(1723) VIVALDI As Quatro Estações

Il cimento dell'armonia e dell'inventione
Le quattro stagioni: La primavera
Le quattro stagioni: L'estate
Le quattro stagioni: L'autunno
Le quattro stagioni: L'inverno
(4 Concertos; Parte da Coletânea de 12 Concertos intitulada "O Embate entre a harmonia e a invenção")

Compositor: Antonio Vivaldi
Número de catálogo: Opus 8 / RV 269, 315, 293 e 297
Data da composição: por volta de 1723, ou mesmo antes

Duração: entre 36 e 44 minutos
Efetivo: 1 violino solista; cordas (primeiros-violinos, segundos-violinos, violas, violoncelos, contra-baixos) e baixo-contínuo (geralmente, 1 cravo)

Não há obra mais popular, no repertório da Música Clássica, que esta coletânea de quatro concertos para violino que juntas, como ciclo, tem o nome de As Quatro Estações. E a fama é justa, já que nenhum outro compositor barroco conseguiu engendrar obra mais criativa, impactante ou genial. Tudo n'As Quatro Estações encanta: seja a centelha enérgica de cada movimento, a beleza melódica, ou o mimetismo sonoro com uma natureza e uma vida campestre muito desejada.

As Quatro Estações são, na verdade, os quatro primeiros Concertos de uma coleção de doze, intitulada Il cimento dell'armonia e dell'inventione (O Embate entre a Harmonia e a Invenção). O título reflete o desafio que Vivaldi se impôs: o embate entre a estrutura formal e a ordem (a Harmonia) e a imaginação pictórica e a liberdade criativa (a Invenção). E nenhum outro Concerto da coleção exemplifica esse embate de forma tão genial quanto esses quatro primeiros. 
 
Publicada em Amsterdam, em 1725, pelo editor Michel-Charles Le Cène, sucessor de Estienne Roger (o mesmo que havia lançado o revolucionário L'estro armonico de Vivaldi em 1711), a coleção foi dedicada ao Conde Wenzel von Morzin, um nobre boêmio que, segundo o próprio Vivaldi na dedicatória, já apreciava os concertos em cópias manuscritas "há alguns anos", evidência de que as obras já circulavam e eram admiradas antes mesmo de sua publicação oficial.

A grande revolução de As Quatro Estações está na forma como Vivaldi eleva a música descritiva a um novo patamar. Ele associa cada um dos quatro Concertos a um Soneto (provavelmente de sua própria autoria, segundo o consenso acadêmico), cujos versos são inseridos na partitura em pontos específicos. A música deixa de ser apenas som e se torna uma descrição explícita, um roteiro sonoro que guia o ouvinte através de cenas detalhadas: o canto dos pássaros, o sono do pastor, a violência da tempestade, a alegria da caça, o frio cortante do inverno. É a música de programa em sua forma mais poética até então.

O sucesso foi imediato e estrondoso. A publicação em Amsterdam garantiu uma difusão europeia sem precedentes. Em Paris, o sucesso foi tamanho que uma edição pirata surgiu poucas semanas após o lançamento oficial. O Concerto da Primavera entrou para o repertório do prestigioso Concert Spirituel em 1728 e, em 1730, o próprio rei Luís XV pedia para ouvi-la em seus aposentos. A obra se tornou tão icônica que inspirou outras criações: o compositor Michel Corrette a transformou em um moteto sacro, Laudate Dominum de Cœlis (c. 1765), e o filósofo Jean-Jacques Rousseau, um entusiasta da música, publicou em 1775 um arranjo da Primavera para flauta solo.

Após um período de esquecimento, como grande parte da obra de Vivaldi, As Quatro Estações ressurgiram no século XX com uma força avassaladora, impulsionadas pelo mercado fonográfico. A famosa frase atribuída a Stravinsky — de que Vivaldi teria escrito o mesmo concerto 400 vezes — se desfaz diante da inventividade inesgotável destes quatro concertos. O que Stravinsky de fato disse foi algo mais contido: — "Vivaldi é muito superestimado... um sujeito maçante que conseguia compor a mesma forma tantas vezes". Injusto. 
 
A popularidade contínua da obra, que inspira até mesmo projetos de recomposição, como o de Max Richter em 2012, prova o contrário: a genialidade de Vivaldi reside justamente em, dentro de uma mesma forma, criar universos sonoros infinitamente variados.
 

Concerto n. 1, La primavera
A Primavera
Número de catálogo: Opus 8 n. 1 / RV 269
Duração: cerca de 11 minutos
 
I. Allegro (Rápido) 
O concerto abre com o tema da primavera, festivo e contagiante. Logo, os violinos solistas imitam o canto dos pássaros em trinados agudos. As cordas evocam o murmúrio das fontes, até que uma súbita mudança de tom anuncia a chegada de uma tempestade, com trovões e relâmpagos representados por passagens rápidas e dramáticas. A calmaria retorna, e os pássaros voltam a cantar.
 
