Compositor: Vasily Kalinnikov
Data da composição: 1894 a 1895, em Yalta, Crimeia
Estréia: fevereiro de 1897, em Kiev, em um concerto da Sociedade de Música Russa, regência de Alexander Vinogradsky
Duração: entre 35 e 40 minutos
Data da composição: 1894 a 1895, em Yalta, Crimeia
Estréia: fevereiro de 1897, em Kiev, em um concerto da Sociedade de Música Russa, regência de Alexander Vinogradsky
Duração: entre 35 e 40 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, tímpanos, harpa e cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contrabaixos)
Há Sinfonias que ocupam um lugar estranho na história da música: são amadas por quem as conhece, elogiadas por quem as programa, e ao mesmo tempo quase desconhecidas do grande público. A Primeira Sinfonia de Vasily Kalinnikov é um desses casos. Desde a estreia, em 1897, ela é descrita em notas de programa e críticas como uma obra repleta de melodias memoráveis, de frescor lírico e de uma capacidade de comunicação direta que poucos sinfonistas do período alcançaram com tanta naturalidade. Ela circulou rapidamente por Moscou, Viena, Berlim, Paris e Londres, foi admirada por músicos importantes, e depois, por razões que têm mais a ver com a morte prematura do compositor e com a ausência de uma escola ligada ao seu nome do que com qualquer deficiência da obra, foi aos poucos saindo do repertório corrente das grandes orquestras ocidentais. Permaneceu viva na Rússia, em gravações e programas de rádio, e de tempos em tempos reaparece em temporadas ocidentais como uma redescoberta que surpreende quem a ouve pela primeira vez.
Kalinnikov nasceu em 1866, numa pequena aldeia chamada Voina, na província de Orel, na Rússia central, ao sul de Moscou. Era uma região rural e pobre. O pai era um funcionário subalterno de polícia, o que colocava a família num estrato modesto da sociedade imperial russa. A ligação com o clero local foi decisiva: graças a ela, o menino pôde ingressar no seminário de Orel em 1879, instituição que, na Rússia do período, funcionava como um dos poucos canais de ascensão para filhos de famílias sem fortuna. Ali, além da formação religiosa, havia prática intensa de canto coral ligado à liturgia ortodoxa. Aos catorze anos, Kalinnikov já dirigia o coro do seminário.
Em 1884, obteve uma bolsa para estudar em Moscou, na Escola Musical da Sociedade Filarmônica, uma instituição sólida, ainda que menos prestigiada que o Conservatório, cujas mensalidades a família jamais poderia pagar. Em Moscou, estudou fagote e composição com Alexander Ilyinsky. A vida estudantil foi dura: para se sustentar, tocava fagote, tímpanos ou violino em orquestras de teatro, além de trabalhar como copista de partituras. Essa experiência prática em fossos de ópera e de teatro dramático, lidando diariamente com repertório variado, provavelmente contribuiu para o forte senso dramático e para a habilidade orquestral que se percebe em suas sinfonias.
Em 1892, por recomendação direta de Tchaikovsky, Kalinnikov foi nomeado maestro do Teatro Maly de Moscou, um importante palco dramático, e no ano seguinte obteve também posto de regente assistente no Teatro Italiano, casa dedicada à ópera italiana na cidade. Eram posições de prestígio para um jovem de 26 anos, e indicavam que o circuito moscovita o reconhecia como talento promissor. A recomendação de Tchaikovsky, que era então a figura mais influente da música russa, tinha peso enorme.
A ascensão durou poucos meses. As jornadas pesadas, o clima de Moscou e as condições precárias de moradia agravaram uma tuberculose pulmonar que já o acompanhava. Kalinnikov foi forçado a abandonar os teatros e mudar-se para a Crimeia, na região de Yalta, em busca do clima mais ameno que os médicos prescreviam para tuberculosos. No fim do século 19, mudar-se para um lugar como Yalta significava tentar prolongar a vida. Era, ao mesmo tempo, um refúgio, o tratamento possível e inevitável exílio. Ali também buscaram alívio escritores como Anton Chekhov e Maksim Gorky, e Kalinnikov conviveu, ao menos tangencialmente, com esse meio de artistas doentes e intelectuais na Crimeia.
Em Yalta, com uma pequena pensão da Sociedade Filarmônica de Moscou e a ajuda de amigos, sobretudo do crítico Semyon Kruglikov, seu antigo professor e dedicatário da Sinfonia n. 1, Kalinnikov compôs a parte essencial de sua obra. A situação é de uma força dramática rara: um compositor jovem, afastado do centro da vida musical russa, vivendo numa estância de convalescença, com poucos recursos, escrevendo uma Sinfonia de energia luminosa.
A Sinfonia n. 1 foi concluída entre 1894 e 1895 e estreou em Kiev em fevereiro de 1897, num concerto da Sociedade de Música Russa, sob a regência de Alexander Vinogradsky. O sucesso foi imediato: o público pediu a repetição dos dois movimentos centrais. Em pouco tempo, a obra circulava por Moscou, Viena, Berlim, Paris e Londres. Um episódio frequentemente citado em notas de programa envolve o crítico Kruglikov enviando a partitura a Rimsky-Korsakov, que a teria recusado. Isso revela algo das tensões entre os círculos musicais de Moscou e São Petersburgo no período, onde um músico tão ligado a Tchaikovsky era visto com reservas.
