(1833) MENDELSSOHN Sinfonia n. 4 "Italiana"

Italienische
Italian
 
Compositor: Felix Mendelssohn
Número de catálogo: Opus 90 / MWV N 16
Data da composição: esboçada durante a viagem à Itália, entre 1830 e 1831; concluída em 13 de março de 1833, em Berlim
Estréia: 13 de maio de 1833, em Londres, na Philharmonic Society, sob a regência do compositor

Duração: cerca de 28 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos e cordas (primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos e contrabaixos)

A Sinfonia Italiana nasce de uma encomenda da Sociedade Filarmônica de Londres, que convida Mendelssohn para reger e pede que ele leve consigo, para a ocasião, uma obra nova. Diante desse compromisso, o compositor reabre as pastas de sua grande viagem à Itália e decide dar forma definitiva a materiais que vinham amadurecendo desde 1830 e 1831, quando ele passou por Veneza, Florença, Roma, Nápoles e Pompeia. O resultado seria a mais famosa de suas Sinfonias.

É importante, porém, não imaginar essa obra como um simples álbum de viagem transformado em som. Mendelssohn amou a luz italiana, as paisagens, as ruínas, a alegria física de estar no sul. Em carta, chegou a dizer que essa seria a peça mais alegre que ele jamais escrevera. Em outra, afirmava que precisava reservar a Sinfonia Italiana até ver Nápoles, porque Nápoles teria um papel nela. Essas frases revelam muito: a obra nasce da experiência da viagem, sim, mas de uma experiência em fermentação, ainda em processo, como se a Itália precisasse primeiro atravessá-lo por inteiro antes de se converter em música.

Ao mesmo tempo, a Itália que entrou nessa Sinfonia não foi a Itália real em estado bruto. As cartas de Mendelssohn mostram encantamento com a paisagem e com a vida das cidades, porém registram também decepção com parte da vida musical local. Igrejas, teatros e execuções do dia a dia muitas vezes lhe pareceram muito abaixo do que esperava. Por isso, a Italiana deve ser entendida como uma Itália filtrada: uma Itália da memória, da luz, da arte, das ruínas antigas e das danças populares. Em certo sentido, é uma Itália sonhada por um jovem alemão cultíssimo, que olhava o país também através do grande mito de Goethe e de tudo o que a viagem italiana significava para sua geração.

O público londrino a recebeu em êxtase, na estreia de 1833. A crítica percebeu imediatamente que havia ali uma obra destinada a permanecer. Só que o próprio Mendelssohn sofria com ela. Mais tarde, associaria sua composição a alguns dos momentos mais amargos de sua carreira. Durante anos, reviu sobretudo os três últimos movimentos, mexeu na partitura, recusou-se a publicá-la em vida e nunca se convenceu de que ela estivesse pronta. 

Por isso mesmo, a numeração engana. A Italiana se tornou a Quarta Sinfonia apenas na publicação póstuma, em 1851. Em termos de composição, ela foi a terceira grande Sinfonia de Mendelssohn, depois da Primeira e da Reforma. Após a morte do compositor, Ignaz Moscheles participou da organização dos manuscritos e da recuperação de obras que haviam permanecido inéditas. Foi assim que essa Sinfonia, retirada de circulação pelo próprio autor, voltou ao mundo e assumiu o lugar que tinha tudo para ocupar desde o princípio: a mais popular e mais querida dele, e uma das mais executadas do repertório.

A facilidade da Italiana é uma ilusão maravilhosa. Tudo nela parece natural. Tudo nela foi elaborado com cuidado. Mas ela é fruto de um processo dolorido. Depois de 3 anos em seu Grand Tour — a viagem de conhecimento da juventude abastada — no qual passou por Inglaterra, Escócia, Itália e culminou em Paris, ele tinha perdido seus 3 mestres (Goethe, seu professor de composição Zelter e seu professor de violino Rietz morreram em um espaço de dois meses), tinha visto sua Sinfonia Reforma recusada de forma humilhante em Paris, a sucessão de Zelter na Academia de Canto Coral lhe ser negada para dar lugar a um colega medíocre... Tudo parecia jogar contra.

