Número de catálogo: Opus 32
Data da composição: entre 1914 e 1917
Estréia: 29 de setembro de 1918, Queen's Hall, Londres - Adrian Boult regendo a orquestra da casa
Duração: cerca de 52 minutos
Efetivo: uma enorme orquestra com 3 flautas (terceira em piccolo), 2 oboés, 1 corne inglês, 2 clarinetas, 1 clarineta-baixo, 2 fagotes, 1 contrafagote, 4 trompas, 2 trompetes, 2 trombones, 1 trombone-baixo, 1 tuba, percussão (tímpanos, bombo, pratos, xilofone, glockenspiel, campanas tubulares), harpa, e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contrabaixos).
A semente do projeto apareceu depois de férias em Maiorca, em 1913, quando o dramaturgo Clifford Bax apresentou Holst à astrologia e lhe recomendou a leitura de What is a Horoscope? (O que é um horóscopo?), de Alan Leo. Holst se interessou a sério, estudou o assunto com entusiasmo e começou a rascunhar a ideia de uma obra que, no começo, ele chamava simplesmente de “sete peças para grande orquestra”.
A composição foi avançando em etapas relativamente bem conhecidas. Mars, the Bringer of War (Marte, o Portador da Guerra) foi o primeiro movimento, em 1914. No mesmo ano vieram Venus, the Bringer of Peace (Vênus, a Portadora da Paz) e Jupiter, the Bringer of Jollity (Júpiter, o Portador da Alegria). Em 1915, Holst escreveu Saturn, the Bringer of Old Age (Saturno, o Portador da Velhice) e Uranus, the Magician (Urano, o Mago), e mais tarde naquele ano compôs Neptune, the Mystic (Netuno, o Místico). Mercury, the Winged Messenger (Mercúrio, o Mensageiro Alado) ficou por último, no início de 1916. A orquestração completa só seria finalizada em 1917.
Esse pano de fundo importa porque The Planets (Os Planetas) foi concebido e escrito em grande parte durante a Primeira Guerra Mundial, num Reino Unido sob tensão social e cultural, com propaganda, alistamentos em massa e um cotidiano atravessado pela sensação de instabilidade. Holst, nesses anos, vivia sobretudo em Londres e trabalhava intensamente como professor, especialmente na St Paul’s Girls’ School (Escola de Meninas de São Paulo Apóstolo), além de outras instituições. A vida prática era pesada, e o reconhecimento público como compositor ainda não era, de modo nenhum, comparável ao de figuras como Elgar.
Havia também um fator corporal. Holst sofria de neurite no braço direito, o que tornava a escrita à mão difícil e, em certos períodos, exaustiva. Isso influenciou o modo como a obra foi colocada no papel: ele frequentemente redigia uma versão reduzida e precisava de auxílio para a cópia em partitura completa. Duas colaboradoras, Vally Lasker e Nora Day, copiaram o manuscrito a partir dessa redução. É um detalhe de bastidor que muda a imagem romântica do compositor solitário: aqui existe um trabalho real, físico, com limitações e apoios concretos.
O próprio Holst insistia que a suíte não seguia um “programa” narrativo detalhado. Ele descrevia The Planets (Os Planetas) como “uma série de quadros” de caráter, como se cada movimento fosse um retrato psicológico, e não um capítulo de uma história. Também dizia que o assunto não era mitologia clássica em si: não se tratava de contar lendas sobre os deuses romanos dos nomes, mas de captar o temperamento astrológico associado a cada planeta. Os subtítulos — “Portador da Guerra”, “Portadora da Paz”, “Portador da Alegria”, “Portador da Velhice”, “o Mago”, “o Místico” — funcionam como chaves de leitura.
Essa escolha de assunto ajuda a entender por que a obra conquistou um público tão amplo. Os títulos são imagéticos, quase cinematográficos, e os contrastes entre os movimentos são claros mesmo para quem não tem intimidade com música clássica: agressão e consolo, festa e sombra, brincadeira e ameaça, peso do tempo e, por fim, uma dissolução que se recusa a dar um final “feliz” convencional. É uma obra que parece desenhar um arco que começa na violência externa e termina numa espécie de apagamento, como se a música deixasse o mundo material para trás.
