(1911) SIBELIUS Sinfonia n. 4

Compositor: Jean Sibelius
Número de catálogo: Opus 63
Data da composição: 1909 a 1911
Estréia: 3 de abril de 1911, em Helsinque — Sibelius regendo

Duração: cerca de 40 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, tímpanos, sinos de orquestra e as cordas

A mais difícil das Sinfonias de Sibelius: Quarta Sinfonia de Sibelius é uma obra que nasce de um momento de crise pessoal profunda. Em 1908, três anos antes de sua composição, Sibelius havia passado por uma cirurgia grave na garganta para remover um tumor suspeito. A sombra do medo de morte, a consciência de sua própria fragilidade, o peso das dificuldades financeiras e os sofrimentos familiares — particularmente o episódio devastador da irmã mais velha internada em um asilo para doentes mentais — tudo isso converge numa obra que é, sem dúvida alguma, a mais austera, a mais sombria e a mais hermética de todas as sinfonias de Sibelius.  
 
Quando Sibelius completou essa obra, ele próprio sentiu que havia chegado a uma fronteira perigosa. Ao comentar a Quarta, anos depois, ele disse que ao terminá-la, sentia-se no limite da loucura ou do caos. O que representa bem a dissolução da linguagem musical tradicional, sem ainda cruzar completamente para o atonalismo.

O pensamento musical que governa a Quarta Sinfonia é radicalmente diferente das obras anteriores. Sibelius abandona completamente a noção de melodia como protagonista. A música não nasce de grandes temas que se repetem e se desenvolvem, mas de um emaranhado tecido sinfônico onde fragmentos rítmicos, células musicais diminutas coexistem. Nada é muito nítido. É como alguém que tenta enxergar uma paisagem através de uma bruma espessa: você percebe formas, movimentos, mas nunca consegue ver com clareza total. 
 
A Quarta Sinfonia é austera e enxuta: poucos instrumentos soando ao mesmo tempo, com muita clareza, mas criando a impressão de uma paisagem desolada. São camadas finas, às vezes quase transparentes, outras vezes como blocos abruptos de brutalidade sonora. As linhas melódicas são fragmentadas, interrompidas, como pensamentos que começam e logo desmancham. O ritmo é contido, com uma pulsação lenta e irregular.  A impressão geral é de tensão contida, com longos trechos em que o volume é moderado, criando uma sensação de pressão interna insuportável. A pressão interna do próprio autor.
 
I. Tempo molto moderato, quasi adagio
(Muito moderado, quase lento) — cerca de 10 minutos 
Um rugido abrupto vindo das profundezas da orquestra: sons graves de violoncelos, contrabaixos e fagotes em blocos curtos. O solo de violoncelo é devastador. Pouco depois, as trompas lançam clarões gelados por cima desse fundo escuro. Sibelius constrói música que cresce lentamente, em ondas contidas, sem nunca se transformar em clímax jubiloso; quando parece ganhar força, logo se retrai. Emoções tensas, ásperas. Há explosões curtas onde a orquestra inteira se ergue de súbito, como erupções emocionais, seguidas de um retorno abrupto à contenção. O trecho conclusivo do movimento deixa uma impressão de fadiga e desolação, como se a energia tivesse se esgotado completamente
 
II. Allegro molto vivace
(Muito rápido e muito vivo) — cerca de 5 minutos 
O segundo movimento é muito mais ágil, um voo irregular ou uma dança nervosa. Apesar da vivacidade, ele não soa alegre. Aliás, nada nessa Sinfonia soa alegre. Ela é inquieta e às vezes sarcástica. A música parece entrar num carrossel agitado, girando sem chegar a um grande clímax, para depois parar quase de súbito, como se alguém tivesse puxado um freio invisível
 
III. Il tempo largo
(O tempo amplo) — cerca de 11 minutos 
O terceiro movimento é onde a Quarta Sinfonia revela sua profundidade mais perturbadora. Sons soltos, fragmentos, frases começadas e interrompidas... e tudo isso, aos poucos, se junta, formando algo que lembra um canto de lamentação. A atmosfera é de luto contido, uma conversa triste entre vozes solitárias na orquestra. Lentamente, um trecho solene e triste tenta se erguer como um hino, mas nunca alcança uma explosão plena, e acaba recuando antes disso. O final do movimento se esvai em um único som repetido, entorpecimento, como se a música ficasse presa em um ponto, incapaz de avançar. 
 
IV. Allegro
(Rápido) — cerca de 10 minutos 
O último movimento começa com uma energia nova, mais decidida e movimentada, como se tivesse encontrado um impulso para avançar. Contudo, esse impulso entra em conflito com blocos sonoros mais pesados e com lembranças do material sombrio anterior, criando uma luta interna. O passado volta como lembranças tristes. O final é seco, abrupto, com um acorde duro que corta a música sem reconciliação, deixando uma sensação de interrupção brusca, não de vitória.

Há momentos da mais sofisticada escrita instrumental nessa sinfonia, mas o cenário que se desenha é devastador, sombrio e glacial. Sibelius sequer cria um ápice para o final da obra: ela termina de modo duro e seco, quase como se cortassem a música antes que ela pudesse se resolver. A sensação final é de incerteza e de mundo inconcluso, como se a Sinfonia parasse num ponto em que a tensão não foi totalmente resolvida. Não há catarse, não há hino final que nos deixe com a sensação de que algo foi conquistado. Em vez disso, há apenas silêncio ecoando depois da última nota — um silêncio que parece mais pesado, mais significativo, do que qualquer resolução convencional poderia ser.

© RAFAEL FONSECA





 

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