Symphonie
Compositor: César Franck
Número de catálogo: FWV 48
Data da composição: 1886 a 1888
Estréia: 17 de fevereiro de 1889 — Paris, Sala do Conservatório, pela orquestra da Société des Concerts du Conservatoire, sob regência de Jules Garcin
Duração: cerca de 35 a 40 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 1 corne-inglês, 2 clarinetes, 1 clarinete-baixo, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 2 cornetes, 3 trombones, tuba, tímpanos, harpa e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contrabaixos)
I. Lento — Allegro non troppo
(Lento — Rápido, mas sem excesso) — cerca de 14 a 16 minutos
II. Allegretto
(Sem pressa) — cerca de 10 a 12 minutos
III. Finale: Allegro non troppo
(Final: Rápido, mas sem excesso) — cerca de 10 a 12 minutos
Compositor: César Franck
Número de catálogo: FWV 48
Data da composição: 1886 a 1888
Estréia: 17 de fevereiro de 1889 — Paris, Sala do Conservatório, pela orquestra da Société des Concerts du Conservatoire, sob regência de Jules Garcin
Duração: cerca de 35 a 40 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 1 corne-inglês, 2 clarinetes, 1 clarinete-baixo, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 2 cornetes, 3 trombones, tuba, tímpanos, harpa e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contrabaixos)
César Franck escreveu uma única sinfonia, e a escreveu velho, com mais de sessenta anos, depois de uma vida quase inteira passada longe das grandes salas de concerto — entre o teclado de um órgão de igreja e a sala de aula. Talvez por isso ela soe como soa: como se a nave de uma igreja tivesse aprendido a falar pela orquestra.
Franck nasceu em Liège, na Bélgica, em 1822. O pai sonhou para ele a carreira de um pianista de palco, um novo Liszt — chegou a exibi-lo, ainda menino, diante do Rei Leopoldo I. A família mudou-se para Paris para que o talento do menino se desenvolvesse no Conservatório, e foi um processo difícil, que envolveu o pedido de cidadania francesa, uma vez que a instituição era fechada a estrangeiros. No entanto, o filho optou pelo caminho que o pai menos queria: o de organista, nada glamuroso.
Franck nasceu em Liège, na Bélgica, em 1822. O pai sonhou para ele a carreira de um pianista de palco, um novo Liszt — chegou a exibi-lo, ainda menino, diante do Rei Leopoldo I. A família mudou-se para Paris para que o talento do menino se desenvolvesse no Conservatório, e foi um processo difícil, que envolveu o pedido de cidadania francesa, uma vez que a instituição era fechada a estrangeiros. No entanto, o filho optou pelo caminho que o pai menos queria: o de organista, nada glamuroso.
Em 1858 César Franck assumiu o cargo de organista da Igreja de Sainte-Clotilde, e ali permaneceu pelo resto da vida — mais de trinta anos tocando, improvisando, pensando música diante daquele teclado. Em 1872 tornou-se professor no Conservatório. Suas aulas viraram bem mais do que aulas de órgão, eram oficinas de imaginação musical, e em torno delas formou-se um grupo de discípulos devotados: Vincent d'Indy, Ernest Chausson, Henri Duparc, Louis Vierne; alunos que o veneravam. Era um homem recolhido, de fé sincera e hábitos simples, e essa quietude de comportamento contrastava com a intensidade que seus alunos ouviam na música.
Franck, ao escrever sua Sinfonia, guarda semelhança com um contemporâneo: Anton Bruckner. Eles são ambos organistas que pensam o som da orquestra como se fosse saído de um órgão imenso. Massas sonoras, camadas que entram aos poucos. Mas existe uma diferença fundamental de temperamento entre eles. Bruckner empilha blocos sonoros que querem subir, sempre subir, como quem ergue uma catedral cada vez mais alta. Franck vai em outro sentido: espalha o som pelo espaço, há um fluxo contínuo e orgânico.
