Emperor Concerto
Compositor: Ludwig van Beethoven
Número de catálogo: Opus 73
Data da composição: 1809
Estreia privada: 13 de janeiro de 1811 — Palácio Lobkowitz, Viena, com o Arquiduque Rodolfo ao piano
Estreia pública: 28 de novembro de 1811 — Gewandhaus, Leipzig, Friedrich Schneider ao piano, regência de Johann Philipp Christian Schulz
Duração: de 38 a 42 minutos, dependendo do maestro
Efetivo: piano (solista); 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos, cordas (primeiros-violinos, segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)
Compositor: Ludwig van Beethoven
Número de catálogo: Opus 73
Data da composição: 1809
Estreia privada: 13 de janeiro de 1811 — Palácio Lobkowitz, Viena, com o Arquiduque Rodolfo ao piano
Estreia pública: 28 de novembro de 1811 — Gewandhaus, Leipzig, Friedrich Schneider ao piano, regência de Johann Philipp Christian Schulz
Duração: de 38 a 42 minutos, dependendo do maestro
Efetivo: piano (solista); 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos, cordas (primeiros-violinos, segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)
Vamos começar pelo título, esclarecendo esse “Imperador”. Beethoven dedicou a obra ao seu aluno mais importante, o Arquiduque Rodolfo, irmão mais novo do Imperador Francisco — e as coincidências param aí. Beethoven jamais quis este título apensado ao seu último Concerto. Quem deu este nome à obra foi o editor Johann Cramer, responsável pela publicação da partitura na Inglaterra: acreditando ser aquele um Concerto grandioso como nenhum outro, o chamou Emperor.
O próprio Beethoven não gostou do apelido, mas isso hoje de pouco adianta, pois o nome é bom “comercialmente” e usado indiscriminadamente. O que de fato confere a esta partitura tanto impacto, que levou Cramer a vê-lo como um “Imperador entre os concertos”, foi uma evolução técnica do instrumento. Precisamos lembrar que nos tempos de Mozart (morto vinte anos antes) e da escrita dos primeiros concertos do próprio Beethoven, o piano — ou melhor, pianoforte, um instrumento capaz de ir do piano (som fraco) ao forte, em vantagem ao cravo, que quando tocado não transferia a força da mão do solista para o resultado final do som produzido — ainda era um equipamento por sofrer muitas melhorias. E justo naquela época, Beethoven conheceu um piano cuja fabricação o tornava mais robusto e com maior alcance: das cinco oitavas do piano mozartiano, por esta época podia-se contar com instrumentos com seis oitavas. (Hoje têm-se até oito oitavas).
Então foi para este “Grande piano”, este instrumento mais potente, que Beethoven escreveu sua obra derradeira para teclado e orquestra, para nela explorar todas as possibilidades da nova tecnologia. Além disso, diferente dos seus 4 Concertos anteriores, este é mais sinfônico, tirando proveito de uma grande orquestra, que conta com uma poderosa participação dos metais desde o início.
Não posso dizer que seja determinante para a estética da música, mas considerem que o ano da composição (1809) vê Viena como palco de uma invasão das tropas de Napoleão, provocando a retirada da Família Real e de todos os nobres da cidade — o que deixou nosso Beethoven em aborrecimentos e preocupações com relação ao seu sustento, e à população toda num estado de penúria material. O ano, aliás, começara bem: em março, três príncipes (o Arquiduque Rodolfo, Lobkowitz e Kinsky) haviam assinado o contrato que garantia a Beethoven uma renda vitalícia, para que jamais deixasse Viena; meses depois, a cidade que acabara de garantir o seu futuro estava sob as bombas. Durante o bombardeio de maio, Beethoven abrigou-se no porão da casa do irmão Caspar, apertando almofadas contra os ouvidos para proteger o que lhe restava de audição; e sabemos, por carta dele ao editor, o retrato daqueles dias: — “nada além de tambores, canhões, homens, miséria de toda sorte”. Alguns querem ver (num raciocínio simplista) sons de batalha na música; mas um certo militarismo no enfrentamento entre piano e orquestra pode não ser mero acaso.
