(1840) MENDELSSOHN Sinfonia n. 2 “Canto de Louvor”

Sinfonie Nr. 2, Sinfoniekantate „Lobgesang“
Sinfonia-Cantata “Canto de Louvor”
 
Compositor: Felix Mendelssohn
Número de catálogo: Opus 52 / MWV A 18
Data da composição: 1839-1840, concluída pouco antes da estreia
Estréia: 25 de junho de 1840, em Leipzig, na Thomaskirche, com o compositor regendo

Duração: entre 60 e 75 minutos
Efetivo: 3 solistas vocais (1 soprano, outra soprano ou mezzo, 1 tenor) e coro misto;
Efetivo: 2 flautas, 1 flauta-piccolo), 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, tímpanos, órgão, cordas (violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)

O ano era 1840 e a cidade de Leipzig estava empenhada em celebrar, em grande escala, o Quarto centenário da invenção da imprensa por Johannes Gutenberg. A cidade orgulhava-se, então, de sua condição de capital alemã do livro, graças às feiras literárias, às tipografias e ao grande número de editoras ali concentradas. Gutenberg nunca esteve em Leipzig, mas a cidade se via como o grande centro de difusão de livros e partituras para toda a Europa.

Mendelssohn, já diretor da Orquestra da Gewandhaus e figura central da cidade, foi chamado a compor uma obra capaz de unir solenidade religiosa e celebração cívica. A encomenda não pedia uma Sinfonia abstrata, e sim um gesto de ação de graças à altura do significado que a imprensa assumira para uma cidade luterana e letrada: o livro como instrumento de propagação da Bíblia, dos hinos, dos autores e suas ideias. O compositor respondeu com uma obra híbrida, à qual deu o nome de Sinfonia-Cantata, intitulada Lobgesang, em português Hino de louvor ou Cântico de louvor. O festival organizado por Leipzig para celebrar os quatrocentos anos da imprensa desenvolveu-se ao longo de três dias e culminou num grande concerto realizado na Thomaskirche, a Igreja de Bach. 

Na numeração das sinfonias de Mendelssohn, a obra acabaria recebendo o número 2. Na verdade, é a penúltima das 5. As Sinfonias Italiana e Reforma já existiam, mas haviam sido retiradas de circulação pelo próprio autor e só retornariam efetivamente ao repertório orquestral depois de sua morte. 

A forma escolhida por Mendelssohn é deliberadamente híbrida. A Lobgesang começa com três movimentos puramente orquestrais e desemboca em seguida numa ampla parte vocal construída sobre textos bíblicos em alemão, predominantemente salmos e passagens de Isaías e da Epístola aos Romanos, em formulação ligada à tradução de Lutero, além da presença de um conhecido hino luterano. Daí o nome Sinfonia-Cantata: não se trata de justapor mecanicamente uma Sinfonia e uma Cantata, mas de fundir duas tradições num mesmo arco expressivo. 

Ela ocupa um lugar singular na produção de Mendelssohn. A recepção inicial foi excelente e a obra foi apresentada naquele mesmo ano em Birmingham, sob a regência do próprio Mendelssohn, no Festival local do qual ele era agora o diretor. 

 
I. Maestoso con moto — Allegro
(Majestosamente e com movimento — Rápido— de 10 a 13 minutos
O primeiro movimento traz uma solenidade enérgica, mas limpa, de contornos claros, muito característica dele. Mesmo quando quer soar grandioso, Mendelssohn não abandona a elegância. O tema de abertura tem caráter de proclamação. Os trombones lançam um chamado, criando a atmosfera de cerimônia pública. Há figuras ascendentes, que sugerem elevação em direção à luz, e a escrita contrapontística, que deixa entrever a formação bachiana do compositor. Passada a introdução lenta, a música ganha ares de marcha e energia festiva. O lema inicial dos trombones, retomado depois, ajuda ainda a unificar o percurso.
 
II. Allegretto un poco agitato
(Quase rápido, um pouco agitado) — cerca de 6 ou 7 minutos 
No segundo movimento, a atmosfera muda completamente: depois da solenidade do início, Mendelssohn recua para um plano mais íntimo e reflexivo, quase como o Minueto de uma Sinfonia clássica, trazendo leveza e respiro antes da retomada dos temas mais densos. Essa leveza, porém, não é serena: há uma inquietação sob a superfície, como se a obra ainda guardasse a memória da sombra antes da luz. No centro, a aparição de uma melodia de coral luterano faz a despertar emoção de quem conhece o tema.
 
III. Allegro religioso
(Rápido com caráter religioso— de 6 a 8 minutos 
No terceiro movimento, Mendelssohn diminui ainda mais a pulsação e entra no clima religioso, contemplativo e profundo. É a calma antes da tempestade: depois da inquietação do segundo movimento, a música se estabiliza numa nobreza serena, litúrgica, como se toda a parte instrumental estivesse assentando o espírito do ouvinte para a entrada das vozes a partir do próximo movimento. Uma oração sem palavras que prepara o instante em que o louvor enfim será pronunciado.
 
IV. a XIII. Cantata
(Parte cantada) — 50 minutos ou mais
A partir do quarto movimento, a obra deixa de ser apenas Sinfonia e assume de vez a forma de Cantata, exatamente como Mendelssohn quis ao chamá-la de Sinfonia-Cantata. O tema anunciado pelos trombones no início retorna agora carregado de memória religiosa e, com a entrada das vozes, a música parece enfim encontrar suas palavras. Se a comparação com a Nona de Beethoven é inevitável, a solução de Mendelssohn é outra: aqui o bloco vocal não aparece apenas como conclusão, e sim como o verdadeiro coração da obra, numa sucessão de coros, hinos e intervenções solistas que lembra a respiração ampla de uma cantata de Bach incorporada a uma Sinfonia moderna. 
 
Os corais e grandes coros falam em louvor coletivo, gratidão e passagem das trevas para a luz; os 3 solistas, por sua vez, dão rosto mais íntimo a essa experiência. O ouvinte passa então por uma trajetória muito bem desenhada: da sombra à claridade, até que a música se expande cada vez mais, como se uma comunidade inteira despertasse para cantar, todos juntos. No final, a sensação é de plenitude; é espiritual, ao mesmo tempo. Como se toda uma cidade cantasse unida para concluir seu próprio ritual de celebração.


© RAFAEL FONSECA



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