Méditation de Thaïs
Compositor: Jules Massenet
Número de catálogo: — (obra única)
Data da composição: 1894
Estréia: 16 de março de 1894, na Opéra de Paris (Palais Garnier)
Duração: pode variar de 4 a 7 minutos
Número de catálogo: — (obra única)
Data da composição: 1894
Estréia: 16 de março de 1894, na Opéra de Paris (Palais Garnier)
Duração: pode variar de 4 a 7 minutos
A Méditation de Thaïs é um interlúdio sinfônico dentro da ópera. É uma obra que escapou de seu contexto original e conquistou vida própria, tornando-se até mais famosa que a ópera que a contém. Sua história é a de uma transformação interior traduzida em música, e de como uma peça concebida para um momento específico de drama se tornou um ícone universal de espiritualidade e renúncia.
Jules Massenet nasceu em 12 de maio de 1842, em Montaud, hoje Saint-Étienne, uma pequena cidade no centro da França. Morreu em Paris, em Neuilly-sur-Seine, em 13 de agosto de 1912. Aos 70 anos, deixava para trás uma carreira monumental. Mais de 30 óperas. Manon em 1884, Werther em 1892, Esclarmonde. Massenet era, em 1894, o grande nome francês oficial. O sucessor natural de Gounod. Sua reputação era enorme. Era ao lado de Gounod o compositor de ópera francesa mais representado na Europa.
Massenet era também um homem metódico, que escrevia diariamente e revisava muito. Compunha pensando em cantores específicos, ajustando tessitura, declamação, até mesmo orquestração às qualidades da voz. Em 1894, ele vivia em Paris, com uma casa de campo em Égreville, na região de Seine-et-Marne, onde compunha com frequência. Era membro do Institut, da Académie des Beaux-Arts. Professor no Conservatório de Paris. Figura de primeira grandeza da vida musical francesa. Casado desde 1866 com Louise-Constance de Gressy, sua vida pessoal era relativamente estável, embora se falasse de relações intensas com algumas intérpretes, como a soprano estadunidense Sibyl Sanderson.
Paris em 1894 era um cenário de transição. A ópera francesa ainda era central na vida musical, mas cercada pela concorrência de Wagner, pela ascensão da ópera italiana verista, e em breve pela revolução de Debussy. O clima de pós-wagnerismo estava instalado. Havia debates estéticos intensos. Massenet tinha rivais simbólicos: de um lado Wagner e a escola alemã, de outro Puccini e a nova ópera italiana. Nesse contexto, ele escolheu um romance de Anatole France.
Anatole France era um escritor francês nascido em 1844, que seria premiado com o Nobel de Literatura em 1921. Conhecido por romances históricos, céticos e irônicos, muitas vezes críticos da religião institucional. Seu romance Thaïs havia sido publicado em 1890. Era uma história provocadora: uma cortesã de Alexandria, devotada a Afrodite, confrontada por um monge cenobita que deseja salvá-la. Uma história de contraste entre erotismo e ascese. Exatamente o terreno ideal para o tipo de teatro musical que Massenet dominava: o contraste entre sensualidade e espiritualidade.
Louis Gallet, o libretista, adaptou o romance para a ópera. Massenet a compôs. Thaïs estreou em 16 de março de 1894, na Opéra de Paris, Palais Garnier. A protagonista era Sibyl Sanderson, a soprano para quem Massenet já havia escrito Esclarmonde. Jean-François Delmas cantava Athanaël, o monge. Edmond Vergnet era Nicias. A recepção foi mista. Grande curiosidade pelo erotismo do tema, pela presença de Sanderson, pela cenografia luxuosa. Houve críticas: alguns consideraram a obra demasiado sensual, de moral duvidosa. Outros elogiaram a coragem de abordar um tema religioso e erótico simultaneamente. A crítica reconheceu a inventividade da orquestração e dos interlúdios. Questionou a estrutura dramática. Por isso Massenet fez revisões.
