Compositor: Jean Sibelius
Número de catálogo: Opus 104
Data da composição: 1919 a 1923
Data da composição: 1919 a 1923
Estréia: 19 de fevereiro de 1923, em Helsinque — Sibelius regendo
Duração: cerca de 25 minutos
Efetivo: 2 flautas (a 2ª também piccolo), 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 3 trompetes, 3 trombones, tímpanos, triângulo, pratos, sinos tubulares e as cordas
A Sexta Sinfonia é contemporânea de uma profunda crise pessoal. Em 1920, Sibelius completava 55 anos carregando o peso de uma vida que lhe parecia inviável. A nova geração de compositores seguia caminhos que ele não reconhecia como seus. Suas finanças permaneciam instáveis, e a dúvida o perseguia: como um homem que havia dado tanto à música podia sentir-se tão vazio? Num momento em que muitos compositores buscavam novidade a qualquer custo, Sibelius decidiu não lutar contra a corrente, não tentar ser jovem novamente, mas aceitar a fragilidade que o habitava.
Enquanto trabalhava na Sexta, Sibelius também desenvolvia ideias para a Sétima Sinfonia. Os esboços e as primeiras concepções da Sexta remontam a 1914, mas o trabalho mais concentrado se estendeu de 1919 a 1923; quatro anos de trabalho contínuo. Durante esse período, Sibelius registrou em seu diário uma reflexão amarga sobre seu próprio valor: — "Sou tão bom quanto eles eram. Minha orquestração é melhor que a de Beethoven, meus temas são melhores. Mas ele nasceu em uma terra que produzia vinho e eu nasci aqui, onde se faz coalhada." A frase resume a angústia do compositor, cuja sensação era a de estar fora de seu tempo, de ser um artista de uma época que já não existia.
Porém, nesse cenário de aflição... a Sexta é a mais tranquila de todas as sinfonias de Sibelius! Não possui o peso triste da Quarta, e ainda que não tenha a alegria leve da Primeira e da Terceira, nem o caráter celebratório da Segunda e da Quinta, ela não sucumbe na depressão dos sentimentos do compositor. Ela me parece contar a história de um homem que olha para suas próprias inseguranças com a benevolência que um velho senhor dedica à memória de sua própria infância. A orquestração é leve e transparente, com os metais contidos e as madeiras e cordas em primeiro plano. Sibelius descreveu a obra como "água pura de nascente ao invés de coquetéis" — uma resposta silenciosa às sonoridades chamativas que dominavam a música de seu tempo.
A estrutura da Sexta é construída com a lógica antiga, quase como se Sibelius estivesse dialogando com uma tradição musical que precedia o próprio Romantismo. O compositor declarou que a Sexta era "muito tranquila, no caráter e na estrutura", e que ele não pensava numa sinfonia "apenas como um certo número de compassos. Mas sim como a expressão de um credo espiritual." Isso permeia cada nota da obra. Os quatro movimentos estão interligados por um material temático que reaparece continuamente, transformado, esticado, comprimido, de modo que o ouvinte sente uma espécie de metamorfose constante.
I. Allegro molto moderato
(Rápido, mas bem moderado) — cerca de 10 minutos
O primeiro movimento abre com uma delicadeza que desorienta quem espera a grandiosidade das Sinfonias anteriores. As cordas e madeiras dialogam em tons suaves, apresentando o material temático como se fosse um sussurro. O movimento cresce discretamente, com pequenas ondas de intensidade que nunca explodem em dramaticidade. É como observar uma paisagem em viagem lenta: há movimento, há transformação, mas nada que interrompa a calma geral.
II. Allegretto moderato
(Quase rápido, moderadamente) — cerca de 8 minutos
Esse movimento contrasta com o anterior, parecendo uma valsa lenta, ecos de um passado distante. É, ao mesmo tempo, elegante e melancólica. Episódios esporádicos nos levam para um bosque nórdico, onde fragmentos de canto nos sopros flutuam no ar. Um mesmo impulso vai se transformando, de maneira leve, os detalhes de cor orquestral são finos e precisos. É como se Sibelius sussurrasse ao ouvinte, em vez de gritar.
III. Poco vivace
(Quase com vivacidade) — cerca de 4 minutos
Um movimento curto e ágil. Diferentemente de movimentos similares (como Minuetos ou Scherzos) em outras Sinfonias, que ofereceriam uma seção central contrastante claramente separada, tudo aqui parece entrelaçado, dentro de um mesmo impulso rítmico. A música flui de forma contínua, com pequenas mudanças de cor orquestral, mas sem que a tensão se acumule. É quase uma concessão de Sibelius a um caráter um pouco mais agitado dentro da Sinfonia, antes dele retornar à aura de contemplação.
IV. Allegro molto
(Bem rápido) — menos de 4 minutos
O finale volta ao tema principal, aqui apresentado como uma conversa entre madeiras e cordas. Esse material vai ganhando força, gradualmente, construindo um clímax que é forte, mas não é explosivo ou grandiloquente. Depois dele, a música se desfaz, enigmática... as últimas notas pairam no ar, deixando uma sensação de incompletude, como uma pergunta sem resposta, e essa é a essência da obra.
© RAFAEL FONSECA
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