(1813) ROSSINI Abertura "A Italiana em Argel"

L'italiana in Algeri, dramma giocoso

Compositor: Gioacchino Rossini
Número de catálogo: EC I/11
Data da composição: 1813
Estréia: 22 de maio de 1813 — Veneza, no Teatro San Benedetto, regência de Alessandro Rolla

Duração: cerca de 7 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, 1 trombone, tímpanos, triângulo, bumbo, pratos, e as cordas (primeiros-violinos, segundos-violinos, violas, violoncelos, contra-baixos)

É interessante notar que enquanto Beethoven vivia as agruras de sua inadequação ao discurso operístico tradicional no remanejamento de sua "Leonore" (que iria re-estrear, no ano seguinte, 1814, como "Fidelio"), o jovem Rossini de 21 anos fazia brilhar seu primeiro grande sucesso, mas já a sua décima-primeira ópera, "A Italiana em Argel", retirando um certo bolor do qual o gênero padecia, conferindo à ópera italiana um novo fôlego.

A comédia conta sobre a linda Isabella, que quer libertar seu amado Lindoro, escravo de Mustafá, líder dos berberes em Argel, capital da Argélia. A música da abertura é simples, alegre, inventiva e cheia de verve, explorando o colorido da instrumentação com genial maestria. Um fato surpreendente é o tempo utilizado por Rossini para compor não só a abertura como toda a obra em dois atos, somando cerca de 2 horas de música: fontes apontam 18 dias, outras 27, mas o fato é que o jovem compositor não gastou mais que 3 semanas.

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(1879) SMETANA Suíte "Minha Pátria"

Má vlast

Compositor: Bedřich Smetana
Data da composição: de 1872 a 1879
Estréia: 5 de novembro de 1882 em Praga, regência de Adolf Čech — a Suíte completa

Duração: cerca de 1 hora e 15 minutos
Efetivo: 2 flautas, 1 flauta-piccolo, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, 1 tuba, tímpanos, bumbo, triângulo, prato, harpa, e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)
   
Smetana foi um dos primeiros compositores europeus dedicado ao patriotismo musical, seja por suas óperas históricas ou por seus Poemas Sinfônicos, quase sempre ligados à sua Bohemia natal. Em 1862, deixa um cargo importante em Gotemburgo, Suécia, para voltar a Praga motivado pelas notícias de que um Teatro Nacional seria construído para dar espaço às óperas tchecas. Em 1874, porém, viu-se definhar em saúde por causa da sífilis, e o efeito mais cruel da doença foi a perda da audição. Portanto quase a integralidade da concepção de "Minha Pátria" deu-se no interior agora silencioso da mente do compositor.
   
São seis Poemas Sinfônicos que perfazem uma Suíte que pinta em retratos a Bohemia, Praga e a identidade do povo tcheco.
 
I. Vyšehrad
Castelo Alto
Data da composição: rascunhos de 1872; 1874
Estréia: 14 de março de 1875 em Praga, regência de Ludwig Slansky
Lento — Largo maestoso — Grandioso poco largamente — Allegro vivo ma non agitato — Lento ma non troppo (Lento — Bem devagar e majestoso — Grandioso e quase vagarosamente — Rápido e vivo mas sem agitação — Lento mas não muito) — cerca de 16 minutos
É o único trecho iniciado antes da surdez se abater sobre o compositor. Smetana começa sua homenagem à terra pátria pelo símbolo máximo de poder dos antigos bohemios, Vyšehrad, local onde os primeiros reis da dinastia Premislida construíram sua fortificação (hoje parte do Castelo de Praga), e que deu origem aos assentamentos que hoje formam a capital tcheca. As harpas iniciam um prelúdio que simboliza o canto dos bardos despertando as recordações do passado glorioso de Vyšehrad. Evocam-se aqui torneios medievais, batalhas, e por fim sua decadência e queda quando o domínio de Carlos IV fez da Bohemia parte do Sacro-Império. Os temas expostos neste primeiro Poema Sinfônico darão origem a todos os demais da Suíte, numa perfeita coesão das idéias musicais.
 