Em 13 de abril de 1898, quatro anos depois, uma versão revisada de Thaïs estreou novamente na Opéra. Essa versão cortava a grande sinfonia Les Amours d'Aphrodite, reorganizava os balés, introduzia um novo tableau chamado L'Oasis no Ato III. Mantinha — para a nossa sorte — a Méditation. Essa versão de 1898 é a que se consolida no repertório e que circula até hoje.
O enredo de Thaïs é simples e brutal. Thaïs é uma famosa cortesã de Alexandria. Vive para o prazer, devotada a Afrodite. Athanaël, um monge cenobita, decide salvá-la. Fica obcecado pela ideia de convertê-la. Ela oscila entre o prazer mundano e uma busca de sentido espiritual. Acaba se convertendo. Abandona a vida de cortesã, entra num convento no deserto, morre em estado de êxtase místico. Athanaël, por sua vez, cai em desespero. Descobre que seu desejo de salvá-la escondia uma paixão erótica. Tem uma espécie de colapso espiritual no final. É um arco de transformação duplo: Thaïs vai de cortesã a santa, Athanaël vai de aparente santidade externa a colapso interior.
O ponto de virada acontece no Ato II. Na primeira cena, Athanaël confronta Thaïs na sua casa em Alexandria. Há um dueto potente, mistura de repulsa e atração. Ele denuncia a futilidade da vida de prazeres. Ela resiste. Algo nele a toca. Entre essa cena e a próxima, entra a Méditation. Um interlúdio sinfônico. A música do instante em que Thaïs fica sozinha e começa a conversar consigo mesma. É o pensamento dela, em estado puro.
A Méditation é concebida como monólogo interior. Thaïs pondera o apelo de Athanaël. Pondera a vida que está prestes a abandonar. O conflito emocional é duplo: apego à vida sensual, luxuosa, teatral de cortesã. Atração pelo ideal de pureza e amor divino proposto por Athanaël. A música traduz essa oscilação em linhas melódicas amplas, suspensões, resolução tardia. Massenet usa um interlúdio sem palavras porque a transformação é interior e silenciosa. O texto ficaria redundante ou artificial. A música preenche o espaço psicológico entre as duas cenas.
A peça é escrita para violino solo, orquestra e coro em off que entra na reprise final, sugerindo uma dimensão espiritual crescente. Depois da Méditation, Thaïs já não é mais a mesma. A continuação do Ato II e o Ato III desenvolvem as consequências dessa decisão. Renúncia, retiro, morte. O giro interior, o ponto de não retorno, aconteceu naquele intervalo musical. A Méditation é o ícone musical da obra. O instante em que Thaïs decide pela conversão.
A peça ganhou vida própria muito rapidamente. Já em 1894, surgiram arranjos para violino e piano, para piano solo. Massenet ele próprio preparou uma versão para voz e piano com texto religioso em 1894, reaproveitando a música com texto litúrgico.
Fritz Kreisler, um dos maiores violinistas do início do século XX, foi um dos grandes divulgadores da peça em recitais. A linhagem de intérpretes é longa: de Fritz Kreisler a Yo-Yo Ma. A Méditation entrou em recitais de violino e de piano logo nos anos 1890, especialmente em Paris e Bruxelas.
Massenet compôs mais de 30 óperas. Muitas delas desapareceram parcialmente de cartaz. Sua linguagem, altamente refinada, tonal e sensual, foi sendo vista como fin-de-siècle, datada. Mudanças de gosto, ascensão de Debussy, depois de Strauss, Puccini, verismo, modernismo. Seu declínio posterior foi inevitável. A Méditation de Thaïs carrega uma dramaturgia subjacente. É o momento de virada de um personagem específico. É a noção de conversão, renúncia, chamado espiritual. Mostram o Massenet em seu lado dramático-orquestral. Ajuda a explicar por que sua música foi tão popular na Belle Époque.
© RAFAEL FONSECA
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