A primeira execução aconteceu em 29 de setembro de 1918, em Londres, na Queen’s Hall, regida por Adrian Boult, numa sessão privada financiada pelo amigo e compositor Henry Balfour Gardiner. Depois, a primeira execução pública completa, com todos os movimentos, ocorreria em 1920, e a obra rapidamente se consolidaria como um marco da música britânica moderna. Já nas primeiras recepções, houve uma mistura de fascínio e estranhamento: para alguns, a suíte parecia ousada, barulhenta, moderna demais; para outros, era uma conquista ambiciosa e impressionante. Em poucos anos, tornou-se a peça de Holst mais executada, o que trouxe um efeito colateral: ele passou a ser associado quase automaticamente a The Planets (Os Planetas), e a percepção pública de todo o resto de sua produção ficou, em grande medida, na sombra.
Essa é uma das ironias centrais da história: antes da suíte, Holst era respeitado por música coral, por obras para banda de sopros e por peças de circulação mais restrita; depois dela, virou “o homem dos Planetas”. Biografias e estudos costumam enfatizar que isso o incomodava. Ele queria ser julgado pelo conjunto, não por um único monumento. E, de fato, há muitas outras obras importantes no catálogo. The Hymn of Jesus (O Hino de Jesus), de 1917, é frequentemente tratada como ápice de sua escrita coral-orquestral e exige forças grandes, o que ajuda a explicar por que aparece menos em programas comuns. St Paul’s Suite (Suíte de St Paul), de 1913, escrita para um conjunto escolar de cordas, é uma joia de frescor e habilidade, mas muitas vezes é encaixada no “mundo pedagógico” e não ganha o mesmo espaço de uma obra sinfônica de impacto. Hammersmith (Hammersmith), de 1930, mostra um Holst urbano e austero, tanto em versão para banda quanto em versão orquestral. E as suítes para banda, como First Suite (Primeira Suíte) e Second Suite (Segunda Suíte), são pilares do repertório de banda de concerto, muito respeitadas por regentes e músicos, mas menos conhecidas do grande público “sinfônico”.
The Planets (Os Planetas) também costuma ser colocado em diálogo com tradições anteriores e contemporâneas. Muita crítica aproxima a obra da linhagem pós-wagneriana de grandes painéis orquestrais e de obras com forte carga imaginativa, lembrando a escala e a ambição de alguns ciclos de Richard Strauss. Ao mesmo tempo, a ideia de “quadros” autônomos, cada um com caráter próprio, aproxima a suíte de ciclos orquestrais em que cada peça é um painel, e não um movimento de sinfonia tradicional. Há leituras que apontam afinidades de linguagem com o modernismo do período, especialmente no contraste entre brutalidade e rarefação sonora, e comparações pontuais com Stravinsky, Debussy e outros, em geral como convergência estética de época, não como prova de empréstimo direto.
Outra coisa importante: Holst não parece ter buscado astronomia, nem a representação “realista” do espaço. É útil lembrar que, naqueles anos, a cultura visual popular não tinha nada parecido com o repertório de imagens planetárias que a gente carrega hoje. A suíte não nasce para “descrever” planetas em termos físicos; ela nasce para transformar símbolos em música.
O movimento a movimento, a obra funciona como uma galeria de personagens.
Mars, the Bringer of War (Marte, o Portador da Guerra) é a peça mais famosa do conjunto, em parte por seu impacto imediato. A sensação é de marcha implacável, menos heroica do que desumana, como uma máquina avançando sem descanso. Muitos ouvintes sentem aí a guerra industrial do século XX, e a associação histórica foi inevitável, embora o movimento não venha com uma declaração explícita do compositor dizendo “isto é sobre a guerra de 1914–1918”. A música cria ameaça e inevitabilidade, e o que impressiona é como o terror nasce quase do nada, vai crescendo em ondas e chega a um clímax esmagador.
Venus, the Bringer of Peace (Vênus, a Portadora da Paz) vem como contraste direto: não é uma “paz política” comemorativa, mas um consolo, um alívio de temperatura emocional. A atmosfera é delicada, com timbres que parecem luz suave e distante. Mesmo quando há momentos mais luminosos, o movimento evita o sentimentalismo fácil: é uma paz que não apaga a memória do que veio antes.