II. Vltava
O Moldava
Data da composição: novembro a dezembro de 1874
Estréia: 4 de abril de 1875 em Praga, regência de Adolf Čech
Allegro comodo non agitato — L'istesso tempo ma moderato — L'istesso tempo — Tempo I — Più moto (Rápido mas confortavelmente e sem agitação — Mesmo andamento, mais moderado — Mesmo andamento — Volta ao andamento inicial — Bem movimentado) — cerca de 12 minutos
Este Poema Sinfônico traça o caminho do Rio Moldava, que corta o país e sua capital. É o trecho mais célebre da obra, muito mais executado que qualquer outra música do autor e muita gente desconhece que ele é parte de uma Suíte. Flautas e clarinetas, no início, simulam o correr dos ribeirões que ao se unirem (toque do triângulo e entrada das cordas graves) dão forma ao rio. O moldava então flui sereno por prados e matas, e sua melodia tipicamente tcheca se impõe. Caçadas nas florestas irrompem através das trompas. Os primeiros vilarejos, ouve-se ao longe as festas dos aldeões, em uma dança típica de ritmo marcado. O tema principal retorna, em tons escuros e de caráter cintilante: anoitece,, temos o brilho da lua prateada refletida nas águas calmas. O tema é re-apresentado com urgência, nos coloca no turbilhão das Corredeiras de São João (local que hoje não existe mais, pois deu lugar a uma represa), e o choque violento das águas nas rochas transporta para um breve redemoinho, e logo o rio se expande, para entrar majestoso na cidade de Praga. O reflexo do Vyšehrad nas águas faz soar o tema do movimento anterior. O rio passa pelas pontes da cidade e segue seu curso até ter suas águas (e com isso o tema da obra) dissolvidas no Rio Elba.
     
III. Šárka
Šárka
Data da composição: 1875; terminado a 20 de fevereiro de 1875
Estréia: 17 de março de 1877 em Praga, regência de Adolf Čech
Allegro con fuoco ma non agitato — Più moderato assai — Moderato ma con calore — Moderato — Molto vivo — Più vivo (Rápido com fogo mas sem agitação — Muito moderado mesmo — Moderado mas quente — Moderado — Muito vivo — Mais vivo) — cerca de 10 minutos
Obra de extrema violência — musical assim como de conteúdo —, Šárka é personagem da tradição tcheca, guerreira que quer vingar-se de todos os homens devido a uma decepção amorosa. A introdução expõe o ódio de Šárka. Ouvimos a marcha dos escudeiros de Ctirad. Um solo lânguido de clarineta reproduz o gemido de Šárka, que se fez amarrar a uma árvore para simular estar em perigo. O solo de violoncelo que se segue é a paixão imediata de Ctirad ao ver a jovem donzela em suposto perigo. Ele a liberta, e temos uma festa na qual Šárka faz com todos bebam um preparo que colocará a todos em sono profundo. Um chamado de trompas é o aviso ara que as guerreiras comandadas por Šárka venham aniquilar o grupo, e a música conclui na atmosfera do ódio cego de Šárka na terrível carnificina. Os toques de desespero da partitura, que se inserem na loucura da personagem-título, também refletem o estado de espírito de Smetana, a esta altura em deplorável condição física por conta da sífilis.
         
IV. Z českých luhů a hájů
Pelos prados e bosques da Bohemia
Data da composição: 1875; terminado a 18 de outubro de 1875
Estréia: 10 de dezembro de 1875 [?] em Praga
Molto moderato — Allegro poco vivo, ma non troppo —Allegro quasi Polka — Tempo I — Allegro — Presto (Muito moderado — Rápido um pouco vico, mas não muito —Rápido, quase uma polca — Volta ao primeiro andamento — Rápido — Correndo) — cerca de 13 minutos
O mais genérico da série, mas de certa forma, um dos mais fortemente simbólicos — ao lado do segundo, O Moldava — por retratar, como escrevera o autor, "os sentimentos que temos ao contemplar a paisagem da Bohemia". Como o faz a "Pastoral" de Beethoven, aqui tem-se um quadro da natureza. Há certa melancolia, mas também um genuíno júbilo de amor à terra pátria. Foi após escrever este quarto Poema Sinfônico que Smetana decidiu que os anteriores, mais este e os próximos dois, deveriam ser apresentados em conjunto sob o título de "Minha Pátria".
             