Escrever uma Sinfonia na França, àquela altura, era um gesto ousado. É preciso lembrar que a Paris musical do século XIX era uma cidade rendida à ópera, ao balé, aos espetáculos de palco. A música instrumental pura — Sinfonias, Concertos ou Quartetos — tinha menos prestígio, era coisa dos germânicos, como Beethoven e seus herdeiros. Porém, depois da derrota humilhante na Guerra Franco-Prussiana em 1870, cresceu na França o desejo de afirmar uma identidade nacional também na música. Em 1871 nascia a Société Nationale de Musique para dar espaço à música instrumental dos compositores franceses, independente do palco. Franck esteve nesse movimento desde o início. Por isso escrever uma grande Sinfonia puramente instrumental foi quase um manifesto: era provar que a França também sabia erguer um edifício sonoro de ideias, profundo e arquitetado, sem precisar imitar ninguém.
A Sinfonia foi composta entre 1886 e 1888. Estreou em Paris em 1889, regida por Jules Garcin, depois que um maestro de peso, Charles Lamoureux, se recusou a programá-la. A recepção foi morna. Parte da crítica reagiu mal: acharam a obra árida, densa demais, de orquestração estranha. Os conservadores estranharam mas os jovens, sobretudo os discípulos de Franck, esses, amaram a obra desde o primeiro instante. Em poucos anos a Sinfonia se impôs: o próprio Lamoureux acabou por programá-la, já depois da morte do compositor, e nas duas décadas seguintes ela cruzou a Europa e os Estados Unidos até se tornar o que é hoje: a mais querida das sinfonias francesas.
Duas escolhas dão a essa obra um caráter particular. A primeira é a estrutura: três movimentos, onde a tradição pediria quatro. Franck concentra, no movimento central, duas funções: a grande frase lenta e meditativa e, mais adiante, desenha uma seção ágil e pulsante, o Scherzo em uma Sinfonia romântica tradicional.
A segunda escolha é o princípio que costura a obra inteira. Franck a constrói sobre poucas ideias musicais que reaparecem, transformadas, em forma cíclica. O efeito, para quem ouve, é o de uma memória interna: uma frase que surgiu sombria e interrogativa no início volta depois mais serena, e ressurge no final mais afirmativa, como se tivesse amadurecido.
Franck, ao escrever sua Sinfonia, guarda semelhança com um contemporâneo: Anton Bruckner. Eles são ambos organistas que pensam o som da orquestra como se fosse saído de um órgão imenso. Massas sonoras, camadas que entram aos poucos. Mas existe uma diferença fundamental de temperamento entre eles. Bruckner empilha blocos sonoros que querem subir, sempre subir, como quem ergue uma catedral cada vez mais alta. Franck vai em outro sentido: espalha o som pelo espaço, há um fluxo contínuo e orgânico.
Escrever uma Sinfonia na França, àquela altura, era um gesto ousado. É preciso lembrar que a Paris musical do século XIX era uma cidade rendida à ópera, ao balé, aos espetáculos de palco. A música instrumental pura — Sinfonias, Concertos ou Quartetos — tinha menos prestígio, era coisa dos germânicos, como Beethoven e seus herdeiros. Porém, depois da derrota humilhante na Guerra Franco-Prussiana em 1870, cresceu na França o desejo de afirmar uma identidade nacional também na música. Em 1871 nascia a Société Nationale de Musique para dar espaço à música instrumental dos compositores franceses, independente do palco. Franck esteve nesse movimento desde o início. Por isso escrever uma grande Sinfonia puramente instrumental foi quase um manifesto: era provar que a França também sabia erguer um edifício sonoro de ideias, profundo e arquitetado, sem precisar imitar ninguém.
