(1808) BEETHOVEN Sinfonia n. 5

Compositor: Ludwig van Beethoven
Número de catálogo: Opus 67
Data da composição: 1804 a 1808
Estreia: 22 de dezembro de 1808 — Theater an der Wien, Viena, regência do compositor

Duração: 29 a 33 minutos
Efetivo: 2 flautas, 1 piccolo, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 1 contrafagote
2 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, tímpanos, cordas (primeiros-violinos, segundos-violinos, violas, violoncelos, contra-baixos)

A Quinta de Beethoven é a síntese da Sinfonia Romântica, e dela derivam inspirações para muitas e muitas obras posteriores (ao ponto de algumas a “citarem”, literalmente, como as Quintas de Sibelius, Shostakovich e Mahler). Depois da revolucionária “Eroica”, a Terceira, e de uma Quarta que repensa a estrutura das Sinfonias Clássicas de Haydn, a Quinta concentra o foco num tema de singela simplicidade — o famoso “tam-tam-tam-taaaam” — e desloca de uma vez por todas o produto final artístico do estético para o experiencial: não se ouve a Quinta com indiferença; o discurso musical exige do ouvinte participação ativa e atenção total.

Estranho saber que ela é composta em concomitância com a Sexta, a “Pastoral”, dela tão diferente e tão irmã. Eu enxergo, nas Sinfonias de Beethoven, uma respiração: há expansão e retração. As ímpares são impositivas, avançam, ousam; já as pares recuam, como se o compositor quisesse tomar fôlego. A Quinta é o avanço gêmeo do recuo da Pastoral: as duas nasceram lado a lado, na mesma época, e subiram ao palco na mesma noite. Partindo de uma temática quase telegráfica — o já citado “tam-tam-tam-taaaam” — Beethoven constrói toda uma obra impactante sem recorrer a nada muito diferente desse material. A obra é, antes de tudo, pulso, ritmo. Daí ser tão assimilável, mesmo àqueles que não estão acostumados ao repertório sinfônico. Seu sentido interno nos soa orgânico, natural.

Ainda que estruturalmente ela seja clássica — o primeiro movimento em Allegro, seguido de um movimento lento, depois um Scherzo, e por fim o Allegro final — ela inova ao aglutinar os dois últimos movimentos, os colocando em sequência, sem interrupção, e surpreende ao deixar recair no finale a grande marcha triunfal que, apesar do impacto do início da obra, é o que faz explodir o júbilo nos corações dos ouvintes. Isso, assim, pensado hoje sem muita reflexão, pode nos parecer corriqueiro; mas para a estrutura da Sinfonia foi algo absolutamente revolucionário: as Sinfonias anteriores tinham seu “peso dramático” no primeiro movimento, e o que vinha a seguir (movimento lento, minueto e finale) eram meros desdobramentos. A Quinta não! Ela é, desde o início, um caminhar ao imaginário pico da montanha. Desde a primeira nota, Beethoven está construindo esse percurso heroico, antecipação da trajetória mítica traduzida em música, que somente Mahler poderá compreender, já quase um século depois.

A estreia, porém, não anunciou nada disso. A noite de 22 de dezembro de 1808 foi aquela mesma récita-maratona na qual o Concerto para piano n. 4 veio à luz: quase quatro horas só de obras novas, em um teatro gelado, com uma orquestra mal ensaiada; e a Quinta passou quase despercebida. A consagração veio em 1810, pela pena de E. T. A. Hoffmann, o grande escritor, que dedicou à obra uma resenha histórica: nela, a Quinta é declarada uma das criações capitais do espírito do tempo, e nasce ali, pode-se dizer, a própria ideia de música romântica. Conta-se ainda que, em 1830, o jovem Mendelssohn tocou uma redução da Quinta ao piano para Goethe, e o velho poeta reagiu atônito: aquilo era grandioso e louco; era como se a casa fosse desabar.

I. Allegro con brio
(Rápido com brio) — cerca de 7 minutos
São três notas curtas, repetidas, e uma longa. Tam-tam-tam-taaaaam. E assim o destino bate à porta... Bate? Não, não bate. Essa bobagem foi perpetuada por Anton Schindler, um puxa-sacos que desfrutava da confiança de Beethoven e que semeou inúmeras lendas a seu respeito, inclusive numa biografia (a primeiríssima a ser publicada após a morte do grande compositor). Mas o efeito desse enunciado é único, e não há quem não o reconheça. E será este o material temático a ser explorado durante toda a obra!

Esse material é, também, a impressão digital de Beethoven. A Quinta levou quatro anos para ficar pronta: esboçada logo depois da Eroica, foi interrompida vez após vez pela ópera Fidelio, pela Sonata Appassionata, pelos Quartetos Razumovsky, por 3 Concertos (Triplo, piano n. 4 e violino) e pela Quarta Sinfonia. E, enquanto dormia na gaveta, o microtema vazava para as obras vizinhas: ele é reconhecível na introdução da Appassionata, está na abertura do Quarto Concerto para piano, está no terceiro movimento da Quarta Sinfonia. Depois dela, atravessaria a história: ecoa na Primeira de Brahms, ecoa nos temas do destino das Quarta e Quinta Sinfonias de Tchaikovsky, no trompete solitário que abre a Quinta de Mahler, em uma canção de Rachmaninoff chamada, justamente, “Destino”. Três curtas e uma longa: a assinatura de um homem, gravada na música de um século.

II. Andante con moto
(A passo de caminhada com movimento) — de 8 a 11 minutos
Um tema doce e calmo, mas que traz consigo um poder reflexivo que prova a gênese Romântica dessa obra, já que as Sinfonias Clássicas colocariam aqui uma frase lírica, mas não tentariam puxar o ouvinte em direção às suas inquietações. 
 
III. Allegro
(Rápido) — cerca de 5 minutos
Este movimento e o próximo são tocados sem interrupção, e formam, na verdade, um finale só. Após uma frase dos violoncelos e contra-baixos, as trompas convidam a este Scherzo denso e altivo; e o chamado das trompas é o próprio microtema, vestido agora como fanfarra de caça. E, esteticamente, temos a inserção de um novo elemento no jogo sinfônico. Para além da harmonia, da busca pela perfeição e beleza, há o “efeito”. O exemplo magistral está no modo como este movimento se recusa a terminar. Em vez de uma finalização da ideia, Beethoven cria uma sensação de depressão atmosférica, uma tensão angustiada, uma apreensão: a orquestra recua a um sussurro, as cordas caminham na ponta dos pés, e por baixo de tudo os tímpanos batem, baixinho e sem parar, as três curtas e uma longa. O ouvinte prende a respiração, sem saber quando a luz virá, nem se virá.

As duas irmãs de 1808 seguem, aliás, o mesmo roteiro: na Pastoral, é a Tempestade que cumpre esse papel, dissolvendo-se sem pausa no canto de gratidão que a sucede; aqui, é a noite do Scherzo que se rompe em uma marcha de vitória. 

— attacca: (sem interromper)
IV. Allegro
(Rápido) — de 9 a 10 minutos
E ela vem, a luz vem. A tensão acumulada explode com força total na fanfarra triunfal que abre o quarto movimento, uma marcha implacável e devastadora que avança rumo à vitória. A explosão é também física: entram aqui, pela primeira vez na obra, o piccolo (a flautinha aguda que corta o ar como um clarão), o contrafagote (o alicerce mais grave das madeiras) e três trombones, instrumentos até então reservados à igreja e à ópera, estranhos ao mundo da Sinfonia. A ímpar que avança, avança até no efetivo: Beethoven guardou os reforços para o instante exato do triunfo. No meio da marcha, um golpe de teatro: tudo se suspende, e o fantasma do Scherzo volta em surdina, na ponta dos pés, como a lembrar que a escuridão existiu; e a fanfarra irrompe outra vez, com o dobro da força. 

E as três curtas e uma longa ainda ganhariam um destino que nem Beethoven poderia sonhar. Em código Morse, curto-curto-curto-longo desenha a letra V. Na Segunda Guerra Mundial, a BBC passou a abrir suas transmissões para a Europa ocupada com as quatro notas da Quinta: V de vitória. E há aqui uma ironia magnífica: contra a ocupação alemã, a senha da resistência era a música de um alemão. O mais universal dos filhos da Alemanha foi convocado para combater a tirania nascida em sua própria terra; a impressão digital do homem que encarou o próprio destino virou, um século depois, senha de esperança da humanidade.

© RAFAEL FONSECA

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