(1843) MENDELSSOHN Música para "Sonho de uma Noite de Verão"

Ein Sommernachtstraum, Schauspielmusik (música de teatro)

Para conhecer a Abertura, escrita 17 anos antes: CLIQUE AQUI

Compositor: Felix Mendelssohn-Bartholdy
Número de catálogo: Opus 61
Data da composição: 1842 - 1843
Estréia: 14 de outubro de 1843, no Neues Palais em Potsdam

Duração: cerca de 50 minutos (sem a Abertura)
Efetivo: soprano solo, mezzo-soprano solo, coro feminino
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 2 trompas, 3 trompetes, 3 trombones, tímpanos, triângulo, pratos, cordas (primeiros-violinos, segundos-violinos, violas, violoncelos, contra-baixos)

No teatro falado do século XIX, a música de cena funcionava quase como um segundo elenco dentro do espetáculo. Os atores falavam o texto, e a orquestra — muitas vezes posicionada atrás do palco ou em uma tribuna lateral — entrava para abrir cenas, entreter o público durante mudanças de cenário, marcar passagens de tempo, criar atmosfera e, em determinados momentos, acompanhar trechos cantados por solistas e coros especificamente contratados para a produção. Era uma função estrutural do espetáculo, e não um mero adorno.

O Rei Frederico Guilherme IV da Prússia, encantado com a música que Mendelssohn havia escrito para uma encenação de Antígona, de Sófocles, encomendou-lhe que fizesse o mesmo para uma nova produção palaciana de Shakespeare. Isso colocou Mendelssohn, aos 34 anos e já atuando como diretor musical em Berlim, de volta a um texto que ele adorava. Dezessete anos antes, em 1826, o jovem compositor havia feito sua primeira aparição pública justamente apresentando a genial Abertura "Sonho de uma Noite de Verão", que condensava a atmosfera da peça de Shakespeare em pouco mais de dez minutos.

O mais impressionante é que o Mendelssohn de 34 anos não precisou alterar uma única nota do que escrevera aos 17. Para a montagem de 1843, ele manteve a Abertura juvenil intocada e compôs os novos números como continuidade natural, costurando a peça com interlúdios, melodramas e canções. O resultado é uma partitura que transita com enorme facilidade entre a leveza do reino das fadas, a nobreza da corte de Atenas e o humor rústico dos artesãos — e que contém, entre outras coisas, certamente a melodia mais difundida de Mendelssohn, não apenas entre os amantes da música clássica, mas na cultura popular como um todo: a Marcha Nupcial. Quantas e quantas noivas não entraram em igrejas com essa música?

Depois da morte do compositor, a obra ganhou vida própria nas salas de concerto, frequentemente executada em forma de Suíte. Abaixo, os principais números que compõem o corpo desta música de cena, na ordem em que aparecem na peça:

Scherzo (Em tom de brincadeira)
Este interlúdio serve como ponte entre o primeiro e o segundo atos — o momento em que deixamos a corte de Atenas e entramos de fato no reino das fadas, com Oberon, Puck e a magia da floresta. Em vez de escurecer o palco no silêncio, Mendelssohn cria um corredor sonoro que transporta a plateia do mundo das leis humanas para o terreno do sonho. A escrita é de um movimento nervoso e sem peso, sugerindo criaturas pequenas em disparada, com mudanças rápidas de direção, como se a música não tocasse o chão, passando por cima das coisas. Marca registrada do compositor, é um daqueles Scherzos cintilantes que só ele sabia fazer.
 
Lied mit Chor: "Bunte Schlang', Zungen rot" 
(Canção com coro: "Serpentes coloridas, línguas vermelhas)
Na peça, a Rainha das fadas, Titânia, vai dormir. E as fadas que a acompanham cantam uma canção para proteger o sono dela, mandando embora tudo o que pode incomodar ali no bosque: cobras, aranhas, besouros, morcegos. A música é uma canção de ninar entoada por duas vozes solistas e coro feminino, com a orquestra quase desaparecendo em certos trechos, deixando as vozes flutuarem no ar, vibrando na penumbra. Só mesmo Mendelssohn para criar essa aura de encantamento protetor, delicado, a sensação de floresta à noite, com o caráter fantástico que permeia o texto. O resultado é paradoxal: a lista de criaturas assustadoras se transforma em algo suave, quase infantil, como se o bosque fosse perigoso, mas domesticado pela canção.

