Gruppen
Compositor: Karlheinz Stockhausen
Número de catálogo: Opus 104
Data da composição: de 1955 a 1957
Data da composição: de 1955 a 1957
Estréia: 24 de março de 1958, Rheinsaal da Kölner Messe, Colônia, Alemanha - Karlheinz Stockhausen, Bruno Maderna e Pierre Boulez regendo, cada um, uma das 3 orquestras
Duração: cerca de 25 minutos
Efetivo: (3 orquestras somando 109 músicos) 4 flautas, 3 flautas-piccolo, 1 flauta-contralto, 3 oboés, 2 cornes-ingleses, 1 clarinete-piccolo, 2 clarinetes, 1 clarinete-baixo, 1 saxofone-contralto, 1 saxofone-barítono, 3 fagotes, 8 trompas, 6 trompetes, 5 trombones-tenores, 1 trombone-baixo, 1 trombone-contrabaixo, 1 tuba-baixo, 26 violinos, 10 violas, 8 violoncelos, 6 contrabaixos, 1 glockenspiel, 2 celestas, 1 piano, 1 guitarra-elétrica, 2 harpas
A Europa ainda estava reconstruindo as suas cidades — e seu espírito pátrio — depois da Segunda Guerra. Nos estúdios de rádio e nas aulas de verão em Darmstadt, jovens compositores como Boulez, Nono e Stockhausen estavam tentando inventar uma música completamente nova. Nada do pós-Romantismo que havia precedido a Guerra, nem o neoclassicismo que tentou se impor, mas algo que partisse do zero, com regras rigorosas e uma imaginação sem limites.
Stockhausen tinha pouco mais de trinta anos e já era visto como uma das vozes mais importantes dessa revolução. A Westdeutscher Rundfunk, a Rádio de Colônia, o convidou para compor uma grande obra orquestral. Stockhausen aceitou, mas tinha uma ideia muito diferente do que era esperado.
Durante um retiro nos Alpes suíços, em Paspels, em 1955, Stockhausen olhou pela janela para as montanhas diante dele e teve uma revelação: aquelas linhas das cordilheiras subiam, se alargavam, se estreitavam e desapareciam... e aquilo era música. Aquilo era a forma que ele procurava. A irregularidade da realidade, bem diferente de uma Sinfonia tradicional. Uma sucessão de paisagens sonoras, blocos de som que se transformam como se fossem montanhas vistas em perspectiva.
Gruppen é escrita para três orquestras completas. Três orquestras dispostas em forma de ferradura ao redor da plateia, cada uma com seu próprio regente. E o ouvinte fica no meio delas. O ouvinte está cercado. O som pode vir da esquerda, da direita, de trás. Às vezes, as três orquestras tocam juntas. Às vezes, uma toca enquanto as outras silenciam. Às vezes, um grupo de instrumentos surge de um lado da sala enquanto outro desaparece do outro lado. O espaço da sala de concerto se torna, também, um instrumento.
Gruppen não é uma obra confortável, não se sai cantarolando uma melodia. Não existe um refrão que volta, nada é previsível. O que se tem é uma sucessão de blocos sonoros. Alguns explodem com enorme força, quando as três orquestras tocando juntas em um acorde massivo, com toda a energia que conseguem produzir. O elemento surpresa é a chave para apreciar a obra, o ouvinte tentando localizar de onde vem cada coisa.
Quando Gruppen estreou, em 1958, foi um acontecimento. A crítica reconheceu imediatamente que algo importante havia acontecido. Denis Smalley, crítico da revista Musical Times, descreveu a obra como um marco na música do século XX. Compositores posteriores — Xenakis, por exemplo — exploraram a ideia de orquestras divididas em grupos. A disposição espacial do som se tornou uma ferramenta a explorar. O espaço da sala de concerto se tornou parte da própria música. Gruppen também consolidou Stockhausen como a voz central da vanguarda europeia. Um compositor experimental, um pensador que estava redefinindo o que a música poderia ser.
A forma ideal de ouvir Gruppen é em concerto, no meio da disposição espacial pensada por Stockhausen. Ouvir uma gravação será frustrante. Pois ver as três orquestras e os três maestros é parte decisiva da experiência. Quem vai assistir a uma performance de Gruppen, deve ir com a mente aberta. Não ficar procurando uma obra tradicional, mas a sensação de estar dentro de um grande organismo sonoro que se transforma. Deve pensar em linhas de montanhas, como as que o autor viu, de Paspels. E deixar que Stockhausen conduza uma experiência que, em 1958, era completamente nova. E que hoje, quase setenta anos depois, continua sendo uma das experiências mais únicas que a música orquestral pode oferecer.
© RAFAEL FONSECA
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