Schottische Sinfonie
Scottish Symphony
Compositor: Felix Mendelssohn
Número de catálogo: Opus 56 / MWV N 18
Data da composição: impulso inicial em 1829; retomada em 1841 com conclusão em 20 de janeiro de 1842
Data da composição: impulso inicial em 1829; retomada em 1841 com conclusão em 20 de janeiro de 1842
Estréia: 3 de março de 1842 em Leipzig, o compositor na regência da Orquestra da Gewandhaus
Duração: entre 38 e 42 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, tímpanos e cordas (violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)
A Sinfonia n. 3, conhecida como "Escocesa", é a última Sinfonia que Mendelssohn concluiu, embora a numeração de catálogo a coloque como terceira. As Sinfonias Italiana e Reforma, compostas anteriormente, foram retiradas de circulação pelo próprio autor durante sua vida e só retornaram ao repertório após sua morte, o que faz desta obra, na prática, a derradeira Sinfonia de Felix Mendelssohn.
A gênese da obra remonta a julho de 1829, quando o compositor, então com vinte anos, realizava a primeira etapa de seu Grand Tour na Grã-Bretanha. Em Edimburgo, visitou o Palácio de Holyrood e sua Capela em ruínas, associando o lugar à memória de Maria Stuart, que ali teria sido coroada — supôs ele erroneamente, pois a coroação ocorreu em Stirling em 1543 —, mas tal equívoco histórico pouco importa, o que conta é a força da impressão dele naquela paisagem. Em carta de 30 de julho de 1829, dirigida à família, Mendelssohn descreveu a cena com precisão visual: "tudo ao redor está quebrado e apodrecendo, e o céu claro brilha lá dentro"; e acrescentou ter encontrado ali o começo de sua Scottish Symphony. Junto à carta, enviou um esboço de dezesseis compassos que viriam a constituir o germe do primeiro movimento.
A sinfonia, porém, empacou naquele momento. O projeto ficou suspenso por treze anos. O próprio Mendelssohn explicou o abandono em carta posterior: o cenário enevoado da Escócia não combinava com o sol da Itália, para onde seguiu viagem. A obra permaneceu latente durante toda a década de 1830, período em que o compositor assumiu a direção da Orquestra da Gewandhaus, consolidou sua posição como a figura mais influente da vida musical alemã e acumulou compromissos que consumiam quase toda a sua energia criativa. Somente em 1841 ele a ele retomou, para concluí-la no início de 1842, em Berlim. Essa distância temporal é parte essencial do caráter da obra: o que se ouve não é um diário de viagem, não é a impressão imediata de um jovem arrebatado pela paisagem. É uma memória amadurecida, filtrada por treze anos de experiência profissional e humana, transformada em arte por um compositor que já não era o viajante entusiasmado de 1829, mas um artista maduro.
Um aspecto estrutural distingue esta sinfonia de quase todas as outras do período: Mendelssohn determinou, na partitura, que os quatro movimentos fossem executados sem interrupção. Não se trata de quatro peças independentes reunidas sob um título comum, mas de um arco contínuo em que cada seção desemboca na seguinte. Essa decisão altera profundamente a experiência de escuta: a Sinfonia adquire a qualidade de uma narrativa ininterrupta, onde os contrastes entre os movimentos funcionam não como rupturas, mas como transformações graduais de um mesmo pensamento.
A estreia ocorreu em 3 de março de 1842, na Gewandhaus de Leipzig, sob a regência do próprio Mendelssohn. No mesmo ano, durante sua temporada inglesa, o compositor estreitou laços com a Rainha Vitória e o Príncipe Albert, e a soberana aceitou a dedicatória da Sinfonia. A partitura foi publicada em 1843 pela Breitkopf & Härtel com a inscrição Ihrer Majestät der Königin Victoria von Grossbritannien und Irland. Essa dedicatória consolidava a posição de Mendelssohn como a presença musical estrangeira mais prestigiada na vida cultural britânica, e selava uma relação de admiração mútua entre o compositor o casal real, que se manteria até a morte prematura dele, em 1847.
I. Andante con moto — Allegro un poco agitato
(Passo de caminhada, com movimento — Rápido, um pouco agitado) — de 12 a 15 minutos
O primeiro movimento abre com uma introdução lenta que constitui, em essência, aquele esboço de dezesseis compassos enviado à família em 1829. A atmosfera é de penumbra solene: as cordas graves desenham uma melodia contida, de nobreza melancólica, como se a música estivesse entrando num espaço antigo e observando antes de agir. Há algo de cerimonial nesse início: a cerimônia da memória, do lugar que guarda vestígios de um passado irrecuperável. A partir dessa introdução, o movimento evolui para um Allegro agitado que não abandona a sombra inicial, mas a transforma em energia impulsiva. A tensão entre a gravidade contemplativa da abertura e a inquietação do corpo principal define o conflito central da Sinfonia inteira: sombra e claridade coexistem desde o primeiro compasso, e toda a obra se constrói sobre a negociação permanente entre esses dois polos.
II. Vivace non troppo
(Vivaz, sem ser demais) — cerca de 4 a 5 minutos
O segundo movimento introduz o elemento mais diretamente evocativo da paisagem escocesa. É o instante em que a paisagem deixa de ser ruína e memória e se torna vida. Há aqui um ritmo de dança, vivo e marcado, que sugere o folclore sem citá-lo literalmente. É como se Mendelssohn estivesse ouvindo de longe uma festa de aldeia. O caráter é de uma alegria que não se entrega por completo: os acentos são firmes, as figuras são rápidas, mas há sempre uma elegância de traço que impede a música de se tornar pitoresca ou anedótica. Dentro do arco contínuo da Sinfonia, este movimento funciona como um lampejo de cor e movimento entre duas zonas de maior densidade emocional, como faziam os Minuetos das Sinfonias clássicas.
III. Adagio
(Com calma) — de 8 a 11 minutos
Este terceiro movimento é o epicentro emocional da Sinfonia. Trata-se de uma frase solene, de beleza severa, construída como uma meditação. É o cortejo da memória, que desfila diante da consciência. A emoção vai tentando reter algo que escapa. É o ponto interiorizado da Sinfonia, a Escócia aqui não é um lugar, mas um estado de espírito, uma melancolia de dignidade rara. É uma das páginas mais belas que Mendelssohn escreveu.
IV. Allegro vivacissimo — Allegro maestoso
(Rápido com muita vivacidade — Rápido e majestoso) — 10 a 12 minutos
O finale retoma a energia conflituosa do primeiro movimento, agora com mais urgência. Há uma sensação de correnteza, de forças acumuladas que finalmente se desprendem. Mendelssohn conduz o movimento através de uma zona de turbulência até desembocar numa coda lenta e majestosa, que transforma radicalmente o caráter da música. Esse gesto final, cerimonial e luminoso, funciona como o encerramento de uma trajetória que percorreu as sombras, a dança, a meditação e o conflito. A Sinfonia termina com uma espécie de vitória serena, como se toda a travessia tivesse conduzido a um ponto de elevação onde a paisagem, enfim, se revela por inteiro, carregando a memória de tudo o que veio antes.
© RAFAEL FONSECA