(1880) ROTT Sinfonia


Compositor: Hans Rott
Data da composição: primeiro movimento em 1878; movimentos restantes entre 1879 e 1880
Estréia: 4 de março de 1989 em Cincinnati (Estados Unidos), Gerhard Samuel regendo a Cincinnati Philharmonia Orchestra

Duração: entre 55 e 62 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, contrafagote, 4 trompas, 3 trompetes, 3 trombones, 3 tímpanos, triângulo e cordas (violinos, violas, violoncelos e contrabaixos)

Uma Sinfonia que ficou desaparecida por mais de um século. Composta entre 1878 e 1880 por Hans Rott, um jovem de vinte e poucos anos, nunca foi executada durante a vida do compositor, nunca foi publicada, e permaneceu esquecida nos arquivos da Biblioteca Nacional Austríaca até o final da década de 1980, quando o musicólogo britânico Paul Banks a redescobriu. A estreia mundial só aconteceu em 1989, cento e nove anos depois de concluída. Quando finalmente a obra foi tocada, o mundo musical ficou estupefato: ali estavam, com clareza inequívoca, passagens que pareciam antecipar a linguagem sinfônica de Gustav Mahler, escritas quase uma década antes da Primeira Sinfonia deste.

Para entender o peso dessa descoberta, é preciso conhecer a história de Hans Rott. Nascido em 1858, em Viena, filho do ator e comediante Carl Mathias Rott e da cantora de opereta Maria Rosalia Lutz, Rott cresceu no ambiente teatral vienense. A tragédia marcou sua juventude: aos catorze anos perdeu a mãe, que morreu em consequência de uma gripe. Dois anos depois, um acidente de palco deixou o pai incapacitado, o que levou a família à ruína financeira. Em 1876, o pai faleceu, deixando Rott completamente órfão aos dezoito anos, durante seus estudos no Conservatório de Viena.

Rott ingressara no Conservatório em 1874, onde estudou composição com Franz Krenn e órgão com Anton Bruckner. Tornou-se rapidamente o aluno favorito de Bruckner. Em carta de 1877 ao organista Ignaz Traumihler, Bruckner escreveu sobre Rott: — "Ele é um músico genial e foi até agora meu melhor aluno". A amizade entre professor e aluno era notável: frequentavam concertos juntos, Bruckner aparecia à porta de Rott sem aviso, e ambos compartilhavam a mesma devoção religiosa e o mesmo amor pelo órgão. Heinrich Krzyzanowski, amigo íntimo de Rott, registrou: "Nenhum dos mais jovens era tão próximo dele quanto Rott. Ambos eram profundamente religiosos. Ambos pertenciam ao órgão, e o órgão a eles."

Um dos colegas de turma de Rott na classe de composição era Gustav Mahler, dois anos mais novo. Ambos eram membros da Sociedade Acadêmica Wagneriana de Viena e chegaram a dividir um apartamento por um breve período. Dentro daquele círculo de estudantes, Rott era considerado o mais talentoso dos dois.

Após a morte do pai, Rott enfrentou pobreza extrema. Sustentava-se como organista mal remunerado na Igreja dos Piaristas (Maria Treu), alimentando-se quase exclusivamente de uma salsicha barata, a Extrawurst. Em 1876, participou do primeiro Festival de Bayreuth, onde a música de Wagner causou nele uma impressão profunda e duradoura. Dois anos depois, em 1878, começou a compor a sua Sinfonia.

O primeiro movimento foi escrito em cerca de um mês e meio, sob pressão, para ser apresentado ao concurso de composição do Conservatório em julho de 1878. Para entender o que aconteceu ali, é preciso lembrar que a vida musical vienense daquele período estava dividida em dois campos hostis. De um lado, os conservadores, que tinham em Brahms seu modelo e no crítico Eduard Hanslick seu porta-voz: defendiam a tradição das formas clássicas, a música pura, a contenção. Do outro, os progressistas, que viam em Wagner o futuro da arte: a fusão entre música e drama, a orquestra expandida, a harmonia ousada, a forma livre. Bruckner, professor de Rott, era associado ao campo wagneriano e por isso mesmo desprezado pelo establishment vienense. Quando o jovem Rott apresentou ao júri um movimento sinfônico com evidentes marcas wagnerianas e brucknerianas, a reação foi hostil. A banca ridicularizou a obra. Rott foi o único estudante daquele ano a não receber prêmio. Segundo relatos, Bruckner, furioso, teria exclamado: — "Não riam, senhores, vocês ainda ouvirão grandes coisas deste homem!". A previsão nunca se concretizou...