A primeira audição foi privada: 13 de janeiro de 1811, no Palácio Lobkowitz, com o próprio dedicatário, o Arquiduque Rodolfo, ao piano. Era o mesmo aluno para quem, sete anos antes, Beethoven facilitara a parte do teclado do Concerto Triplo; mas agora não era mais aquele jovem de 16 anos: era um pianista bem mais habilidoso e experimentado. A estreia pública veio em 28 de novembro de 1811, na Gewandhaus de Leipzig, com Friedrich Schneider ao teclado, e foi um triunfo: a crítica da época o declarou um dos concertos mais originais e imaginativos já escritos, e também um dos mais difíceis. A estreia pública em Viena só viria em 12 de fevereiro de 1812, com Carl Czerny, aluno de Beethoven, como solista, e a recepção foi fria; uma resenha chamou a obra de entediante, fazendo questão de poupar o pianista. Em nenhuma das três noites o compositor esteve ao piano: a surdez o havia aposentado como solista na despedida doa Quarto Concerto, e o Imperador é o primeiro concerto que Beethoven escreve sabendo que não o tocará.
I. Allegro
(Rápido) — de 20 a 23 minutos
Como em nenhum outro Concerto, como jamais um compositor havia ousado, orquestra e piano abrem fogo um contra o outro imediatamente, sem a tradicional frase de introdução da orquestra e a sequente repetição dos temas pelo piano. Não, aqui o que se tem é um confronto aberto, a orquestra rasga um acorde impositivo e o piano lhe responde com um poderoso arpejo; outro acorde da orquestra, outra resposta em arpejo do piano. Desde o início, o piano quer mostrar ser ele o senhor da música, quer mostrar sua potencialidade, sua extensão melódica. Após três embates, a orquestra então expõe sua introdução, uma vasta frase sinfônica de um poder inédito. Num movimento longo, 20 minutos pelo menos (duração de movimento longuíssima para a época), o diálogo entre solista e conjunto se dá explorando de ambos todas as possibilidades, trazendo à cena agressividade, poesia, júbilo, vigor, heroísmo, encantamento e muito movimento. Não é à toa que o impacto, passados 2 séculos, ainda exalta as plateias do mundo inteiro como se a Revolução ainda estivesse à nossa porta. E Beethoven, afastado do palco, sela aqui o controle total sobre a própria criação: no ponto em que a tradição mandava o solista improvisar uma cadência (a passagem em que o pianista brilhava sozinho, por conta própria), ele escreve na partitura uma ordem célebre: — Non si fa una Cadenza, ma s’attacca subito il seguente, não se faz cadência, ataca-se imediatamente o que segue. Cada nota do solo está escrita pela mão do autor. O solista preso ao texto musical; o gênero, mudado para sempre.
(Rápido) — de 20 a 23 minutos
Como em nenhum outro Concerto, como jamais um compositor havia ousado, orquestra e piano abrem fogo um contra o outro imediatamente, sem a tradicional frase de introdução da orquestra e a sequente repetição dos temas pelo piano. Não, aqui o que se tem é um confronto aberto, a orquestra rasga um acorde impositivo e o piano lhe responde com um poderoso arpejo; outro acorde da orquestra, outra resposta em arpejo do piano. Desde o início, o piano quer mostrar ser ele o senhor da música, quer mostrar sua potencialidade, sua extensão melódica. Após três embates, a orquestra então expõe sua introdução, uma vasta frase sinfônica de um poder inédito. Num movimento longo, 20 minutos pelo menos (duração de movimento longuíssima para a época), o diálogo entre solista e conjunto se dá explorando de ambos todas as possibilidades, trazendo à cena agressividade, poesia, júbilo, vigor, heroísmo, encantamento e muito movimento. Não é à toa que o impacto, passados 2 séculos, ainda exalta as plateias do mundo inteiro como se a Revolução ainda estivesse à nossa porta. E Beethoven, afastado do palco, sela aqui o controle total sobre a própria criação: no ponto em que a tradição mandava o solista improvisar uma cadência (a passagem em que o pianista brilhava sozinho, por conta própria), ele escreve na partitura uma ordem célebre: — Non si fa una Cadenza, ma s’attacca subito il seguente, não se faz cadência, ataca-se imediatamente o que segue. Cada nota do solo está escrita pela mão do autor. O solista preso ao texto musical; o gênero, mudado para sempre.
