Orquestra "do Divã" do Oriente-Ocidente

West-Easter Divan Orchestra
WEDO

Fundação: 1999
Sede: Fundación Barenboim-Said, Sevilha, Andaluzia, Espanha

Em 1999, o maestro e pianista judeu-argentino Daniel Barenboim era o convidado a realizar a parte musical dos eventos em Weimar, Alemanha, que era a Capital Cultural da Europa naquele ano. Em parceria com seu melhor amigo, o intelectual e crítico literário palestino Edward Said, Barenboim resolveu promover um intercâmbio de idéias e colaboração mútua no campo sinfônico entre duas culturas historicamente beligerantes e politicamente incomunicáveis: árabes e judeus. Nascia assim a Orquestra do Divã do Ocidente-Oriente.

O nome é bastante significativo: remete ao West-östlicher Diwan (Coletânea Ocidental-oriental) lançado em 1819 pelo poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe, a primeira ponte cultural entre o ocidente e o oriente, pois está inspirado na poesia sufi islâmica. E o termo "Divan" remete a mais de um significado, pois surgiu para designar a sala onde se reunia o Conselho do Império Turco, daí para nomear o ambiente de estar das famílias turcas e mais recentemente tornou-se a denominação de um tipo específico de sofá, que se tornou comum nos consultórios de psicanálise. Pode-se dizer, sem medo, que Barenboim e Said colocaram a questão Israel-Palestina (e toda a rivalidade entre o islamismo e o judaismo) no divã.

Com o sucesso daquilo que inicialmente seria apenas um curso de verão, repetiu-se a experiência no ano seguinte, em Weimar mesmo. Em 2001 a "Divan" se re-criaria em Chicago. E a partir de 2002 eles tem sede permanente em Sevilha, cidade que tem em sua história a tolerância aos cultos monoteístas, na época de uma Europa medieval incitada pelo ódio religioso promovido pela Igreja católica. A Orquestra deixou então de ser um conjunto sazonal e passou a atuar como embaixadora de um trabalho que extrapola as fronteiras musicais e promove uma interação antes inimaginável entre pessoas de países, culturas e religiões que tem na "Divan" o único cenário de convergência. Hoje coordenam projetos de educação musical em Israel, na Palestina e em Sevilha.

A premissa da orquestra é a de que não há solução militar possível para o conflito árabe-israelense, e que o destino de ambos os povos é indissociável; assim, eles advogam para a co-existência, que só é possível se um lado pode escutar o outro. E que outra maneira mais simbólica de promover esta escuta senão através da música? A própria formação do conjunto cria tal harmonização humana, colocando em pares, lado-a-lado árabes e judeus. São moços e moças entre 14 e 28 anos, que precisam ter nacionalidade (ou descendência direta) da Israel, Espanha, Palestina, Egito, Síria, Jordânia, Líbano e outros países do Oriente Médio.

Com um trabalho que prioriza a obra de Beethoven — segundo Barenboim, por conta da tradução das emoções humanas em música, que o mestre de Bonn soube fazer como ninguém — eles criam uma aura incomparável que se acrescenta à execução musical tecnicamente perfeita. Assim como a "Simón Bolívar", associa-se à criação musical um espectro emocional poderosíssimo.

© RAFAEL FONSECA