V. Tábor
Tábor
Data da composição: 1878; terminado a 13 de dezembro de 1878
Estréia: 4 de janeiro de 1880 em Praga
Lento — Grandioso — Molto vivace — Lento — Molto vivace —Lento maestoso — Più animato (Lento — Grandioso — Muito vivaz — Lento — Muito vivaz —Lento e majestoso — Bastante animado) — cerca de 12 minutos
Por motivos de saúde, Smetana interrompera por quase três anos o processo de composição e em 1878 volta com este "Tábor", cidade do sul da Bohemia onde no século XIV os guerreiros hussitas — reformadores boêmios que seguiam Jan Hus, e que mais tarde se juntaram aos luteranos — resistiram às forças oficiais da Igreja e dos nobres, que acabaram por aniquilá-los. É, em relação aos anteriores, um trecho mais conciso do ponto-de-vista temático, de sobriedade religiosa, cujo coral "Ktož jsú boží bojovníci" (Vós que sois os combatentes de Deus) serve de base. Smetana quis retratar com música mais fatalista e impositiva a grande força de caráter que via nesses bravos resistentes.
                 
VI. Blaník
Blaník
Data da composição: 1878/1879; terminado a 9 de março de 1879
Estréia: 4 de janeiro de 1880 em Praga, junto com o trecho anterior
Allegro moderato — Andante non troppo — Più allegro ma non molto — Tempo di marcia — Grandioso — Tempo I — Largamente maestoso — Grandioso meno — Allegro — Vivace (Rápido moderado — Calmamente mas não muito — Bem rápido mas nem tanto — Tempo de marcha — Grandioso — Volta ao andamento inicial — Vagarosamente e majestoso — Grandioso mas menos que antes — Rápido — Com vivacidade) — cerca de 14 minutos
É, na verdade, continuidade do Poema Sinfônico anterior e utiliza da mesma temática, seja musical ou de inspiração. Mas se Tábor fala dos hussitas reais, Blaník é a montanha na qual os cavaleiros de São Venceslau repousam um sono do qual despertarão para defender sua pátria quando esta estiver ameaçada. O hino dos hussitas ressurge, o tema do Castelo (primeiro trecho da Suíte) também voltará. Um episódio de caráter épico, vencedor.

Após o término desta composição e sua estréia como Suíte completa em 1882, Smetana piorou a olhos vistos. Surtos de loucura fizeram com que fosse afastado do convívio. O maior nacionalista tcheco morreu demente a 12 de maio de 1884. 
 
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(1892) TCHAIKOWSKY Suite "O Quebra-nozes"

Shhelkunchik, Balet-feerija — transliteração de Щелкунчик, Балет-феерия
(O Quebra-nozes, Balé feérico)

Compositor: Piotr Ilyich Tchaikowsky
Catálogo: Opus 71-a / TH 35 / ČW 32
Data da composição: de fevereiro de 1891 a abril de 1892
Estréias: 12 de março de 1892 — Sociedade Musical de São Petersburgo, regência do autor (a Suíte)
Estréias: 18 de dezembro de 1892 — Teatro Mariinsky em São Petersburgo, regência de Riccardo Drigo (o balé completo)

Duração: cerca de 25 minutos (o balé completo dura cerca de 1 hora e trinta minutos)
Efetivo: 2 flautas, 1 flauta-piccolo, 2 oboés, 1 corne-inglês, 2 clarinetas, 1 clarineta-baixo, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, 1 tuba, tímpanos, pratos, tamborim, triângulo, glockenspiel, celesta, harpa, e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)

A Suite, selecionada pelo próprio Tchaikowsky antes mesmo do balé completo estrear, para um concerto sinfônico sob sua direção, foi a responsável pelo enorme sucesso desta música. São 8 números de adorável musicalidade e invenção melódica, oriundos dessa obra fantástica extraída do universo do escritor E. T. A. Hoffmann — muito embora a inspiração direta de Tchaikowsky tenha sido tomada da versão de Alexander Dumas (pai).

Trata-se de um conta natalino no qual a menina Clara ganha brinquedos caros do padrinho, mas seu pai resolve guardá-los em seu escritório. Para consolá-la, o padrinho a entretem com um quebra-nozes em forma de soldado. Ao forçá-lo, Clara quebra o quebra-nozes e, triste, passa a embalá-lo em seus raços, cantando uma cantiga de ninar. Após todos irem dormir ela volta à Árvore de Natal e percebe que o quebra-nozes emite uma estranha luz. Inicia-se então um evento fantástico, os ratos aparecem, brinquedos tomam vida, biscoitos em forma de bonecos põe-se a marchar. O quebra-nozes toma a forma de um príncipe e a leva a conhecer seu reino encantado. É no Palácio dos Doces que se passa a cena da qual Tchaikowsky extraiu a maior parte dos números que compõe a Suíte.