Intermezzo (Entreato)
Abrindo o terceiro ato, o Intermezzo acompanha a confusão dos amantes e os desencontros na floresta, ao mesmo tempo em que prepara a entrada do grupo de artesãos que ensaiam sua peça dentro da peça. Aqui a comédia ganha um toque mais humano e uma corrente emocional turbulenta. A atmosfera muda: o brilho e a leveza do mundo das fadas dão lugar ao confuso turbilhão dos sentimentos humanos, como se o bosque tivesse se transformado em um labirinto. A música parece contar uma história sem palavras — um tema inicial mais decidido, seguido de episódios em que ela hesita, volta atrás, como se revisse os acontecimentos sob outro ângulo.

Notturno (Noturno)
Uma das grandes melodias de noite do século XIX e uma das maiores melodias de Mendelssohn. O Noturno acompanha o momento em que Puck corrige as confusões da noite e os amantes adormecem, preparando a passagem da noite encantada para o amanhecer em que as bodas serão celebradas. A melodia longa e regular nos sopros, apoiada por cordas suaves, sugere uma noite que acolhe e organiza o caos. Ela parece sempre retornar ao ponto de partida, como se desse voltas em torno de uma mesma lembrança — e essa circularidade contribui para a sensação de sonho recorrente, algo que não se fixa como declaração, mas insiste como lembrança difusa.

Hochzeitsmarsch (Marcha nupcial)
Perto do fim da peça, para celebrar os casamentos e a restauração da ordem entre humanos e o mundo das fadas, acontece a tão esperada Marcha Nupcial. É ela quem traz a sensação de final feliz. Depois de inúmeras idas e vindas, enganos e desenganos naquele bosque encantado, a história desemboca em um casamento triplo, de seis enamorados. A pompa é equilibrada por seções centrais mais íntimas, quase como se, no meio do cortejo público, a música abrisse janelas para um contentamento mais interior.

Na mesma peça em que, minutos antes, a rainha das fadas se apaixona por um sujeito com cabeça de burro. Não sei se Mendelssohn poderia prever que algo escrito para o teatro fantástico, permeado de humor e situações inusitadas, se tornaria um símbolo de compromisso nas igrejas mundo afora. O primeiro uso documentado da música em uma cerimônia real de casamento foi em 1847, na Inglaterra, três anos depois da estreia no teatro da corte prussiana. Em 1850, Liszt fez uma célebre adaptação para piano que ajudou a popularizar a melodia. E, em 1858, a filha da Rainha Vitória usou a Marcha como música de entrada em seu casamento com o Príncipe herdeiro da Prússia. Daí, a música se tornou símbolo das noivas. Uma música de teatro, para um casamento triplo de personagens fantásticos, absorvida pelo universo religioso.

Marcia funebre & Ein Tanz von Rüpeln (Marcha fúnebre e Dança de rústicos)
Contraste deliberado e puro humor teatral. Esses trechos acompanham a "peça dentro da peça" encenada pelos artesãos atenienses, o núcleo cômico popular da trama, os chamados mechanicals de Shakespeare. A Marcha fúnebre é curta e deliberadamente caricata: passos pesados, ritmo obstinado, uma paródia de solenidade trágica. Em seguida, a dança rústica explode em gestos ásperos e cômicos. Mendelssohn, inclusive, reaproveita o tema do "zurro do burro" da Abertura como material principal. Shakespeare mistura o nobre e o grotesco; Mendelssohn acompanha essa mistura, espirituoso sem virar vulgar, desenhando o riso com elegância.

Finale: "Bei des Feuers mattem Flimmern" (Final: "Ao brilho vacilante do fogo")
O epílogo da peça é uma despedida luminosa. Puck se dirige ao público pedindo que considere tudo como um sonho, enquanto o coro de fadas e a orquestra selam a história com uma bênção. A música vai encolhendo aos poucos, como se alguém apagasse, um a um, os focos de luz do palco. E, por fim, os quatro acordes que abriram a Abertura dezessete anos antes retornam, fechando o ciclo e cobrindo o palco com um véu de paz antes que o sonho evapore por completo. O teatro devolve o espectador ao seu mundo, embalado por um último gesto de magia.


© RAFAEL FONSECA