Adagio per archi e organo su due spunti tematici e su un basso numerato di Tomaso Albinoni
(Adagio para cordas e órgão, sobre dois motivos temáticos e um baixo cifrado de Tomaso Albinoni)
Compositor: Remo Giazoto
Número de catálogo: — (obra única)
Data da composição: 1958
Estréia: ?
Duração: pode variar de 6 a 12 minutos
Efetivo: 1 violino solista;
Efetivo: 2 violinos, 2 violas, 2 violoncelos, contrabaixo, órgão
Número de catálogo: — (obra única)
Data da composição: 1958
Estréia: ?
Duração: pode variar de 6 a 12 minutos
Efetivo: 1 violino solista;
Efetivo: 2 violinos, 2 violas, 2 violoncelos, contrabaixo, órgão
A história do Adagio “de Albinoni” é uma das mais intrigantes da música clássica moderna. Trata-se de uma peça que conquistou o mundo inteiro como obra de Tomaso Albinoni, compositor barroco veneziano do século XVII, mas que na verdade foi composta por Remo Giazotto em 1958.
Essa discrepância entre atribuição e autoria real transformou a peça em um dos maiores mistérios da musicologia contemporânea.
Tomaso Albinoni viveu entre 1671 e 1751 em Veneza, um dos maiores centros musicais da Europa durante o barroco. Era filho de um próspero comerciante de papel, o que lhe permitiu dedicar-se à música sem necessidade de ganhar a vida com ela. Compôs óperas, concertos e sonatas, sendo especialmente importante como um dos primeiros compositores italianos a publicar concertos para oboé. Seus opus 7 e opus 9, lançados em 1715 e 1722, foram editados em Amsterdã e Londres, dedicados a príncipes europeus e comparados favoravelmente aos de Corelli e Vivaldi. Albinoni deixou um repertório fragmentado, com muitas obras perdidas, particularmente suas óperas, que desapareceram nos bombardeios de Dresden durante a Segunda Guerra Mundial.
Remo Giazotto nasceu em Roma em 4 de setembro de 1910 e morreu em Pisa em 26 de agosto de 1998. Era um musicólogo respeitado, crítico da Rivista musicale italiana desde 1932, editor da revista entre 1945 e 1949, professor de História da Música na Universidade de Florença a partir de 1957, e diretor de programas de música de câmara da RAI desde 1949. Membro da Accademia Nazionale di Santa Cecilia, Giazotto era o principal catalogador de Albinoni, seu catálogo temático permanece como padrão de referência até hoje. Havia escrito biografias de Albinoni e Vivaldi. Sua autoridade como especialista em barroco veneziano era indiscutível antes de qualquer controvérsia.
A narrativa oficial é a seguinte: em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, Giazotto viajou a Dresden para completar suas pesquisas sobre Albinoni. A Sächsische Landesbibliothek, a Biblioteca Estadual da Saxônia, havia sido devastada pelos bombardeios de fevereiro e março de 1945. Porém, grande parte do acervo musical havia sido evacuada ou protegida, de modo que muitos manuscritos sobreviveram. Entre esses manuscritos, Giazotto declarou ter encontrado um fragmento: um baixo cifrado impresso e seis compassos de uma voz de violino em manuscrito, de uma suposta sonata de igreja em sol menor de Albinoni, possivelmente ligada ao opus 4. Giazotto alegou ter reconstruído a peça a partir desses elementos.
Porém, há um problema fundamental: até hoje, nenhum catálogo público ou interno da biblioteca de Dresden apresentou esse fragmento. Não há registro de entrada ou saída, não há número de cota que corresponda ao documento descrito por Giazotto. O fragmento alegado nunca foi localizado nem exibido em nenhuma instituição. É possível que Giazotto tenha recebido uma cópia privada, o que explicaria a ausência em catálogo, mas sem documentação, essa hipótese continua apenas isso: uma hipótese. O que sabemos com segurança é que a peça foi integralmente escrita e registrada por Giazotto, com copyright em seu nome. O suposto modelo não é verificável em fonte primária.
Em 1958, Giazotto publicou o Adagio pela editora Ricordi. O título completo era: Adagio para cordas e órgão, sobre dois motivos temáticos e um baixo cifrado atribuídos a Tomaso Albinoni. O copyright estava registrado em nome de Remo Giazotto. A peça se integrou rapidamente ao repertório de música barroca em arranjo romântico. Gravações comerciais começaram a aparecer nos anos 1960. Versões para violino e piano, para piano solo, até uma versão para voz e piano, que chegou a ser usada em casamentos.
O Adagio começou a aparecer em trilhas sonoras de cinema logo no início dos anos 1960. Em 1961, Alain Resnais usou a peça em L'année dernière à Marienbad. Em 1962, Orson Welles a incluiu em The Trial. A partir daí, o Adagio se tornou um clichê audiovisual de tragédia e luto. Aparece em Enigma de Kaspar Hauser, em Rollerball, em Gallipoli, em Flashdance, em incontáveis produções de cinema e televisão. O sucesso cinematográfico reforçou o status do Adagio como se do de Albinoni na cultura popular, independentemente de debates musicológicos. A narrativa se cristalizou. O mundo acreditou na história do fragmento de Dresden porque ela encaixava em um padrão já familiar: obra barroca reconstruída a partir de fragmentos, como havia acontecido com outras peças históricas.
As dúvidas começaram a surgir com mais força à medida que catálogos e arquivos de Dresden foram informatizados e nenhuma referência ao fragmento apareceu. Discussões entre especialistas provavelmente datam dos anos 1980 e 1990. Textos jornalísticos e musicológicos recentes, como o artigo da CBC intitulado Is Albinoni's Adagio the Biggest Fraud in Music History?, de 2017, sintetizam o consenso atual: sem fragmento verificável e com copyright integral de Giazotto, deve-se tratar o Adagio como obra de Giazotto ao estilo de Albinoni.
A estrutura musical do Adagio revela características que levantam suspeitas. O baixo cifrado, que supostamente seria de Albinoni, apresenta uma dramaticidade e densidade que não é típica do barroco veneziano. Quando a orquestra se torna volumosa, quando a música fica derramada e sensual, você está ouvindo algo que nenhum compositor barroco teria escrito. Isso é Giazotto. Isso é o século 20 olhando para o século 17 e vendo nele o que queria ver. Uma peça barroca jamais teria essa abundância orquestral, essa dramaticidade romântica. A reconstrução se torna invenção.
O paradoxo biográfico de Giazotto é forte: catalogador de Albinoni, especialista em barroco veneziano, mas também compositor de uma peça que se apresentava como reconstrução. A comunidade musicológica acreditou por décadas em um especialista respeitado. Quando a verdade começou a emergir, a música já havia ganhado vida própria. Já havia tocado em casamentos, em funerais, em filmes, em trilhas sonoras de vidas inteiras. A história do fragmento perdido era tão poderosa que a realidade não conseguiu apagá-la completamente.
Hoje, o Adagio “de Albinoni” permanece como uma das peças mais tocadas do repertório, mas com uma identidade ambígua. Alguns intérpretes o creditam a Albinoni, outros a Giazotto, outros ainda o apresentam como “atribuído a Albinoni, reconstruído por Giazotto”. É uma obra que conquistou corações sem que o mundo soubesse exatamente quem a havia escrito.
© RAFAEL FONSECA
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