I. Ouverture miniature: Allegro giusto 
(Abertura-miniatura: Rápido na medida certa) — cerca de 4 minutos
Para estabelecer o clima mágico, Tchaikowsky cria um efeito, como se nos transportasse para dentro de uma caixinha de música, numa instrumentação muito sutil e delicada. É, no caso, a abertura do próprio balé completo. 

II. Danses caractéristiques: (Danças típicas)

1. Marche: Tempo di marcia viva 
(Marcha: Tempo de marcha viva) — cerca de 2 minutos
Aqui entra a Marcha que segue à montagem da Árvore de Natal, logo no início do Primeiro Ato, quando as crianças se divertem brincando de soldados. Um interessante uso dos metais, revelando o hábil e sofisticado instrumentador que o compositor fora em sua última fase. Os demais números utilizados são todos da cena do Palácio dos Doces no início do Segundo Ato.

2. Danse de la Fée-Dragée: Andante ma non troppo 
(Dança da Fada açucarada: Com calma mas não tanto) — cerca de 2 minutos
A atraente e delicada dança na qual aparece o som da celesta e do glockenspiel para evocar a fada de açúcar nesse .reino de doces e brinquedos Este é o único trecho alterado pelo compositor, finalizando ligeiramente diferente da versão apresentada no balé completo.

3. Danse russe: Tempo di Trepak, molto vivace 
(Dança russa: Tempo de dança folclórica ucraniana, muito vivaz) — cerca de 1 minuto
Tchaikowsky em seu momento mais característico e empolgante, exalando a alma russa como só ele sabia traduzir. 

4. Danse arabe: Allegretto 
(Dança árabe: Sem arrastar) — cerca de 3 minutos
Um trecho muito evocativo, no balé completo utilizado para apresentar o café. Talvez o trecho mais denso da Suíte, apesar de seu inequívoco glacê.

5. Danse chinoise: Allegro moderato 
(Dança chinesa: Rápido moderado) — cerca de 1 minuto
No balé, a dança de apresentação do chá, também muito evocativa e original, trazendo à cena a atmosfera das porcelanas chinesas em seus delicados e detalhados ornamentos.

6. Danse des mirlitons: Moderato assai 
(Dança das flautas de brinquedo: Bem moderado) — cerca de 3 minutos
Um trio de flautas domina o trecho, criando um efeito surpreendente e muito sedutor, certamente a passagem mais brilhante e inventiva de toda a Suíte. 

III. Valse des fleurs: Tempo di Valse 
(Valsa das Flores: Tempo de valsa) — cerca de 7 minutos
A valsa que finaliza a Suíte é, no balé completo, o ante-penúltimo trecho, antes do Pas-de-deux e da Valsa-apoteose final. E permanece como o trecho mais popular, muitas vezes apresentada isolada, descolada tanto da Suíte como da obra completa. Um testemunho do gênio absoluto de um compositor que foi um dos maiores inventores de melodia em toda a história. 

A leveza e doçura da música combinada a uma profundidade emocional que lhe confere densidade e qualidade numa obra que poderia soar apenas ligeira e despretensiosa se explica ao contraste pelo qual o compositor passava naquele momento: se por um lado vivia a glória e o triunfo obtido por sua música no concerto inaugural do Carnegie Hall de Nova York em 1891, por outro ele via-se deprimido com o rompimento abrupto de sua patronesse Madame Von Meck, que retirava não só o suporte financeiro — de que certamente ele nem precisava mais — mas o indispensável apoio emocional nesta estranha relação vivida por cartas e nenhum encontro de presença física em 15 anos de intensa troca de experiências, testemunhos, opiniões artísticas e pessoais.

A Suíte serviu de inspiração para inúmeras adaptações, re-orquestrações e arranjos. O mais famoso produto dessa admiração foi proposto por Duke Ellington em 1960 em seu álbum "The Nutcracker Suite" no qual ele explora as geniais melodias do compositor russo numa releitura jazzística de grande efeito.

