(1858) BRAHMS Concerto para piano n. 1

Compositor: Johannes Brahms
Número de catálogo: Opus 15
Data da composição: 1854 a 1858 (com revisão em 1875)
Estréia: 22 de janeiro de 1859, em Hannover - Johannes Brahms ao piano, regência de Joseph Joachim

Duração: de 45 a 53 minutos
Efetivo: piano solista; 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trumpetes, tímpanos e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)

Um ano antes de dar início à composição desta obra, em 1853, Brahms deu um passo decisivo em sua trajetória artística. Já reconhecido como pianista, queria destacar-se mais como compositor. Incentivado pelo amigo Joseph Joachim (grande violinista que receberá a dedicatória de seu Concerto para violino), Brahms vai a Düsseldorf procurar Robert Schumann para tornar-se seu aluno. Ao conhecê-lo, Schumann, impressionado com o talento do jovem de 20 anos, escreveu um artigo para os jornais clamando "a nova águia", cujas Sonatas "pareciam Sinfonias" que "extrapolavam o piano".

Schumann acolheu o jovem aprendiz em sua casa, e queria que Brahms desse início à composição de uma grande Sinfonia. Brahms, ainda inexperiente com abordagens sinfônicas — até aqui só havia tentado obras para pequenos grupos de câmara ou para o piano — decide trabalhar uma Sonata para 2 pianos, em 1854. Mas ele mesmo diria que "dois pianos não bastam" e tentaria ceder ao mestre e escrever uma Sinfonia. Sentiu-se incapaz de lidar com as demandas da escrita para orquestra sinfônica, neste momento do Romantismo no qual o legado de Beethoven era expandido pelos compositores de então em obras de grande poder combinatório das sonoridades dos instrumentos. Preferiu transformar o que já tinha pronto, em duas versões (uma para dois pianos e outra orquestral), num Concerto para piano.

A composição dessa obra estendeu-se por 4 anos. Durante esse tempo, Brahms percebeu-se irremediavelmente apaixonado pela esposa do mestre, a renomadíssima pianista Clara Schumann. Para soterrá-lo em culpa e impossibilitar ainda mais a realização de qualquer romance, o destino o colocou diante das primeiras crises demenciais de Schumann, e sua tentativa de suicídio, a posterior internação num sanatório, e a morte em 1856. Foi também nessa época (1855-56) que Brahms, por necessidades financeiras, teve de se apresentar em público como pianista. É certo que as obras que tocou junto com orquestra deixaram sua marca: o Concerto para piano n. 20 de Mozart, e os ns. 4 e 5 de Beethoven.

Ao terminar a composição em 1858, Brahms havia construído sua primeira peça sinfônica importante num formato, em certa medida, bem tradicional: são 3 movimentos, como manda a tradição clássica mozartiana, em vivo-lento-vivo.

I. Maestoso (Majestoso) — cerca de 22 minutos
A explosão inicial, com o tímpano antecedendo um chamado épico e sombrio das cordas, é de inconfundível sabor beethoveniano e dá movimento a uma grandiosa introdução orquestral. Ao ouvinte desavisado, a demora da entrada do piano engana a ponto de se pensar numa Sinfonia. E quando o piano finalmente surge no jogo concertante, sua aparição é surpreendentemente cautelosa; é só ao longo do desenrolar do movimento que sua participação "esquenta". E de alguma maneira, podemos perceber que o piano desempenha papel conciliador, apaziguando a orquestra, que tem partes mais conflituosas e densas. Seria este um reflexo do momento vivido pelo compositor e sua paixão platônica pela mulher de seu professor? A resposta pode estar no movimento seguinte...

II. Adagio (Com calma) — cerca de 15 minutos
O movimento central contem o segredo da obra. Numa melodia delicadíssima, quase uma prece, ouvimos um tema que quase não desabrocha, que cisma em manter sua timidez, ainda que pleno em certeza nas suas afirmações. Um discurso velado, respeitoso, sentido. Mais tarde, desvendando essa bela frase musical, ele confessou ter feito, ali, um "doce retrato de Clara Schumann". Tanto por dizer, sentimentos calados, culpa, remorso. O piano costura, dedicado, a melodia que escorre melancólica das cordas, numa página comovente, singela, e ao mesmo tempo, complexa em sua concepção.

III. Rondò: Allegro ma non troppo (Em ciclo: Rápido mas nem tanto) — cerca de 12 minutos
Um vigoroso finale, cheio de graça e verve. Outra vez a influência de Beethoven se faz sentir, aliada à uma leveza nas transições entre as idéias musicais que muito remetem a Schumann. Mas o poder das melodias propostas são inequivocamente originais, como só Brahms as soube construir, intrincadas, algo angulosas, mas cheias de lirismo.

A falta de um pouco mais de fluidez — ainda que seja, exatamente esta, a qualidade desejada nas obras do autor — e facilidade na apresentação dos temas fez com que o público, nas primeiras décadas de existência deste Concerto, fosse refratário à sua beleza. Ainda hoje, é muito menos freqüente no repertório do que merece.

© RAFAEL FONSECA