A Sinfonia foi composta entre 1886 e 1888. Estreou em Paris em 1889, regida por Jules Garcin, depois que um maestro de peso, Charles Lamoureux, se recusou a programá-la. A recepção foi morna. Parte da crítica reagiu mal: acharam a obra árida, densa demais, de orquestração estranha. Os conservadores estranharam mas os jovens, sobretudo os discípulos de Franck, esses, amaram a obra desde o primeiro instante. Em poucos anos a Sinfonia se impôs: o próprio Lamoureux acabou por programá-la, já depois da morte do compositor, e nas duas décadas seguintes ela cruzou a Europa e os Estados Unidos até se tornar o que é hoje: a mais querida das sinfonias francesas.
Duas escolhas dão a essa obra um caráter particular. A primeira é a estrutura: três movimentos, onde a tradição pediria quatro. Franck concentra, no movimento central, duas funções: a grande frase lenta e meditativa e, mais adiante, desenha uma seção ágil e pulsante, o Scherzo em uma Sinfonia romântica tradicional.
A segunda escolha é o princípio que costura a obra inteira. Franck a constrói sobre poucas ideias musicais que reaparecem, transformadas, em forma cíclica. O efeito, para quem ouve, é o de uma memória interna: uma frase que surgiu sombria e interrogativa no início volta depois mais serena, e ressurge no final mais afirmativa, como se tivesse amadurecido.
(Lento — Rápido, mas sem excesso) — cerca de 14 a 16 minutos
A Sinfonia começa no escuro. As cordas graves desenham uma frase que sobe devagar e parece perguntar alguma coisa, grave e inquieta, sem resposta. Logo os violinos respondem com uma melodia mais ampla e lírica, que tenta dissipar a sombra sem conseguir de todo. É útil ouvir essa abertura como duas vozes conversando: uma pergunta com gravidade, a outra procura acalmá-la. A partir daí, o movimento é o palco desse embate. A música se acumula em grandes crescendos: cordas, sopros e metais vão entrando em camadas, e o som cresce em blocos, exatamente como o som de um órgão. No meio do caminho surge um tema mais decidido e luminoso, que ao longo da obra ainda irá voltar. O movimento se encerra com a pergunta inicial novamente ressoando, inquieta, como se a resposta não tivesse sido compreendida.
II. Allegretto
(Sem pressa) — cerca de 10 a 12 minutos
É aqui que a Sinfonia entrega sua melodia mais atraente. O movimento abre com as cordas tocadas em pizzicato (beliscadas com os dedos) e toques suaves da harpa, e dessa base ergue-se o canto do corne-inglês (um instrumento de sopro, parente do oboé, de voz mais grave e melancólica). Foi justamente essa cor incomum que escandalizou os ouvidos conservadores. A melodia tem caráter meditativo. Então o ambiente muda: entra uma seção mais viva e rítmica, que cumpre o papel de um scherzo. A assinatura sonora de Franck se dá por certos contornos, que lembram de longe a pergunta do início, a obra lembrando de si mesma.
III. Finale: Allegro non troppo
(Final: Rápido, mas sem excesso) — cerca de 10 a 12 minutos
O clima muda e a obra soa mais confiante: Franck deixa de perguntar e começa a afirmar. E então acontece o que dá sentido a toda a Sinfonia. As ideias dos movimentos anteriores começam a reaparecer, transfiguradas, sob luz nova: a pergunta grave, a resposta lírica, o canto do corne-inglês. O ouvinte tem a sensação de um reencontro, reconhecendo frases que atravessaram a obra. Até que o tema do primeiro movimento retorna vitorioso. Os conflitos se resolvem em uma afirmação luminosa, como a de quem percorreu um longo caminho de dúvidase chegou, enfim, à clareza.
Franck morreu em novembro de 1890, um ano depois da estreia desta Sinfonia. Tinha 67 anos. Não viveu para ver a obra se tornar a referência francesa que é hoje. Uma ironia: a Sinfonia francesa mais querida do repertório foi escrita por um belga. Prova de que identidade e pertencimento são tão relativas quanto as certezas e dúvidas que o início dessa Sinfonia evocam.
© RAFAEL FONSECA
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