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A versão jazzística de Duke Ellington:


O balé completo:



(1922) WALTON Suite "Façade"

Façade, for reciter and ensemble
Façade – An Entertainment

Compositor: William Walton
Data da composição: 1922
Estréia: 12 de junho de 1923 — Aeolian Hall, Londres

Duração: cerca de 1 hora, a música completa — várias Suites de curta duração
Efetivo: 2 flautas, 1 flauta-piccolo, 2 oboés, corne-inglês, 2 clarinetas, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 1 trombone, 1 tuba, tímpanos, bumbo, pratos, xilofone, tamborim, triângulo, glockenspiel, castanholas, chocalho, e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)

Existem várias versões da obra para apresentação em concerto, dentre elas duas Suites selecionadas pelo próprio compositor, uma reunida pelo maestro Simon Rattle, e um balé de maior duração que as Suites. A obra completa, que mescla a instrumentação a um narrador que recita os poemas concretos de Edith Sitwell, grande amiga do compositor, foi modificada pelo próprio Walton em várias ocasiões.

O nome sugere disfarce, fingimento e denuncia certa hipocrisia social, uma vez que a tradução literal "Fachada" serve de gíria para tal comportamento. Trata-se de uma obra híbrida que reúne o espírito do musical, o clima de cabaré, uma inspiração jazzista, sob as tintas do modernismo então vigente. A música é luminosa, bem-humorada, escrita pelo jovem Walton, à época com 20 anos. A popular melodia do cartoon do Marinheiro Popeye, embora não exista nenhuma referência a isso, certamente foi em parte extraída de um dos temas de Walton.

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(1938) GLIÈRE Concerto para harpa

Compositor: Reinhold Moritzevich Glière
Número de catálogo: Opus 74
Data da composição: 1938
Estréia: 23 de novembro de 1938, com a harpista Ksenia Alexandrovna Erdeli, a Filarmônica do Conservatório de Moscou com regência de Leonid Steinberg

Duração: cerca de 25 minutos
Efetivo: harpa solista; 2 flautas, 2 oboeés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 3 trompas, tímpano, e as cordas (primeiros-violinos, segundos-violinos, violas, violoncelos, contra-baixos)

Um concerto de estrutura clássica em 3 movimentos, que se utiliza de uma modesta orquestra — mozartiana, por assim dizer — e tem estética mais parecida a um Schumann ou um Tchaikovsky, como se a peça tivesse sido criada meio século antes. Os andamentos são:

I. Allegro moderato (Rápido moderado) — cerca de 10 minutos
II. Tema con variazioni (Tema com variações) — cerca de 7 minutos
III. Allegro giocoso (Rápido e jocoso) — cerca de 8 minutos

Glière, um compositor ucraniano de ascendência belga, manteve seu estilo inalterado ao longo de sua longa carreira. Não deixou-se influenciar pela Revolução de 1917 e nunca foi incomodado pelo Regime — como seria Shostakovich — pois suas sonoridades agradavam às cabeças soviéticas por justamente manter um escopo tradicionalista e dando vazão ao colorido nacionalista, sem o território perigoso das grandes inovações.

Ele escreveu este Concerto para homenagear Ksenia Erdeli, professora do Conservatório de Moscou, a pioneira do instrumento na Rússia. Ela deu tantas indicações e sugestões que ele, generosamente, ofereceu-lhe co-autoria, honraria que ela recusou.

Trata-se de uma obra de agradáveis sonoridades, belas melodias, e exigência considerável por parte do solo.

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(1937) KABALEVSKY Abertura "Colas Breugnon"

Kola Brjun'on — transliteração de Кола Брюньон
Baseado na novela "Colas Breugnon" de Romain Rolland, 1914

Compositor: Dmitri Kabalevsky
Número de catálogo: Opus 24
Data da composição: 1937
Estréia: 22 de fevereiro de 1938, no Teatro Mikhailovsky de São Petersburgo

Duração: cerca de 5 minutos
Efetivo: 3 flautas, 3 oboeés, 3 clarinetas, 3 fagotes, 4 trompas, 3 trompetes, 3 trombones, 1 tuba, tímpano, xilofone, caixa clara, bumbo, harpa e as cordas (primeiros-violinos, segundos-violinos, violas, violoncelos, contra-baixos)

A novela escrita por Romain Rolland, sobre o este-carpinteiro da Borgonha que viveu no século XVI, é repleta de anedotas e reflexões bem-humoradas sobre a vida; em suma, um personagem cômico. Aliás, quando Rolland procurou Kabalevsky para propor que o texto fosse transformado em ópera, impôs essa condição, de que Colas não perdesse o caráter satírico: — "Colas sem riso não seria Colas, no resto, você tem carta branca!".

A Abertura, sempre mais popular que a ópera completa, vem sendo eternizada em disco desde Toscanini e agrada por seu frescor alegre e irônico, bem afeito ao espírito do personagem-título. Música festiva, de inequívoco colorido russo.