Mercury, the Winged Messenger (Mercúrio, o Mensageiro Alado) é o mais curto e funciona como movimento de leveza e agilidade. A impressão é de uma figura rápida que aparece e desaparece, atravessando espaços. Em vez de uma melodia única que domine tudo, há pequenos motivos que circulam, e a música parece nunca se fixar.
Jupiter, the Bringer of Jollity (Júpiter, o Portador da Alegria) é o lado expansivo e celebratório da suíte, frequentemente percebido como seu centro “popular”. Dentro dele, há uma seção central com uma melodia ampla que se tornou ainda mais famosa fora do contexto da obra: mais tarde, ela recebeu o texto patriótico I Vow to Thee, My Country (Eu juro a ti, minha pátria) e passou a circular como hino, cantado em cerimônias públicas e religiosas. Esse é um caso exemplar de como a recepção pode transformar a vida de uma música: um trecho sai do corpo da suíte e vira outro objeto cultural, com função social própria, o que reforça tanto a popularidade do movimento quanto o risco de o público esquecer o resto do arco narrativo da obra.
Saturn, the Bringer of Old Age (Saturno, o Portador da Velhice) costuma ser apontado como um dos movimentos mais profundos. Ele cresce lentamente, acumulando peso, como se o tempo fosse se aproximando. Há um ponto de crise que parece inevitável e, depois, uma espécie de aceitação, não triunfante, mas lúcida. Alguns comentadores sugerem que Saturno teria algo de pessoal, ligado à saúde frágil de Holst e ao medo do desgaste; como não há declaração explícita do compositor ligando o movimento a uma vivência específica, essa leitura deve ser tratada como interpretação, não como fato documental.
Uranus, the Magician (Urano, o Mago) traz teatralidade e humor sombrio. É um movimento cheio de “truques”, de entradas súbitas, de gestos grandiosos que beiram a caricatura. A figura do “mago” aqui não é um sábio sereno: é um agente de surpresa, ruptura e exibicionismo, como se a música encenasse o prazer de enganar e de assustar.
Neptune, the Mystic (Netuno, o Místico) fecha a suíte de modo radical: em vez de uma catarse, ele dissolve. A sensação é de música que perde contorno, como se entrasse numa névoa. O coro feminino fora de cena, cantando tão suavemente que parece vir de outro lugar, é um dos efeitos mais famosos do movimento, sobretudo pela maneira como o final desaparece até o silêncio. É um fechamento que recusa o aplauso “fácil” e transforma o fim em afastamento.
Esse final ajuda a compreender por que tanta gente sente que The Planets (Os Planetas) é mais do que uma coleção de “efeitos de orquestra”. Mesmo quando os movimentos parecem representar algo externo — guerra, paz, festa —, o conjunto sugere um percurso que vai do mundo pesado, humano e histórico para um ponto de desaparecimento e mistério. Leitores contemporâneos têm proposto interpretações mais ambiciosas, vendo a ordem da suíte como uma espécie de retirada progressiva do mundo, uma fuga metafórica. Como essas leituras não se apoiam em declarações diretas do compositor, elas devem ser entendidas como interpretação acadêmica plausível, não como confissão de intenção.
A história posterior da obra reforça sua força cultural. Mars (Marte) e Jupiter (Júpiter) foram amplamente usados em cinema, televisão e publicidade, muitas vezes sem que o público saiba de onde vem o material original. A sonoridade de Marte, em particular, influenciou gerações de trilhas sonoras ligadas a ameaça, ficção científica e grandiosidade sombria, enquanto Júpiter circulou como emblema de celebração. Esse tipo de presença constante na cultura popular ajuda a explicar por que tanta gente “reconhece” The Planets (Os Planetas) antes mesmo de ouvir a obra com atenção.
Há ainda um capítulo curioso de “vida depois da vida”. Décadas após Holst, surgiram tentativas de acrescentar um movimento para Pluto (Plutão), incluindo um apêndice composto por Colin Matthews em 2000, chamado Pluto, the Renewer (Plutão, o Renovador). Para alguns, é um comentário interessante; para outros, é algo externo demais à integridade do ciclo original. De todo modo, historicamente, The Planets (Os Planetas) permanece como um conjunto fechado do próprio Holst, e a existência desse “oitavo planeta” moderno funciona mais como curiosidade e debate do que como parte oficial do que ele escreveu.
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