A publicação da partitura só veio em 1900, após Sergei Rachmaninov, ao visitar o compositor enfermo em Yalta, interceder junto ao editor Jurgenson para que a música de Kalinnikov fosse publicada. Kalinnikov morreu em Yalta em janeiro de 1901, aos 34 anos, dois dias antes de completar 35, deixando um catálogo pequeno: duas Sinfonias, alguns Poemas Sinfônicos e Aberturas (entre eles a evocativa Noite Branca e a peça orquestral Náiades), música incidental para a peça Tsar Boris de Alexei Tolstoy, Canções para voz e piano impregnadas de traços de canção folclórica, e peças breves para piano.
Em termos de linguagem, Kalinnikov pertence a uma geração de transição da música russa. Nasceu quando Tchaikovsky já era um compositor ativo e morreu pouco depois dele, situando-se historicamente entre a fase madura de Tchaikovsky e o início das grandes obras de Rachmaninov e Scriabin. Enquanto Mahler expandia a Sinfonia para dimensões filosóficas e Debussy abria caminho a novas constelações harmônicas, Kalinnikov escrevia Sinfonias de linguagem tonal clara, fortemente ancoradas na tradição russo-romântica e no lirismo melódico de raiz folclórica.
A Sinfonia n. 1 é a fusão perfeita entre as duas principais correntes musicais russas do final do século 19: de Moscou, o lirismo e um certo refinamento orquestral inspirados em Tchaikovsky; de São Petersburgo, a estruturação musical e o uso de material folclórico à moda dos compositores do Grupo dos Cinco, especialmente de Alexander Borodin. A orquestração é fluente e colorida, com um senso de equilíbrio entre drama e melodia que lembra Tchaikovsky, e um contorno eslavo dos temas que evoca o mundo épico-lírico de Borodin.
A Sinfonia inteira pode ser ouvida como um arco que vai da inquietação inicial a uma celebração luminosa no final, passando por um momento central de lirismo íntimo e um movimento de dança de sabor popular. O clima geral é caloroso e direto: uma sucessão de melodias que soam espontâneas, muitas vezes com perfume de canção popular russa, desenvolvidas com clareza e contrastes nítidos entre momentos expansivos e momentos recolhidos. Cada movimento tem um tema muito nítido, e o prazer da escuta está em reconhecer como essas ideias reaparecem, se transformam e, no final, convergem para um desfecho brilhante.
I. Allegro moderato (Rápido com m oderação) — cerca de 14 minutos
O primeiro movimento abre com um tema enérgico e firme nas cordas, de caráter marcadamente russo, uma melodia que poderia ter nascido de uma Canção popular. É um gesto de afirmação imediata: a Sinfonia se apresenta desde o primeiro compasso com identidade clara. Logo depois surge um segundo tema, mais amplo, cantável, uma grande frase. O movimento oscila entre impulso e lirismo: a energia do primeiro tema é determinada, quase épica; os momentos do segundo tema são pausas para respirar, desabafos melódicos de grande beleza. Numa seção intermediária, o primeiro tema circula entre os instrumentos em entradas sucessivas, como uma conversa animada em que cada naipe da orquestra quer dizer a mesma frase à sua maneira. A parte final retoma os dois temas com mais confiança e brilho, como se o percurso tivesse fortalecido o que era, no início, apenas impulso.
II. Andante commodamente (Passo de caminhada, com comodidade) — cerca de 8 minutos
O coração emocional da Sinfonia. A harpa cria um fundo ondulante, sobre o qual surge uma longa e calorosa melodia no oboé, um canto solitário numa noite calma. Kalinnikov teria dito que essa música nasceu de uma espécie de devaneio noturno em que o silêncio parece vibrar. Faz lembrar a Sinfonia Sonhos de Inverno, de Tchaikovsky. O movimento transcorre como uma meditação que vai e volta: a melodia se expande, a orquestra cresce em volume e densidade, há um pico de emoção contida, e depois retorna ao clima inicial, agora mais serena, fechando o ciclo. A sensação é de lembrança e reconciliação, uma das páginas mais belas que Kalinnikov escreveu.
III. Scherzo: Allegro non troppo (Dança com ironia: Rápido mas não muito) — cerca de 7 minutos
O terceiro movimento é uma dança rápidoa e saltitante, uma festa de aldeia estilizada. A energia é essencialmente rítmica, com impulsos fprtes. No centro do movimento, a atmosfera muda de repente: a luz se atenua, a textura fica mais rarefeita e o oboé assume o protagonismo com uma melodia lírica e melancólica, como se, no meio da festa, alguém se lembrasse de algo distante. É a seção central de contraste, que aqui funciona como um momento de introspecção dentro da alegria. Depois, a dança volta com energia renovada, e soa ainda mais saborosa porque carrega dentro de si o eco daquela melancolia breve.
IV. Finale: Allegro moderato (Final: Rápido mas moderado) — cerca de 9 minutos
O finale começa retomando material do primeiro movimento, como se o compositor dissesse ao ouvinte: lembra do impulso inicial? A Sinfonia vai se fechar, como em um arco. Surgem temas novos, mais festivos e decididos. A orquestra se lança em corridas ascendentes que preparam o terreno para a grande conclusão. Perto do fim, os metais assumem protagonismo absoluto, antes do fechamento radiante. O finale recolhe o que foi apresentado antes, a luta do primeiro movimento, a contemplação do segundo, a dança do terceiro, e oferece uma afirmação final luminosa, no espírito das grandes Sinfonias russas.
© RAFAEL FONSECA
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