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Orquestra Filarmônica Tcheca

Česká filharmonie

Fundação: 4 de janeiro de 1896
Sede: Rudolfinum, Alšovo nábř. 12, Praga, República Tcheca

A orquestra tem origem no conjunto que tocava no Teatro Nacional em Praga, e se apresenta pela primeira vez com o nome de "Filarmônica Tcheca" em 1896 sob a batuta de ninguém menos que Antonín Dvořák! Em 1901 torna-se independente do teatro e em 1908 é dirigida por Gustav Mahler na estréia de sua Sétima Sinfonia. Mas a fama internacional da orquestra se firmou sob a direção do maestro Václav Talich, entre 1919 e 1941, uma gestão de duas décadas na qual a orquestra fez seu primeiro registro fonográfico, "Minha Pátria" de Smetana para o selo HMV em 1929.

Talich foi sucedido por Rafael Kubelík que ficou de 1942 a 1948), depois Karel Ančerl de 1950 a 1968 e Václav Neumann de 1968 a 1989. Depois da redemocratização, alguns dos diretores foram Vladimir Ashkenazy de 1996 a 2003 e Eliahu Inbal de 2009 a 2012.

Um conjunto de sonoridade sofisticada, com um passado histórico da maior importância. 

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Pietari Inkinen

Pietari Inkinen

Kouvola, Finlândia, 29 de abril de 1980

Começou estudando violino e piano aos 4 anos de idade e durante a adolescência teve uma banda de rock. Estudou na Academia Sibelius de Helsinque, graduando-se em violino em 2003 e posteriormente em regência em 2005. Especializou-se no violino em Colônia e toca num Carlo Bergonzi de 1732.

Em 2007 foi nomeado diretor assistente da Sinfônica da Nova Zelândia e no ano seguinte, com apenas 28 anos assumia o posto principal. Em 2009 é o principal regente convidado da Filarmônica do Japão, posto que manteve até 2016 quando passa a assumir a direção da orquestra. Desde 2015 é o diretor da Sinfônica de Praga.

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Daniil Trifonov

Дании́л Оле́гович Три́фонов — transliteração: Daniíl Olégovich Trífonov

Níjni Novgorod, Rússia, 5 de março de 1991

Filho de musicistas, ele começou a estudar piano com 5 anos de idade e aos 8 deu seu primeiro concerto com orquestra. Com 17 anos colocou-se em quarto lugar no Concurso Skriabin de Moscou. Em 2009 vai para Cleveland estudar. Em 2010 é o terceiro colocado no prestigiadíssimo Concurso Chopin em Varsóvia e recebe uma medalha especial da Rádio local pela melhor interpretação de uma Mazurka. Em 2011, com 20 anos, é o primeiro colocado no Concurso Arthur Rubinstein em Israel, e no mesmo ano vence também em primeiro lugar o dificílimo Concurso Tchaikowsky em Moscou. Daí para diante sua carreira deslancha, sob o olhar paternal e incentivador do maestro Valery Gergiev. 

Um artista vulcânico ao teclado, com leituras de alta voltagem emocional e imensa profundidade.

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Lawrence Foster

Lawrence Thomas Foster

Los Angeles, Califórnia, 23 de outubro de 1941

Filho de pais romenos, Foster nasceu em Los Angeles e estudou com o regente Fritz Zweig, fazendo cursos de aperfeiçoamento com Karl Böhm e Bruno Walter. Aos 18 anos estreou regendo em Los Angeles e sendo, no mesmo ano, nomeado regente do Balé da cidade de San Francisco. Em 1965, com 24 anos, é contratado como assistente de Zubin Mehta na Filarmônica de Los Angeles. Entre 1969 e 1972 foi o principal regente convidado da Royal Philharmonic em Londres. Já trabalhou como diretor artístico de conjuntos importantes como a Filarmônica de Monte Carlo, a Sinfônica de Jerusalém, a Câmera de Lausanne e a Sinfônica de Barcelona. Desde 2002 é o diretor da Orquestra da Fundação Gulbenkian de Lisboa. Tem especial gosto pela música contemporânea, sendo o responsável por estréias de obras de Birtwistle, Alexander Goehr e Gordon Grosse, e em 1997 regeu a primeira apresentação do Oratório "Standing Stone", incursão no mundo erudito do beatle Paul McCartney.

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