 
I. Allegro vivace
(Rápido e vivaz— cerca de 9 minutos
O primeiro movimento traduz com perfeição a sensação de quem abre a janela e exclama: isto é a Itália. A música irrompe sem preparação, como se o sol já estivesse aceso desde o primeiro compasso. O que ouvimos aqui não é descrição literal de uma cidade, de um monumento ou de uma cena específica. O que Mendelssohn captura é a alegria e o brilho de uma paisagem que parece correr diante dos olhos. Mesmo nos momentos mais expansivos, a música conserva uma especial transparência. Lembra Mozart! É a felicidade em marcha.

Convém ouvir esse movimento com um pouco mais de atenção do que o seu brilho imediato costuma sugerir. A impressão de espontaneidade é real, porém por trás dela há uma construção admirável. As ideias se encadeiam com clareza e engenhosidade. Mendelssohn parecia ter encontrado um modo singular de ser clássico dentro do romantismo.
 
II. Andante con moto
(Passo de caminhada, com movimento) — cerca de 6 minutos 
O segundo movimento nos leva para outra Itália. A tradição costuma ouvi-lo como uma procissão religiosa, talvez romana, talvez napolitana, e essa imagem faz muito sentido. O clima é grave, a música avança com solenidade, de devoção, com respeito e silêncios. A exuberância do movimento anterior cede lugar a uma visão mais contemplativa. Percebe-se que a Italiana não é apenas festa, pois há também um mundo cerimonial, antigo.
 
III. Con moto moderato
(Com movimento, mas moderado— cerca de 6 minutos 
O terceiro movimento tem a elegância aristocrática que parece suspender a viagem por alguns instantes e nos levar às lembranças e experiências desse jovem rico e cultivado. Estamos nos salões aristocráticos de Berlim e Londres, ou na casa de Goethe em Weimar: compostura, bom gosto e sociabilidade. Ele nos transporta para um mundo de civilidade ideal. A beleza está justamente nesse prazer comedido, de forma e equilíbrio, como se a Sinfonia respirasse — por um breve momento — um ar de antigo refinamento antes de se lançar novamente ao turbilhão final.
 
IV. Saltarello: Presto
(Dança saltitante: bastante rápido) — cerca de 7 minutos 
O último movimento nos atira numa dança vertiginosa. Mendelssohn lhe deu o nome de Saltarello, a dança italiana tradicional ligada ao ato de saltar, pular, lançar o corpo para a frente. O movimento, porém, absorve também a energia da tarantela e transforma tudo isso em escrita sinfônica de pensada complexidade estrutural. Não se trata da ilustração folclórica, e sim uma dança levada ao extremo, com uma insistência rítmica que quase não respira.

É aqui que a Italiana revela seu ponto mais misterioso. Por que encerrar uma Sinfonia tão luminosa com um finale que tem algo de sombrio? A resposta talvez esteja justamente na complexidade da obra inteira. O Saltarello tem brilho, tem agitação, o fascínio das ruas e das festas populares. Ao mesmo tempo, carrega um tensão obsessiva, uma espécie de pressa implacável. Mendelssohn não conclui a Sinfonia com uma celebração tranquila. Ele a encerra em um turbilhão. A luz do início continua, mas agora atravessada por uma sombra.

Esse final ajuda a entender por que o compositor nunca ficou plenamente satisfeito com a obra. A Italiana parece perfeita ao ouvinte, porém talvez ele sentisse que a felicidade nela contida tinha qualquer coisa de incompleta, como se por baixo do seu esplendor corresse uma inquietação que ele não conseguia resolver de todo. Talvez seja justamente isso que torna a Sinfonia Italiana tão fascinante. Ela é uma música de juventude, fruto de uma viagem maravilhosa, contém claridade e entusiasmo, porém escrita por um artista já severo consigo mesmo. O público ouviu nela a perfeição. O compositor ouviu um problema sem solução.  Daí a longa revisão, a retirada da partitura de circulação, o silêncio editorial que durou até sua morte.


© RAFAEL FONSECA