Adagio for Strings
Compositor: Samuel Barber
Número de catálogo: Opus 11
Data da composição: 1936
Estréia: 5 de novembro de 1938 - Nova York, Studio 8H, NBC Symphony Orchestra regida por Arturo Toscanini
Número de catálogo: Opus 11
Data da composição: 1936
Estréia: 5 de novembro de 1938 - Nova York, Studio 8H, NBC Symphony Orchestra regida por Arturo Toscanini
O Adagio para orquestra de cordas de Samuel Barber é uma das obras mais tocadas do repertório clássico moderno. Aparece em trilhas-sonoras de filmes, em cerimônias de casamentos e funerais, em momentos de luto nacional. Conquistou o público leigo que não tem o costume de ouvir música clássica. É uma obra que parece existir de maneira independente, desvinculada de seu contexto original. Poucos sabem que nasceu dentro de um Quarteto de cordas e que sua história envolve um dos maestros mais lendários do século XX.
Samuel Barber nasceu em 1910 em West Chester, Pensilvânia, e morreu em 1981 em Nova York. Foi um compositor que, desde cedo, mostrou uma facilidade rara para escrever melodias longas, diretas e bem construídas. Barber era moderno sem ser exatamente agressivo aos ouvidos do público, como alguns colegas mais experimentalistas. Sua linguagem era lírica, fluida, com melodias esparramadas que tocavam o coração sem parecer piegas. Aos 26 anos, em 1936, Barber já era visto como um compositor de primeira linha entre os estadunidenses.
Naquele ano, Barber estava vivendo em Roma como bolsista de uma Academia de Artes ligada aos Estados Unidos. Durante o verão, viajou para passar os meses de férias com seu companheiro, o também compositor Gian Carlo Menotti, no vilarejo de St. Wolfgang, perto de Salzburg, uma cidadezinha até hoje bem pequena, à margem daqueles lagos alpinos. Lá, em cenário idílico, Barber escreveu seu Quarteto de Cordas, Opus 11, em 3 movimentos, como música de câmara da mais pura cepa, na tradição dos grandes quartetos de Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert. O quarteto estreou em Roma naquele mesmo ano, 1936, e Barber percebeu que o movimento lento, o Adagio, tinha uma força própria que transcendia a formação de câmara.
A vida pessoal e profissional de Barber foi profundamente marcada pela parceria de décadas com Gian Carlo Menotti. Eles se conheceram no Instituto Curtis, na Filadélfia. Em uma cena musical muitas vezes feita de rivalidades e invejas, formaram um núcleo estável, emocional e de trabalho. A convivência e a criação compartilhada marcaram toda a carreira de Barber. Essa atmosfera de intimidade e estabilidade não pode ser desconsiderada ao se compreender o Adagio. A obra nasceu em um contexto de férias de verão, de paisagem alpina, de companheirismo criativo.
No verão de 1937, Barber e Menotti voltaram a St. Wolfgang para passar os meses de verão. Na vizinha Salzburg acontecia o concorrido e já famoso Festival, cuja estrela principal era o lendário maestro italiano Arturo Toscanini. Barber foi procurado pelo maestro Artur Rodziński, à época diretor da Orquestra de Cleveland, mas que era reconhecidamente um preparador da formação de novas orquestras. Rodziński estava ajudando Toscanini a formar a Orquestra da Rede Nacional estadunidense de Comunicação, a NBC. Estando todos em Salzburg para o festival, Rodzinski contou para Barber do desejo de Toscanini de ter uma peça curta, cerca de 10 minutos, de um compositor estadunidense para incluir nas apresentações da nova orquestra em Nova York.
Foi nesse momento que Barber resolveu preparar o movimento lento do quarteto para que a melodia fluísse através de mais instrumentos de uma orquestra de cordas. Em janeiro de 1938, de Roma, Barber enviou a partitura adaptada para Toscanini em Nova York. O que se seguiu foi inesperado. Toscanini, um célebre mal-humorado, devolveu a partitura sem nenhum comentário. Barber ficou irritadíssimo com a atitude. A razão da devolução? Nunca saberemos com certeza. Mas a resposta veio através de Menotti, que tinha boas ligações com Toscanini: o maestro iria tocar o Adagio naquela temporada. Ele havia devolvido a partitura porque já a havia memorizado. O velho maestro sabia tudo de cor, simplesmente porque era estrábico e não conseguia ler durante os concertos. Toscanini decorava tudo.
No dia 5 de novembro de 1938, em Nova York, Toscanini regeu a estreia mundial da obra com a Orquestra da NBC, com transmissão ao vivo pelo rádio. A performance foi um sucesso imediato. A obra conquistou o público e a crítica. Rapidamente, o Adagio entrou no repertório das principais orquestras do mundo. Gravações comerciais começaram a aparecer nos anos 1940 e 1950. A peça foi usada em trilhas sonoras de filmes, em cerimônias de estado, em momentos de luto nacional. Quando o presidente Franklin D. Roosevelt morreu em 1945, o Adagio foi tocado em sua homenagem. Quando o presidente John F. Kennedy foi assassinado em 1963, a peça foi tocada novamente. Tornou-se a música oficial de luto nos Estados Unidos.
A estrutura musical do Adagio é simples e profunda, uma frase simples, como alguém que quer contar um segredo. Barber vai conferindo volume e densidade, vai ficando maior, mais intenso, cada vez mais plangente. Depois do ápice, a música parece perder o chão e mergulha de volta, rumo ao silêncio. A peça caminha para terminar sem resposta, com um eco em suspensão, um sentimento que fica no ar.
Barber compôs muitas outras obras. Concertos para violino, para violoncelo, para piano. Óperas como Vanessa, que ganhou o Prêmio Pulitzer. Mas nenhuma delas conquistou o público da maneira que o Adagio conquistou. A obra se tornou maior que o compositor. Barber viu sua produção vasta ser ofuscada por uma única peça.
© RAFAEL FONSECA