(1788) MOZART Sinfonia n. 41 "Júpiter"

Compositor: Wolfgang Amadeus Mozart
Número de catálogo: K. 551
Data da composição: durante o verão, completada a 10 de agosto de 1788
Estréia: [não se sabe ao certo]

Duração: cerca de 40 minutos
Efetivo: 1 flauta, 2 oboés, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos, e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)

A última Sinfonia de Mozart é chamada Júpiter, talvez pelo pelo empresário de concertos Johann Peter Salomon, mas não se sabe ao certo; o fato é que o nome pegou. E é justificável, face à energia de juventude associada ao deus dos romanos, o próprio Zeus na mitologia grega. Com respeito à numeração, vale o número 41 pois assim Mozart a listou em seu catálogo, mas hoje sabemos que existem cerca de 60 Sinfonias, graças a descobertas que não param de surpreender.

I. Allegro vivace (Vivazmente rápido) — cerca de 12 minutos
O maestro Nikolaus Harnoncourt defendia a idéia — à qual me associo — de que as três últimas Sinfonias são, na verdade, um ciclo. Sendo assim, ela parte de onde a número 40 parou. Todas as dúvidas suscitadas na obra anterior, aqui se convertem em certeza afirmativa. Uma exclamação vitoriosa é entoada logo de início, sem a introdução lenta à la Haydn, e os violinos respondem com uma frase docemente gentil. Segue-se uma marcha, vigorosa e viril. Os sopros insinuam alguns questionamentos, mas o discurso das cordas é tão mais forte que os carrega de roldão. Não é difícil notar, aqui, que Beethoven não teria, dali um par de décadas, outro caminho senão sacudir a realidade sinfônica, como de fato o fez. Há, em cena, um heroismo inequívoco.

II. Andante cantabile (Confortavelmente e cantarolável) — cerca de 9 minutos
Uma página reflexiva e densa, que traz algo de rústico. Uma quietude inicial, proposta pelas cordas, logo é contestada por passagens abruptas. É um movimento ambíguo: a partitura pede cantabile, mas a música parece querer rebeldia. Elementos antagônicos são postos em confronto a todo o tempo, floreios são respondidos com violência, passagens doces parecem ser repreendidas. Uma música que guarda muitos mistérios por baixo de uma roupagem elegante.

III. Menuetto: Allegretto (Passo miúdo: Sem arrastar) — cerca de 5 minutos
De volta ao clima de certeza do primeiro movimento, uma dança aristocrática com ares de altivez. Mas o sinfonismo desse Minueto o diferencia, por densidade, daqueles de Haydn, e dos próprios minuetos mozartianos. O material é robusto, num gênero que, em geral, comporta melhor frases mais triviais e singelas.

IV. Molto allegro (Bastante rápido) — cerca de 11 minutos
Pela primeira vez numa Sinfonia — e, outra vez, prenunciando Beethoven — um finale que tem peso equivalente ao movimento inicial, equilibrando a obra. Explico-me melhor: as Sinfonias tinham, em sua estrutura, mais densidade no movimento primeiro, sendo os três seguintes como que meros desdobramentos. Na Júpiter, temos, pela primeira vez um finale com a mesma densidade e importância do primeiro movimento, o que dá à obra uma outra conjuntura, tornando-a mais robusta e sinfonicamente mais equilibrada. Esse expediente seria consolidado por Beethoven em sua Quinta Sinfonia, exatos 20 anos depois. Trata-se também de um tratado magnífico e genial de fuga e contraponto, algo também inédito em uma Sinfonia. Acontece que no Classicismo as vozes em fuga eram trabalhadas a três, e o que temos aqui é m complexo sistema de uma fuga a cinco vozes! Mozart reuniu toda sua sabedoria acumulada em anos de árduo trabalho e nos brinda com um monumento contrapontístico de proporções antológicas. A ciência do contraponto — ponto-contra-ponto, ou seja: a arte de combinar notas em oposição, aproximando e afastando a distância dessa articulação, cujo expoente máximo foi Bach — é dificílima e no Classicismo acabou um pouco relegada para se dar espaço ao desenho das belas melodias, simplificando-se o acompanhamento para que ele não interferisse na idéia principal; Mozart resgata, aqui, essa arte, e deixa como legado um dos finales mais interessantes e empolgantes de todos os tempos.

© RAFAEL FONSECA

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