II. Adagio un poco mosso
(Confortavelmente, um pouco mais movimentado) — cerca de 8 minutos
Na minha opinião, a página mais bela e mais lúdica escrita por Beethoven é o segundo movimento desta obra, um Adagio de grande expressividade, comovente e genialmente construída: as cordas criam a atmosfera, tendo a doçura do som das violas (instrumento que Beethoven tocava na orquestra quando jovem) a dominar o espaço sonoro; no ápice dessa pequena introdução, a flauta sublinha o tema, até que, como uma flor que brota inesperadamente, o piano surge, simples e tocante, com uma frase incrivelmente bela. Aqui Beethoven nos traduz em música a poesia em estado puro. Sabemos, através do relato de Czerny, aluno de Beethoven que estreou a obra em Viena, que ao compor este movimento o mestre tinha no espírito “os cantos religiosos de peregrinos devotos”: os romeiros que então cruzavam as estradas da Áustria rumo a santuários como o de Mariazell, entoando seus hinos em passo lento. É essa procissão serena que as cordas, tocando com abafadores, desenham antes de a flor desabrochar.
(Confortavelmente, um pouco mais movimentado) — cerca de 8 minutos
Na minha opinião, a página mais bela e mais lúdica escrita por Beethoven é o segundo movimento desta obra, um Adagio de grande expressividade, comovente e genialmente construída: as cordas criam a atmosfera, tendo a doçura do som das violas (instrumento que Beethoven tocava na orquestra quando jovem) a dominar o espaço sonoro; no ápice dessa pequena introdução, a flauta sublinha o tema, até que, como uma flor que brota inesperadamente, o piano surge, simples e tocante, com uma frase incrivelmente bela. Aqui Beethoven nos traduz em música a poesia em estado puro. Sabemos, através do relato de Czerny, aluno de Beethoven que estreou a obra em Viena, que ao compor este movimento o mestre tinha no espírito “os cantos religiosos de peregrinos devotos”: os romeiros que então cruzavam as estradas da Áustria rumo a santuários como o de Mariazell, entoando seus hinos em passo lento. É essa procissão serena que as cordas, tocando com abafadores, desenham antes de a flor desabrochar.
— attacca: (sem interromper)
III. Rondò: Allegro
(Rondò: Rápido) — cerca de 10 minutos
A frase delicada do segundo movimento vai desmanchando-se até transformar-se neste vigoroso finale, empolgante, marcial e imponente. A parte solista esbanja luminosidade, a orquestra ora ruge tentando assustar o piano, ora complementa-lhe com delicadeza. Como no início, o piano está determinado a fazer-se o dono da música, a falar de igual para igual com seu poderoso oponente (a orquestra). E, pouco antes do fim, um golpe de engenho: a orquestra se cala, e piano e tímpanos ficam a sós, desacelerando juntos, baixinho, até quase parar; só então vem a explosão derradeira. De conclusão triunfal, este Concerto permanece como um belo desafio aos solistas e cria tensão monumental na plateia, permanecendo um Imperador que a todos agrada.
III. Rondò: Allegro
(Rondò: Rápido) — cerca de 10 minutos
A frase delicada do segundo movimento vai desmanchando-se até transformar-se neste vigoroso finale, empolgante, marcial e imponente. A parte solista esbanja luminosidade, a orquestra ora ruge tentando assustar o piano, ora complementa-lhe com delicadeza. Como no início, o piano está determinado a fazer-se o dono da música, a falar de igual para igual com seu poderoso oponente (a orquestra). E, pouco antes do fim, um golpe de engenho: a orquestra se cala, e piano e tímpanos ficam a sós, desacelerando juntos, baixinho, até quase parar; só então vem a explosão derradeira. De conclusão triunfal, este Concerto permanece como um belo desafio aos solistas e cria tensão monumental na plateia, permanecendo um Imperador que a todos agrada.
O Quarto Concerto inaugurou a era dos Concertos Românticos; o Quinto a coroa. É o último concerto de Beethoven, o primeiro nascido inteiro dentro da era nova, e o único que ele jamais tocou em público: escrito sob as bombas, entregue às mãos dos outros, saiu do porão de Viena para reinar, dois séculos depois, sobre todas as salas de concerto do mundo.
© RAFAEL FONSECA
EM BREVE:




