Compositor: Jean Sibelius
Número de catálogo: Opus 52
Data da composição: 1904 a 1907
Data da composição: 1904 a 1907
Estréia: 26 de setembro de 1907, em Helsinque — Sibelius regendo
Duração: cerca de 30 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, tímpano e as cordas
Sibelius estreou sua Terceira Sinfonia em Helsinque, em setembro de 1907. O público presente enfrentou uma surpresa desconcertante: esperava-se outra obra de grandiosidade romântica, como a Segunda Sinfonia. O estranhamento se deveu ao fato deles terem diante deles algo radicalmente diferente, uma obra compacta, enxuta, quase clássica em sua economia de meios. A reação foi de decepção. Críticos da época chamaram-na de "peça para iniciados", uma obra que parecia recuar diante da monumentalidade que o público esperava de um grande sinfonista. Hoje, porém, essa mesma qualidade que desapontou seus contemporâneos é reconhecida como marca de genialidade. A Terceira Sinfonia é considerada um dos pontos de virada na história da música sinfônica, o momento em que Sibelius abandonou definitivamente o romantismo expansivo para abraçar uma linguagem mais contida, a caminho do modernismo.
A gestação dessa obra foi longa. Entre 1904 e 1907, Sibelius trabalhou nela simultaneamente com outras composições, particularmente a Poema sinfônico A Filha de Pohjola e a suíte Festa de Belsazar. Essa convivência entre projetos não era acidental: todas essas obras refletiam uma mudança profunda em seu pensamento musical. Enquanto a Primeira e Segunda Sinfonias haviam se alimentado do nacionalismo finlandês e da grandiloquência romântica, a Terceira representa um movimento consciente em direção a um ideal mais clássico, mais concentrado. Não é que Sibelius tenha abandonado a Finlândia ou seu amor pela pátria; é que sua linguagem artística havia evoluído para expressar essas emoções através de meios mais refinados, menos óbvios.
O que torna essa Sinfonia particularmente notável é a sua economia de material. Sibelius constrói uma obra inteira a partir de poucos motivos, fragmentos rítmicos que se desenvolvem organicamente, transformando-se continuamente sem nunca perder sua identidade. É como se o compositor não precisasse de grandes temas para contar uma história profunda e recorresse apenas a ideias bem escolhidas, com coragem de deixá-las respirar. Essa abordagem aproxima a Terceira dos mestres clássicos — Haydn e Mozart — pela afinidade estrutural e a clareza.
I. Allegro moderato
(Moderadamente rápido) — cerca de 10 minutos
O movimento abre com um tema rítmico decidido nos violoncelos e contrabaixos — uma célula musical que imediatamente organiza o cenário, coisa tão típica em Sibelius. Não vamos encontrar a melodia, no sentido tradicional, mas sim um padrão rítmico que estabelece o caráter do movimento, que é direto e sem retórica excessiva. A partir disso, Sibelius constrói o primeiro movimento de maneira muito concentrada. As ideias são claras, e há uma sensação geral de transparência que remete aos já citados gmestres do passado.
Um movimento vivo, mas nunca explosivo. Não há apoteose romântica, nenhum clímax grandioso que nos deixe sem fôlego. No lugar disso, uma progressão lógica, na qual cada ideia leva naturalmente à próxima. Se você é um ouvinte acostumado à Segunda Sinfonia, isso pode parecer austero. Mas para quem aprende a ouvir e se interessa pelo novo, é uma revelação.
II. Andantino con moto, quasi allegretto
(Sem arrastar e com movimento, moderadamente rápido) — cerca de 8 minutos
Se o primeiro movimento é claro e direto, o segundo é meditativo e introspectivo. Parece um Noturno, com suas frases meditativas flutuando sobre um acompanhamento discreto. O tema é simples, lírico, apresentado pelas madeiras sobre pizzicato (o beliscar) das cordas. Oscilando entre momentos de calma e pequenas agitações internas, Sibelius mantem uma inquietação contida, num meio-termo entre serenidade e perturbação.
III. Moderato
(Final: Moderadamente) — cerca de 8 minutos
Aqui, a Terceira Sinfonia revela sua estrutura mais ousada. Parece que Sibelius quis condensar o Scherzo e o Finale em um contínuo ininterrupto. Começa com o lampejo de uma dança agitada, de energia contida. Gradualmente, os fragmentos se transformam, se acumulam, convergem. E, de repente, emerge um grande tema à moda de um coral, a afirmação solene e luminosa que encerra a obra.
Sibelius descreveu esse processo como "a cristalização de ideias a partir do caos". O movimento é caótico, mas não é desordenado. Pois as múltiplas ideias musicais coexistem, se chocam, se transformam, e essa é a modernidade da obra.
Em 1907, quando Sibelius estreava sua obra, Gustav Mahler visitou Helsinque e os dois conversaram. Mahler expandiu a Sinfonia em estruturas grandiosas que englobavam tudo: o Concerto, o Oratório, a Ópera e disse a Sibelius que "a Sinfonia deve ser como o mundo. Ela deve abranger tudo"... sim, foi a Sibelius que ele disse essa famosa frase. Já Sibelius, estava no caminho contrário, buscando severidade de forma, concentração, em dizer muito com pouco. E a Terceira Sinfonia é a manifestação perfeita dessa filosofia.
Essa obra abriu o caminho para as sinfonias posteriores de Sibelius, todas elas caracterizadas por uma austeridade crescente e uma rejeição da retórica romântica.
© RAFAEL FONSECA
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