que significa brincadeira, mas que aqui consiste na ideia de menos de humor e mais de energia nervosa. O movimento funciona como descarga: ritmo firme, impulso direto, e um trecho central mais cantável que dá contraste antes de o turbilhão retornar. 
 
IV. Finale, quasi una fantasia: Andante – Allegro molto
(Final: quase uma fantasia: Passo de caminhada — Muito rápido) — cerca de 13 minutos 
Ao chamar o final de “quase uma fantasia”, Sibelius sinaliza liberdade: o movimento se comporta como um grande arco que reapresenta e transforma ideias do começo, criando a sensação de síntese. Ele começa com solenidade e rapidamente ganha velocidade, alternando episódios de impulso e de retenção, como se o autor quisesse fechar a Sinfonia por acumulação de tensões. Aqui é o momento no qual se percebe que Sibelius já domina a grande forma — e que, dali em diante, ele poderá entrar na fase mais sinfônica da carreira com plena autoridade.

© RAFAEL FONSECA

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