(1804) BEETHOVEN Concerto triplo

Grande Concerto Concertante (título original, em italiano)
Concerto para violino, violoncelo, piano e orquestra

Compositor: Ludwig van Beethoven
Número de catálogo: Opus 56
Data da composição: 1803/1804 com ligeiras revisões até a publicação em 1807
Estreia privada: junho de 1804, no Palácio do Príncipe Lobkowitz, em Viena, com Beethoven ao piano, Anton Wranitzky no violino e Anton Kraft no violoncelo
Estreia pública:10 de maio de 1808, em Viena, nos jardins do Augarten, com Marie Bigot ao piano, Carl August Seidler no violino e Anton Kraft no violoncelo

Duração: cerca de 35 minutos
Efetivo: 1 piano, 1 violino, 1 violoncelo (solistas);
Efetivo: 1 flauta, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos, contra-baixos)

Muito já se escreveu para comparar este Concerto, em desvantagem, com as obras concertantes de Beethoven da mesma época, o Terceiro Concerto para piano, de 1800 e os que estavam em gestação, o Quarto Concerto para piano e o para violino, ambos de 1806. Em primeiro lugar, uma reflexão necessária: as possibilidades da retórica musical quando se tem duas vozes (solista e orquestra) não podem ser aplicadas no caso desta obra com 4 vozes a "concertar", quais sejam os três solistas e a orquestra. E há um dado histórico que deve ser considerado, pois Beethoven tinha em mente seu aluno — e que, futuramente, se tornaria principal patrono — o Arquiduque Rodolfo (irmão do Imperador). Rodolfo, à época, estaa com 16 anos e não era um pianista tão habilidoso assim; por isso, certamente, para a parte solista do teclado é — em comparação aos outros dois solistas — claramente facilitada. 
 
Vale registrar o lugar único desta obra no catálogo do compositor: é o único Concerto que Beethoven completou para mais de um solista, e o único dele em que o violoncelo figura entre os solistas. Tudo indica que foi também o primeiro Concerto jamais escrito para essa formação exata: o trio de piano, violino e violoncelo posto inteiro diante da orquestra.

Outro aspecto interessante de observar é que o violoncelo, dentre os 3 solistas o de sonoridade mais tímida e menos brilhante, acaba por receber o privilégio das melhores e mais belas frases. Isso se deve, também, a Anton Kraft, o maior violoncelista do seu tempo, primeiro violoncelo da orquestra particular do Príncipe Lobkowitz. Foi para ele que Haydn escreveu um dos seus Concertos para violoncelo. Beethoven concebeu a parte do instrumento sob medida para esse mestre. Talvez não só por seu caráter mais intimista, mas também por ser, nesta circunstância, um instrumento a explorar, pois há — e havia na época — muito mais literatura de concertos para violino ou piano que para violoncelo. 
 
Há quem enxergue nerssa obra um destino interrompido. O Concerto nasceu no período em que Beethoven planejava mudar-se para Paris, e há a especulação que a partitura foi concebida para impressionar a capital francesa; abandonado o plano da mudança (e abandonado, como se viu na Eroica, o herói que morava lá), a obra perdeu o impulso e ficou anos à espera de uma apresentação pública. Ela só veio em 1808, e com pouco sucesso. Desde então o Concerto Triplo ficou sendo o menos tocado, o mais criticado, acusado sobretudo de ser longo demais. Mas é como afirmei acima: com três solistas em cena, cada ideia precisa soar mais de uma vez; a extensão faz parte da arquitetura.

São 3 os movimentos:

I. Allegro (Rápido) — cerca de 18 minutos
Contrariando o esperado em Beethoven, o Concerto começa de maneira discreta, ganhando corpo aos poucos na introdução para, ao entregar a música ao primeiro solista, justamente o violoncelo, este poder iniciar confortavelmente em seu registro mais grave. A melodia do tema principal é altiva, mas não atinge o heroísmo das obras características de Beethoven neste período (o ano da Sinfonia Heroica!). Logo, segue ao violoncelo o violino, e depois o piano, e a seguir a orquestra, num jogo em 4 partes que permanece equilibrado ao longo do movimento. 
    
II. Largo (Bem devagar) — cerca de 5 minutos
No segundo movimento o violoncelo entoa a primeira frase, apoiando-se numa suave base oferecida pelas cordas da orquestra. Depois, durante o resto deste movimento, que funciona um pouco como introdução ao Rondò seguinte, o violino estará sempre junto do violoncelo, tendo piano e orquestra a comentar. 
   
— attacca: 
III. Rondò alla polacca (sem interromper: Cíclico, à moda polonesa) — cerca de 13 minutos.
A parte mais instigante da obra é este finale, que começa imediatamente na frase de transição do violoncelo — sempre ele — que finaliza o movimento lento. O tema é rico, e será explorado em (quase) condição de igualdade pelos 3 solistas e orquestra. O ritmo é o da dança polonesa, e a conversa entre os solistas ganha animação e verve. A obra caminha para sua conclusão festiva, num jogo de concordância entre as forças que lembra mesmo uma alegre conversa entre amigos. Ao final, chego à conclusão que este Concerto mereceria mais destaque do que vem recebendo ao longo do tempo...

 
© RAFAEL FONSECA

 GRAVAÇÕES:


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