Giunt' è la Primavera e festosetti
La Salutan gl' Augei con lieto canto,
E i fonti allo Spirar de' Zeffiretti
Con dolce mormorio Scorrono intanto:
Vengon' coprendo l'aer di nero amanto
E Lampi, e tuoni ad annuntiarla eletti
Indi tacendo questi, gl' Augelletti
Tornan di nuovo al lor canoro incanto:

Chegada é a Primavera e festejando
A saúdam as aves com alegre canto,
E as fontes ao expirar do Zeferino
Correm com doce murmúrio.
Uma tempestade cobre o ar com negro manto
Relâmpagos e trovões são eleitos a anunciá-la;
Logo que ela se cala, as avezinhas
Tornam de novo ao canoro encanto. 
 
II. Largo (Bem devagar)
Uma das mais belas criações de Vivaldi. O violino solista canta uma melodia serena, representando o pastor que dorme em um prado florido. As violas, em notas repetidas e rústicas, imitam o latido do cão fiel que vigia o sono de seu dono. Os violinos, em movimento suave, pintam o farfalhar das folhas.
 
E quindi sul fiorito ameno prato
Al caro mormorio di fronde e piante
Dorme 'l Caprar col fido can' à lato.

Diante disso, sobre o florido e ameno prado,
Ao agradável murmúrio das folhas
Dorme o pastor com o cão fiel ao lado. 

III. Allegro: Danza Pastorale (Rápido, Dança pastoril)
Uma dança campestre celebra a chegada da primavera. O ritmo evoca o som de gaitas de foles e a alegria dos camponeses dançando sob o céu primaveril, encerrando o concerto em uma atmosfera de pura celebração.

Di pastoral Zampogna al suon festante
Danzan Ninfe e Pastor nel tetto amato
Di primavera all' apparir brillante.

Da pastoral Zampónia ao Suon festejante
Dançam ninfas e pastores sob o abrigo amado
Da primavera, cuja aparência é brilhante. 

Concerto n. 2, L'estate
O Verão
Número de catálogo: Opus 8 n. 2 / RV 315
Duração: cerca de 10 minutos
 
I. Allegro non molto (Rápido mas contido) 
O movimento retrata o calor sufocante do verão. A música é lânguida, quase imóvel. O canto do cuco (violino solo) quebra o silêncio, seguido pelo canto da rola e do pintassilgo. Uma brisa suave (o vento Zéfiro) agita o ar, mas logo é interrompida pelo vento norte, prenúncio da tempestade. O pastor chora, temendo a fúria que se aproxima.

Sotto dura stagion dal sole accesa
Langue l’huom, langue ‘l gregge, ed arde ‘l pino,
Scioglie il cucco la voce, e tosto intesa
Canta la tortorella e ‘l gardellino.
Zeffiro dolce spira, ma contesa
Muove Borea improvviso al suo vicino;
E piange il Pastorel, perché sospesa
Teme fiera borasca, e ‘l suo destino;

Sob a dura estação, pelo Sol incendiada,
Lânguidos homem e rebanho, arde o Pino;
Liberta o cuco a voz firme e intensa,
Canta a corruíra e o pintassilgo.
O Zéfiro doce expira, mas uma disputa
É improvisada por Borea com seus vizinhos;
E lamenta o pastor, porque suspeita,
Teme feroz borrasca: é seu destino [enfrentá-la].
 
II. Adagio — Presto (Com calma — Muito rápido)
O pastor, exausto, tenta descansar, mas é atormentado por moscas e vespas (sons mimetizados genialmente). Ao longe, os trovões já ressoam, aumentando a angústia.

Toglie alle membra lasse il suo riposo
Il timore de’ lampi, e tuoni fieri
E de mosche, e mosconi il stuol furioso: 

Toma dos membros lassos o repouso
O temor dos relâmpagos e os feros trovões;
E de repente inicia-se o tumulto furioso! 

III. Presto (Muito rápido)
A tempestade de verão desaba com fúria total. A orquestra inteira é mobilizada para descrever a violência da chuva, dos ventos e dos relâmpagos, em um dos movimentos mais dramáticos e viscerais de toda a obra.

Ah che pur troppo i suoi timor sono veri
Tuona e fulmina il cielo grandinoso
Tronca il capo alle spiche e a’ grani alteri.

Ah! No mais o seu temor foi verdadeiro:
Troa e fulmina o céu, e grandioso [o vendaval]
Ora quebra as espigas, ora desperdiça os grãos [de trigo]. 