Rott não desistiu. Nos dois anos seguintes, completou os três movimentos restantes. Em 1880, com a Sinfonia pronta, fez uma última tentativa desesperada de permanecer em Viena. Procurou Hans Richter, o célebre regente da Filarmônica de Viena, que se expressou favoravelmente sobre a obra, encorajou Rott a continuar compondo, mas não estava disposto a incluir uma peça de estreante no programa da orquestra. Então Rott tomou a iniciativa de apresentar pessoalmente a Sinfonia a Johannes Brahms, que integrava o júri de uma bolsa estatal pela qual Rott havia se candidatado. O encontro foi devastador. Brahms rejeitou duramente a obra, declarando que Rott não possuía talento algum e deveria abandonar a composição. A antipatia de Brahms por Bruckner e por tudo o que soasse wagneriano certamente pesou nesse julgamento: uma Sinfonia influenciada por Wagner e Bruckner, vinda do aluno favorito de Bruckner, era tudo o que Brahms não queria ver prosperar na Viena daquele momento.

Sem perspectiva profissional e financeiramente dependente de amigos, Rott aceitou um cargo de regente de coro na cidadezinha de Mühlhausen (Mulhouse), na Alsácia, a cerca de 700 quilômetros de Viena. Em outubro de 1880, durante a viagem de trem rumo ao novo emprego, sua condição mental (já fragilizada por anos de perdas e rejeições) eclodiu de forma dramática: apontou um revólver para um passageiro que acendia um charuto, alegando que Brahms havia enchido o vagão de dinamite. Rott foi internado no Hospital Psiquiátrico de Viena e depois transferido para o Asilo Provincial de Loucos da Baixa Áustria. O diagnóstico foi "delírio alucinatório, mania de perseguição". Continuou compondo por algum tempo no asilo, mas gradualmente caiu em depressão profunda. Morreu de tuberculose em 25 de junho de 1884, com apenas 25 anos.

Seu funeral no Cemitério Central de Viena foi marcante. Bruckner chegou cedo e passou um longo tempo sozinho com o caixão de seu jovem amigo. Durante a cerimônia, foi visto chorando e declarou abertamente que o tratamento cruel e desnecessário de Brahms a um jovem compositor já isolado fora responsável por sua morte.

A Sinfonia permaneceu nos arquivos por mais de um século. Nenhuma de suas obras foi executada ou publicada durante sua vida. Após a morte, dois amigos, Friedrich Löhr e Joseph Seemüller, ambos conhecidos de Mahler, recolheram as partituras. Em 1900, Mahler declarou a Natalie Bauer-Lechner, sua confidente e memorialista: — "Um músico de gênio, que morreu desconhecido e em necessidade no próprio limiar de sua carreira. O que a música perdeu com ele não pode ser estimado. Sua genialidade alcança tais alturas já em sua Primeira Sinfonia, escrita como jovem de vinte anos, e que o torna, sem exagero, o fundador da nova Sinfonia como eu a entendo. Ele está tão intimamente relacionado ao que há de mais essencial em mim que ele e eu parecemos dois frutos da mesma árvore, produzidos pela mesma terra e nutridos pelo mesmo ar." Pesquisas posteriores de Stephen McClatchie revelaram que Mahler já estudava ativamente a partitura de Rott em 1890, através de cartas inéditas à sua irmã, ou seja, apenas 6 anos após a morte de Rott e 1 ano após completar sua própria Primeira Sinfonia.

A redescoberta por Paul Banks no final dos anos 1980 levou à estreia mundial em 4 de março de 1989, em Cincinnati, sob a regência de Gerhard Samuel. A primeira gravação, pelo mesmo conjunto, foi lançada pelo selo Hyperion em setembro daquele ano. A reação foi imediata: as semelhanças com Mahler eram tão evidentes que se levantaram vozes questionando a autoria completa das primeiras Sinfonias mahlerianas. Ficou claro que, se a Sinfonia de Rott tivesse sido tocada durante a vida de Mahler, este teria que dar explicações. A primeira execução em Viena, cidade onde a obra foi composta e rejeitada, só aconteceu em 23 de janeiro de 1998, 114 anos depois. A Filarmônica de Berlim apresentou-a pela primeira vez em 2007, sob Neeme Järvi.

