(1824) MENDELSSOHN Sinfonia n. 1

Compositor: Felix Mendelssohn
Número de catálogo: Opus 11 / MWV N 13
Data da composição: concluída em 31 de março de 1824, em Berlim
Estréia: 14 de novembro de 1824 em audição privada, no 19º aniversário de Fanny Mendelssohn — estreia pública em 1º de fevereiro de 1827, em Leipzig, com a Gewandhausorchester

Duração: cerca de 30 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos e cordas (primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos e contrabaixos)

Obra surgida no ambiente do salão privado da família Mendelssohn. Depois de experimentar Concertos e passar anos em um laboratório doméstico compondo Sinfonias para orquestra de cordas, era chegada a hora de o jovem Felix se aventurar na Sinfonia verdadeira — não a obra reduzida, mas a Sinfonia abrangendo a orquestra completa. Chegamos, finalmente, à primeira obra presente no repertório atual das grandes orquestras. É importante entender que em Mendelssohn temos duas séries distintas: as Sinfonias para orquestra de cordas  e as 5 Grandes Sinfonias para orquestra completa, ciclo no qual esta Primeira se insere.
   
Escrita por um compositor de apenas 15 anos, essa Sinfonia só ganharia as Salas de concerto alguns anos mais tarde: primeiro na Gewandhaus de Leipzig, dois anos depois, e depois em Londres, regida pelo próprio Mendelssohn, cinco anos após a composição.
   
Esteticamente, é uma obra fascinante por se posicionar exatamente em um limiar: é como se fosse uma Sinfonia Clássica inserindo-se no Período Romântico. A elegância de Haydn e Mozart ainda domina a estética da música, mas a busca por arroubos mais intensos já se nota presente. A obra tem um sabor meio mozartiano, mas não ignora Beethoven — que estava, naquele mesmíssimo ano de 1824, às voltas com a histórica estreia da Nona Sinfonia em Viena. De fato, a Primeira de Mendelssohn se assemelha muito às Sinfonias de Schubert, pois o lugar de ambos na linha do tempo é o mesmo: compositores que conheceram as novas sonoridades arrebatadoras de Beethoven, mas que ainda usavam essa potência dramática com certa parcimônia. É o encontro perfeito entre a clareza da forma clássica e um certo rugir romântico.. 
 
I. Allegro di molto
(Rápido com pulso) — cerca de 9 minutos
A Sinfonia não pede licença para entrar; ela nos joga diretamente no meio da ação. Não há uma introdução lenta. O ouvinte é atingido por um uníssono das cordas, ríspido e urgente, enquanto os sopros tentam costurar a harmonia por trás. É um gesto de pura dramaticidade juvenil. Logo depois, surge um tema mais doce e cantável, mas a sensação de urgência nunca desaparece. A clareza com que Mendelssohn organiza tudo isso é impressionante: mesmo quando a orquestra inteira está tocando a plenos pulmões, o som nunca soa embolado. Se ele gostava da fúria beethoveniana, ela é domada pela transparência clássica. 
 
II. Andante
(Passo de caminhada) — cerca de 6 minutos 
O coração lírico da obra. Mendelssohn nos oferece uma melodia despretensiosa, serena, cantada pelos sopros sobre o tapete macio desenhado pelas cordas. Um passeio tranquilo, onde a harmonia flui com uma delicadeza que nos faz antever a elegância absoluta de suas futuras Canções sem Palavras
 
III. Menuetto: Allegro molto
(Passo miúdo: rápido e pulsante) — cerca de 6 minutos 
Nas Sinfonias dessa época, o modelo de Haydn ainda era o mais forte. Gerações posteriores terão Beethoven como um norte mais evidente — como Brahms, Dvořák ou Tchaikovsky —, mas nesses primeiros românticos, a régua de Haydn é muito clara, e isso fica evidente neste Minueto. Apesar do nome da antiga dança cortesã, o pulso aqui é tenso e cheio de energia. No meio dessa agitação, surge um episódio contrastante no qual o clima escurece: clarinetes e fagotes entoam um canto solene, quase religioso, enquanto as cordas sobem e descem. É um momento de suspensão mágica antes de a música voltar à sua agitação inicial.
 
IV. Allegro con fuoco
(Rápido com fogo) — 9 minutos 
O finale retoma a tempestade do primeiro movimento, lançando o ouvinte em um fluxo veloz e ininterrupto de notas. Mas o grande momento de exibição técnica acontece no meio do caminho: Mendelssohn constrói uma fuga, onde os naipes da orquestra começam a perseguir e imitar uns aos outros. É a prova cabal de que ele havia absorvido as lições de Bach com maestria. A fuga se dissolve naturalmente, e voltamos ao turbilhão orquestral, caminhando para um desfecho luminoso, com trompetes e tímpanos anunciando que o jovem gênio havia superado, com brilhantismo, o seu rito de passagem para a grande orquestra.

© RAFAEL FONSECA