Compositor: Jean Sibelius
Número de catálogo: Opus 82
Data da composição: 1914 a 1915; revisões em 1916, e de 1917 a 1919 a versão final
Data da composição: 1914 a 1915; revisões em 1916, e de 1917 a 1919 a versão final
Estréia: 8 de dezembro de 1915, em Helsinque — Sibelius regendo em seu 50º aniversário
Estreia da versão final: 24 de novembro de 1919, em Helsinque — Sibelius regendo
Duração: cerca de 32 minutos
Efetivo: 2 flautas (a 2ª também piccolo), 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 3 trompetes, 3 trombones, tímpanos, triângulo, pratos, sinos tubulares e as cordas
A Quinta Sinfonia de Sibelius é uma obra que nasce na profunda ambivalência. No outono de 1914, enquanto a Primeira Guerra Mundial devastava a Europa e arruinava seus planos financeiros, Sibelius escreveu a seu amigo Axel Carpelan: — "Outra profundidade de miséria. Mas já começo a ver vagamente a montanha que subirei. Deus está abrindo Suas portas por um momento, e Sua orquestra toca a Quinta Sinfonia". Essa frase é a chave para entender a obra: muito mais que otimismo ingênuo, a Quinta Sinfonia é luta, busca vencer a dificuldade, quer algo luminoso que se vislumbra ao longe.
A Quinta Sinfonia marca um ponto de virada na carreira de Sibelius. Depois da Quarta, que havia mergulhado em profundas depressões, a Quinta é a subida da montanha em um dia claro. Ainda há obstáculos, ainda há conflitos internos, mas o clima geral é de afirmação, de luminosidade, de energia de renascimento. A textura é clara e luminosa, e também poderosa: em muitos trechos, a orquestra soa como um organismo grande, porém leve, e com linhas transparentes que se entrelaçam. Há momentos em que a música parece um vento frio atravessando uma paisagem aberta. As melodias em geral são amplas e cantáveis, mas muitas vezes construídas a partir de motivos curtos que se repetem e se expandem, em vez de canções longas ao estilo romântico. Ela é moderna sem deixar de ser atraente.
O que torna a Quinta particularmente notável é a maneira como Sibelius constrói a obra inteira a partir de pequenas células rítmicas e contornos melódicos. Essas ideias são apresentadas logo no início, mas reaparecem continuamente, esticadas, comprimidas, de modo que o ouvinte sente uma espécie de metamorfose constante.
I. Tempo molto moderato – Allegro moderato, ma poco a poco stretto
(Muito moderado – Rápido moderado, mas pouco a pouco mais apertado) — cerca de 14 minutos
A obra abre com um chamado amplo das trompas, como se o horizonte se abrisse de repente. Esse motivo inicial de trompas, simples e largo, é um dos temas memoráveis da obra, reaparecendo em formas transformadas ao longo do primeiro movimento. Aos poucos, motivos curtos se repetem e se intensificam, como passos que se tornam mais rápidos e seguros. É comum a sensação de tentativas de subir a montanha e que resvalam, escorregam e recomeçam de novo, criando expectativa. Há um trecho em que a música parece congelar numa paisagem aberta, como alguém caminhando sozinho e para num campo aberto. Depois, há uma transição para o trecho mais rápido, em que uma espécie de Scherzo (trecho agitado comum em Sinfonias influenciadas por Beethoven) começa a emergir. Ao longo de tudo isso, o chamado de trompa e os fragmentos rítmicos vão sendo reorganizados e acelerados. É a mesma montanha vista de diferentes ângulos.
II. Andante mosso, quasi allegretto
(Passo de caminhada movimentado, quase chegando ao quase rápido) — cerca de 9 minutos
Um trecho mais íntimo, como se chegássemos a uma paisagem campestre, com pequenas variações de luz. Tudo se baseia em um padrão rítmico simples, que se repete com variações. As figuras são suaves e contínuas, com pequenos arabescos. Há trechos em que a textura se torna muito delicada, vozes interiores murmurando. Em alguns momentos, essa música calma se torna brevemente mais exaltada, antes de voltar à serenidade. A transformação aqui é mais sutil: em vez de um tema evidente se modificar, é o padrão rítmico de base que vai alterando.
III. Allegro molto
(Rápido mesmo) — cerca de 10 minutos
O último movimento abre com impulso forte, um trote firme que se transforma em galope, preparando o aparecimento do grande tema. Em abril de 1915, Sibelius registrou no seu diário uma experiência que o marcaria profundamente: — "Hoje, caminhando no final da manhã, vi 16 cisnes. Uma das maiores experiências da minha vida! Senhor Deus, que beleza!". Essa visão dos cisnes não é mero acaso biográfico: ela se transforma, aqui, em música, no grande tema do movimento final, um dos temas mais maravilhosos da literatura sinfônica.
Quando esse famoso tema dos cisnes surge nas trompas, a música ganha um ar de majestade inevitável, é voo amplo dos cisnes, que nada consegue deter. Uma linha simples, majestosa, os enormes pássaros batendo as asas em câmera lenta. Esse grande tema dos cisnes no movimento final parece brotar organicamente de material sutilmente preparado desde o primeiro movimento, ou seja: ideias que sempre estiveram na obra, desde seu início, mas que só agora se revela por completo. Sibelius usa a orquestra como um organismo vivo, os instrumentos conversando até que toda a orquestra se junta em uma grande onda sonora.
O tema vai sendo repetido, com pequenos ajustes, cada vez mais pontuado por golpes da orquestra, até desembocar no final extraordinário: seis acordes isolados, parecidos a seis golpes de martelo, cada um seguido de silêncio. Ou seis trovões musicais, deixando uma sensação de força monumental, mistério, algo imenso acontecendo e, de repente, tudo é engolido pelo silêncio. Chegamos ao topo da montanha de que Sibelius falava, mas ficamos olhando o horizonte, aturdidos.
© RAFAEL FONSECA
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