Suomi herää (“A Finlândia desperta”)
Finlandia
Compositor: Jean Sibelius
Número de catálogo: Opus 26
Data da composição: 1899 (como trechos de música de cena); revisão como Poema Sinfônico em 1900
Compositor: Jean Sibelius
Número de catálogo: Opus 26
Data da composição: 1899 (como trechos de música de cena); revisão como Poema Sinfônico em 1900
Estréia: 4 de novembro de 1899 (como parte do espetáculo de quadros históricos no Teatro Sueco de Helsinque); e, na forma de concerto, em 2 de julho de 1900, no Palokunnantalo (Salão do Corpo de Bombeiros), Helsinque, com o maestroRobert Kajanus
Duração: cerca de 9 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes; 4 trompas, 3 trompetes, 3 trombones, tuba; tímpanos, percussão; cordas
Em fevereiro de 1899, o czar Nicolau II assinou o chamado Manifesto de Fevereiro, um gesto político que buscava reduzir a autonomia do Grão-Ducado da Finlândia dentro do Império Russo. A reação cultural foi imediata: imprensa e intelectuais passaram a funcionar como linha de defesa simbólica, e a censura virou assunto de rua. É nesse clima que surge o grande evento beneficente conhecido como Sanomalehdistön päivät (“Jornadas da Imprensa”). Oficialmente, era para arrecadar dinheiro para o fundo de pensão de jornalistas; na prática, eles queriam sustentar a liberdade de expressão em um momento no qual jornais eram pressionados, suspensos ou obrigados a se moderar. Nesse cenário, Sibelius decide entrar na briga com música, e aceita escrever uma obra, uma música de cena para a noite principal das Jornadas, no Teatro Sueco de Helsinque.
O espetáculo era feito de kuvaelmat (quadros teatrais),episódios encenados, com personagens, figurinos, texto e ação, que resumiam alguns capítulos da história finlandesa. Sibelius compôs uma abertura curta e música para seis quadros. A sequência culminava num quadro final chamado Suomi herää (“A Finlândia desperta”). A documentação finlandesa preserva um detalhe precioso de testemunha: o jovem Heikki Klemetti lembra que Sibelius ergueu a batuta enquanto ainda havia burburinho na plateia, e então vieram aqueles acordes de metais que hoje reconhecemos como a porta de entrada sonora de Finlândia, tão marcantes, que ele descreveu o choque físico do som.
O ponto decisivo: nem tudo o que Sibelius escreveu para aquele espetáculo se converteu no Poema Sinfônico intitulado Finlândia. A peça conhecida mundialmente nasce da revisão, em 1900, do 7º número daquele conjunto, ligado ao quadro final Suomi herää — ou seja, ela se cristaliza a partir do clímax patriótico do espetáculo, não do pacote inteiro de seis quadros.
A transformação em obra de concerto foi rápida. O maestro Robert Kajanus percebeu o potencial daquela música e começou a levá-la ao palco sinfônico; a primeira execução pública documentada foi em 2 de julho de 1900, no salão do Corpo de Bombeiros de Helsinque. Nesse período, a peça também circulou com nomes variados — Suomi (outro nome para Finlândia) e Suomen herääminen (“O despertar da Finlândia”), isso em apresentações fora do país sob risco de vigilância, com títulos que evitavam a palavra “Finlândia”, por razões políticas.
A partir daí, Finlândia ganhou arranjos, transcrições e usos cerimoniais e, até mesmo, uma lista quase cômica de apropriações: versões em restaurantes, pedidos para “jazzear” a música (que irritaram Sibelius), além da disseminação do trecho central como canto coletivo, porque ele soa como uma melodia feita para receber palavras. O compositor chegou a resmungar que a obra “não foi feita para ser cantada”, foi feita para orquestra — “mas, se o mundo quer cantar, não há o que fazer”.
Esse caminho do “trecho central” até virar hino cantado tem datas e personagens bem específicos. Primeiro surgiram tentativas de texto; em 1937, o tenor Wäinö Sola enviou palavras a Sibelius, e o compositor preparou um arranjo do chamado Finlandia-hymni (“Hino de Finlândia”) para coro masculino, com estreia registrada em 1938 numa loja maçônica em Helsinque. Em seguida vem o texto que realmente pegou: o poema de Veikko Antero Koskenniemi, estreado em 1940; e, por fim, o arranjo para coro misto aparece em 1948, consolidando a forma que circulou amplamente. Em outras palavras: aquilo que hoje muita gente trata como “hino eterno” foi, historicamente, um processo — e um processo que se intensifica em plena época de guerra.
Há ainda um capítulo internacional curioso: a melodia do trecho “hínico” passou a receber letras em vários lugares do mundo, inclusive em canções religiosas (em inglês, o exemplo famoso é Be Still, My Soul, entre muitos outros). Isso reforça o paradoxo central da peça: nasceu como música de cena para um evento localíssimo, amarrado à crise política de 1899, e acabou virando um emblema capaz de carregar, em contextos muito diferentes, a ideia de consolação, solenidade, identidade e resistência.
© RAFAEL FONSECA
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