Compositor: Ludwig van Beethoven
Número de catálogo: Opus 60
Data da composição: 1806
Duração: de 30 a 36 minutos
Efetivo: 1 flauta, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos, cordas (primeiros-violinos, segundos-violinos, violas, violoncelos, contra-baixos)
II. Adagio
(Confortavelmente) — cerca de 10 minutos
Deixemos espaço ao compositor francês Hector Berlioz, que via neste trecho algo da ordem do divino: — “Esse movimento ultrapassa tudo o que a mais viva imaginação jamais poderia sonhar, em ternura e pura volúpia”. O mesmo Berlioz, em outro escrito, arremata: uma música assim só poderia ser obra do Arcanjo Miguel, e nunca de um humano. Outra vez está presente o efeito, que aqui se caracteriza pela suspensão do tempo, como se houvesse coisas acontecendo em dois planos; frases musicais boiam, flutuam, enquanto outros instrumentos marcam a passagem do tempo. Aqui os instrumentos de madeira (flauta, oboés, fagotes e clarinetas) criam a poética do trecho, em participações belíssimas.
III. Allegro vivace
(Rápido e vivo) — cerca de 6 minutos
Embora a partitura não deixe explícito, trata-se de um vigoroso Scherzo; bem menos urgente que o Scherzo anterior, da Sinfonia "Heróica", este irradia mais alegria, como aliás é o escopo de toda a obra. E aqui há uma história saborosa de bastidores. No manuscrito, Beethoven intitulou o movimento apenas Allegro vivace; foram as edições impressas que estamparam no alto da página a palavra Menuetto, e o rótulo colou nas partituras e nas capas de alguns discos até hoje. O gesto diz muito sobre o incômodo dos contemporâneos diante das inovações de Beethoven: na Primeira Sinfonia, fora o próprio compositor quem tentara encaixar-se no costume, vestindo seu Scherzo com o título da velha dança; agora eram os editores que, assustados com a novidade, o obrigavam ao encaixe. É importante ressaltar: não há Minueto algum saído da pena de Beethoven nesta obra.
IV. Allegro ma non troppo
(Rápido mas nem tanto) — cerca de 7 minutos
O finale confirma o despojamento dramático da Sinfonia e sua natureza singela. Os temas se sucedem num delicioso rodopio dançante. Somos lançados a pensar na música de Schumann, que sequer ainda havia nascido e cuja primeira obra orquestral importante só apareceria 4 décadas mais tarde, uma música que flui com naturalidade, que busca uma beleza delicada e sem excessos dramáticos. A esbelta donzela grega guarda, na delicadeza, o próprio pulso do gênio. Beethoven recolhe o fôlego, revisita Haydn, e sorri; enquanto isso, sobre a mesa de trabalho, já aguardava a Quinta Sinfonia, o salto que faria o mundo tremer. A Quarta é a prova de que também o recuo pode ser um gesto de gênio: a respiração necessária entre dois monumentos.
Número de catálogo: Opus 60
Data da composição: 1806
Estreia privada: março de 1807 — Palácio do Príncipe Lobkowitz, Viena
Estreia pública: 13 de abril de 1808 — Burgtheater, Viena
Duração: de 30 a 36 minutos
Efetivo: 1 flauta, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos, cordas (primeiros-violinos, segundos-violinos, violas, violoncelos, contra-baixos)
Depois de escrever uma obra tão grandiosa e impactante como a "Heróica", sua Terceira Sinfonia, era de se esperar algo ainda mais estrondoso. Mas esse não é o espírito da Quarta. Muitos veem nela um recuo estético, uma Sinfonia que procura reencontrar-se com a beleza elegante das obras de Haydn, uma obra mais modesta e menos revolucionária.
Eu enxergo nesse recuo algo maior: um princípio que atravessa as 9 Sinfonias. Elas se comportam em um pulso de inspiração e expiração, de expansão e retração. As ímpares são as expansivas: avançam, rompem, ousam. As pares são as que retraem, como se Beethoven, depois de cada salto, dissesse a si mesmo: fui longe demais, agora recuo um pouco, antes do salto seguinte. A Segunda recolheu-se após as audácias da Primeira; a Quarta respira depois de a Heroica romper os alicerces da forma. E há uma prova documental de que o recuo é estratégico: Beethoven interrompeu a composição da Quinta Sinfonia, já em andamento, para escrever a Quarta. O salto seguinte já estava na gaveta; ele apenas escolheu respirar tranquilamente, primeiro.
De fato, estamos diante de uma música — em se tratando de Beethoven — mais comportada. Em relação à Sinfonia anterior, até a instrumentação é reduzida: menos 1 flauta e 1 trompa no conjunto. Mas é um equívoco vê-la como um retrocesso estilístico. A Quarta guarda seus mistérios.
De fato, estamos diante de uma música — em se tratando de Beethoven — mais comportada. Em relação à Sinfonia anterior, até a instrumentação é reduzida: menos 1 flauta e 1 trompa no conjunto. Mas é um equívoco vê-la como um retrocesso estilístico. A Quarta guarda seus mistérios.
A história do nascimento da obra é um capítulo à parte. No verão de 1806, Beethoven era hóspede do Príncipe Lichnowsky, um de seus primeiros e mais generosos protetores em Viena, no castelo que o nobre mantinha na Silésia. Em uma visita ao castelo vizinho do Conde Franz von Oppersdorff, o anfitrião recebeu o compositor com uma cortesia sob medida: sua orquestra particular executou a Segunda Sinfonia. O Conde, encantado justamente com a derradeira das Sinfonias clássicas de Beethoven, encomendou na hora uma Sinfonia nova, pagando 500 florins. O resultado foi esta Quarta: o compositor entregou ao admirador da Segunda a mais haydniana de todas as suas Sinfonias.
Aquela mesma temporada na Silésia terminou com um dos episódios mais célebres da vida de Beethoven. Lichnowsky quis obrigá-lo a tocar para oficiais franceses hospedados no castelo; Beethoven recusou-se, trancou-se no quarto e partiu na mesma noite, debaixo de tempestade, levando consigo os manuscritos. De volta a Viena, despedaçou o busto que possuía do Príncipe. Conta-se que escreveu a Lichnowsky: — “Príncipe, o que sois, deveis ao acaso do nascimento; o que eu sou, devo a mim mesmo. Príncipes existem e existirão aos milhares; Beethoven, só há um”. O rompimento custou-lhe a pensão anual que recebia do nobre; e talvez explique o desfecho da dedicatória: a Quarta saiu dedicada ao Conde Oppersdorff. O Conde, aliás, pagara adiantado também por uma segunda obra, a futura Quinta Sinfonia; Beethoven, em manobra pouco elegante, acabaria dedicando a Quinta a outros dois patronos, e Oppersdorff ficou apenas com esta.
Nem todos os contemporâneos digeriram a suposta mansidão da obra. O jovem Carl Maria von Weber, futuro autor de O Franco Atirador e então crítico de pena ferina, publicou uma sátira em que os próprios instrumentos da orquestra se rebelam contra as exigências da Quarta; nela, o contrabaixo desabafa: fora obrigado a “saltitar como uma cabra selvagem” para executar as “não-ideias” do senhor compositor. Nem a Sinfonia comportada de Beethoven cabia nos ouvidos da geração que o cercava.
I. Adagio — Allegro vivace
(Confortavelmente — Rápido e vivo) — cerca de 10 minutos
Beethoven foi o primeiro compositor a perceber que a sonoridade, além da beleza e da harmonia, tinha um outro impacto sobre a audiência, que por vezes não era provocado por frases musicais em si, mas por efeitos... Efeitos sonoros. E é esse o clima do Adagio inicial da Quarta: um efeito. Um suave pizzicato desencadeia a atmosfera criada por cordas e sopros, um clima de apreensão e suspense. Há um gesto revelador nessa abertura: a Heroica abolira o ritual da introdução lenta, aquela herança de Haydn, começando com dois acordes e mais nada; a Quarta restaura o velho costume, e ainda aposta no mistério. A retração se ouve já no primeiro minuto. Certamente, esse homem que nunca conseguiu adequar-se ao idioma musical da ópera estava aqui investigando como criar determinadas emoções por mera sugestão sonora. E que resultado! No clímax da introdução, as cordas atingem o topo da montanha ajudadas pela fanfarra, e logo a seguir ouvimos o desabrochar do Allegro, um tema irresistível, ágil, jovial e arrebatador. Schumann, décadas depois, a chamaria de “a bela grega” por sua alegria, ou melhor, como ele escreveu textualmente: “esbelta donzela grega entre dois gigantes nórdicos”; os gigantes são justamente as Sinfonias antes e depois dela, a Terceira e a Quinta, ambas de emoções mais carregadas, enquanto esta quer apenas expor sentimentos mais simples.
II. Adagio
(Confortavelmente) — cerca de 10 minutos
Deixemos espaço ao compositor francês Hector Berlioz, que via neste trecho algo da ordem do divino: — “Esse movimento ultrapassa tudo o que a mais viva imaginação jamais poderia sonhar, em ternura e pura volúpia”. O mesmo Berlioz, em outro escrito, arremata: uma música assim só poderia ser obra do Arcanjo Miguel, e nunca de um humano. Outra vez está presente o efeito, que aqui se caracteriza pela suspensão do tempo, como se houvesse coisas acontecendo em dois planos; frases musicais boiam, flutuam, enquanto outros instrumentos marcam a passagem do tempo. Aqui os instrumentos de madeira (flauta, oboés, fagotes e clarinetas) criam a poética do trecho, em participações belíssimas.
III. Allegro vivace
(Rápido e vivo) — cerca de 6 minutos
Embora a partitura não deixe explícito, trata-se de um vigoroso Scherzo; bem menos urgente que o Scherzo anterior, da Sinfonia "Heróica", este irradia mais alegria, como aliás é o escopo de toda a obra. E aqui há uma história saborosa de bastidores. No manuscrito, Beethoven intitulou o movimento apenas Allegro vivace; foram as edições impressas que estamparam no alto da página a palavra Menuetto, e o rótulo colou nas partituras e nas capas de alguns discos até hoje. O gesto diz muito sobre o incômodo dos contemporâneos diante das inovações de Beethoven: na Primeira Sinfonia, fora o próprio compositor quem tentara encaixar-se no costume, vestindo seu Scherzo com o título da velha dança; agora eram os editores que, assustados com a novidade, o obrigavam ao encaixe. É importante ressaltar: não há Minueto algum saído da pena de Beethoven nesta obra.
IV. Allegro ma non troppo
(Rápido mas nem tanto) — cerca de 7 minutos
O finale confirma o despojamento dramático da Sinfonia e sua natureza singela. Os temas se sucedem num delicioso rodopio dançante. Somos lançados a pensar na música de Schumann, que sequer ainda havia nascido e cuja primeira obra orquestral importante só apareceria 4 décadas mais tarde, uma música que flui com naturalidade, que busca uma beleza delicada e sem excessos dramáticos. A esbelta donzela grega guarda, na delicadeza, o próprio pulso do gênio. Beethoven recolhe o fôlego, revisita Haydn, e sorri; enquanto isso, sobre a mesa de trabalho, já aguardava a Quinta Sinfonia, o salto que faria o mundo tremer. A Quarta é a prova de que também o recuo pode ser um gesto de gênio: a respiração necessária entre dois monumentos.