I. Alla breve (Passos largos de pulsação direta) — cerca de 17 minutos
A obra abre com um tema monumental apresentado pela trompa: uma frase longa, expansiva, cheia de exuberância e otimismo juvenil. É o gesto de um compositor de 19 anos que não esconde sua ambição. Ele queria ir longe, avançar além de Wagner. Um segundo tema lírico aparece na flauta, logo combinado com o primeiro em textura contrapontística. O desenvolvimento constrói uma fuga vigorosa, demonstrando o domínio técnico aprendido com Bruckner, interrompida pelo retorno dramático do segundo tema. Os acúmulos orquestrais têm a dramaturgia expansiva que irritou o júri conservador do Conservatório em 1878: a influência wagneriana é evidente na riqueza instrumental e na condução dramática. Uma coda luminosa encerra o movimento em otimismo radiante.
 
II. Sehr langsam (Muito lento) — cerca de 12 minutos
O segundo movimento nos mergulha em atmosfera completamente diferente: sombria, ponderosa, mística. O caráter remete a uma improvisação de órgão, e não por acaso: Rott era organista brilhante, formado por Bruckner. A música se divide em três seções contrastantes. A primeira apresenta um tema lírico nas cordas que alcança uma grande sensação de acúmulo. A segunda seção é extremamente escura e dissonante, como se toda a beleza anterior fosse cruelmente destruída, com fragmentos do tema do primeiro movimento aparecendo na textura. Na terceira seção, o tema principal do primeiro movimento ressurge das profundezas, agora transformado. A coda se abre numa visão mística, de quietude transcendente, que lembra a profundidade religiosa de Bruckner.

III. Scherzo: Frisch und lebhaft (Dança com ironia: Com frescor e vivacidade) — cerca de 13 minutos
Este é o movimento mais revelador. Aqui Hans Rott é consistentemente original, juvenil e poderoso, com uma música que soa surpreendentemente inovadora para o ano de 1880. Fanfarras brilhantes introduzem um tema vigoroso em forma de ländler, a dança popular austríaca. Um segundo tema em forma de valsa cria contraste imediato: ländlers sardônicos colidem com valsas graciosas, numa desconstrução de danças vienenses que antecipa com precisão a técnica que Mahler desenvolveria depois em suas Sinfonias. As semelhanças são tão marcantes que, quando a obra foi redescoberta, este movimento gerou o maior espanto entre os estudiosos. Mahler citou material deste movimento no terceiro movimento de suas Segunda e Quinta Sinfonias. Uma grande pausa interrompe a dança para dar lugar a uma passagem lenta e lírica, como se uma música de outro mundo invadisse ocenário. O desenvolvimento combina todos os materiais numa tapeçaria densa exibida em fuga, e uma coda enérgica encerra o movimento.

IV. Sehr langsam – Belebt (Muito lento – Animado) — entre 19 e 24 minutos
O finale é mais pesado, como nos grandes finales de Bruckner. Começa de forma expansiva e rapsódica, como uma colagem livre de ideias. Chamados de trompa antecipam claramente os da Sinfonia da Ressurreição de Mahler. Reminiscências de material dos movimentos anteriores reaparecem transformadas, criando a unidade cíclica. A meio caminho, Rott recai em padrões mais convencionais, lidando de forma laboriosa com um tema de marcha pomposo, revelando as limitações de um compositor ainda em formação. O próprio Mahler observou que Rott "ainda não alcançou inteiramente o que queria; é como se alguém recuasse para lançar o mais longe possível e, ainda desajeitado, não atingisse completamente o alvo." A Sinfonia, porém, não termina em excessos. Fecha-se com uma redenção sussurrada, esteticamente próxima do Parsifal de Wagner: no lugar do triunfo terrestre, a transfiguração silenciosa. É um final de uma beleza estranha e comovente, escrito por alguém que, 4 anos depois, morreria num asilo psiquiátrico aos 25 anos, sem jamais ter ouvido sua obra.


© RAFAEL FONSECA


 
 


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