Concerto n. 3, L'autunno
O Outono
Número de catálogo: Opus 8 n. 3 / RV 293
Duração: cerca de 13 minutos
 
I. Allegro (Rápido) 
O movimento celebra a colheita. Os camponeses dançam e cantam, celebrando o vinho e a figura de Baco. A música é alegre e rústica. Aos poucos, o vinho começa a fazer efeito, e a dança se torna mais lenta e pesada, até que todos adormecem, embriagados.

Celebra il Vilanel con balli e Canti
Del felice raccolto il bel piacere
E del liquor di Bacco accesi tanti
Finiscono col Sonno il lor godere 
 
Celebra o aldeão com danças e cantos
O grande prazer de uma feliz colheita;
Mas um tanto aceso pelo licor de Baco
Encerra com o sono estes divertimentos.
 
II. Adagio molto (Com muita calma)
A calmaria após a festa. O cravo solista desenha uma melodia suave e tranquila, representando o sono dos camponeses sob o ar ameno do outono. A atmosfera é de paz e silêncio.

Fa' ch' ogn' uno tralasci e balli e canti
L' aria che temperata dà piacere,
E la Staggion ch' invita tanti e tanti
D' un dolcissimo sonno al bel godere.

Faz a todos interromper danças e cantos,
O clima temperado é aprazível;
E a estação convida a uns e outros
Ao gozar de um dulcíssimo sono. 

III. Allegro: La caccia (Rápido, A Caça)
A caçada. Ao amanhecer, os caçadores partem com suas trompas, imitadas pelos violinos. A música descreve a perseguição à presa, a fuga, os tiros, os latidos dos cães. A fera, ferida, tenta escapar, mas sucumbe, e o movimento termina em um clímax triunfante.

I cacciator alla nov'alba à caccia
Con corni, Schioppi, e cani escono fuore
Fugge la belva, e Seguono la traccia;
Già Sbigottita, e lassa al gran rumore
De' Schioppi e cani, ferita minaccia
Languida di fuggir, mà oppressa muore.
  
O caçador, na nova manhã, à caça,
Com trompas, espingardas e cães, irrompe;
Foge a besta, mas seguem-lhe o rastro.
Já exausta e apavorada com o grande rumor,
Por tiros e mordidas ferida, ameaça
Uma frágil fuga, mas cai e morre oprimida! 

Concerto n. 3, L'inverno
O Inverno
Número de catálogo: Opus 8 n. 4 / RV 297
Duração: cerca de 9 minutos
 
I. Allegro non molto (Rápido, mas contido) 
O movimento descreve o frio cortante do inverno. As notas dissonantes e repetidas dos violinos imitam o bater dos dentes. O violino solo corre e bate os pés para se aquecer. A música evoca o vento gelado e a neve caindo implacavelmente.

Agghiacciato tremar tra nevi algenti
Al Severo Spirar d' orrido Vento,
Correr battendo i piedi ogni momento;
E pel Soverchio gel batter i denti;

Agitado tremor traz a neve argêntea;
Ao rigoroso expirar do severo vento
Corre-se batendo os pés a todo momento
Bate-se os dentes pelo excessivo frio. 
 
II. Largo (Bem devagar)
Em contraste com o frio exterior, este movimento nos leva para o interior de uma casa. O violino solo canta uma melodia calorosa e lírica junto à lareira, enquanto lá fora, a chuva cai, representada pelo pizzicato (o beliscar) das cordas. É um momento de conforto e paz.

Passar al foco i dì quieti e contenti
Mentre la pioggia fuor bagna ben cento

Ficar ao fogo quieto e contente
Enquanto fora a chuva a tudo banha; 

III. Allegro (Rápido)
O movimento final descreve o desafio de caminhar sobre o gelo. O violino solo anda com cuidado, escorrega, cai, se levanta e corre novamente, temendo que o gelo se quebre. A música descreve a luta contra os ventos cortantes e a força da natureza, encerrando a obra com uma energia feroz e determinada.

Caminar Sopra il ghiaccio, e a passo lento
Per timor di cader girsene intenti;
Gir forte Sdruzziolar, cader a terra
Di nuovo ir Sopra 'l giaccio e correr forte
Sin ch' il giaccio si rompe, e si disserra;
Sentir uscir dalle ferrate porte
Scirocco, Borea, e tutti i Venti in guerra
Quest' è 'l verno, ma tal, che gioja apporte.

Caminhar sobre o gelo com passo lento
Pelo temor de cair neste intento.
Girar forte e escorregar e cair à terra;
De novo ir sobre o gelo e correr com vigor
Sem que ele se rompa ou quebre.
Sentir ao sair pela ferrada porta,
Siroco, Borea e todos os ventos em guerra;
Que este é o Inverno, mas tal, que [só] alegria porta

As Quatro Estações são a prova definitiva da genialidade de Vivaldi. Elas ajudaram a consolidar o modelo do Concerto para solista, e levaram a música de programa a um novo patamar de expressão poética. Um fenômeno cultural que transcende o tempo.

© RAFAEL FONSECA