(1806) BEETHOVEN Concerto para violino

Compositor: Ludwig van Beethoven
Número de catálogo: Opus 61
Data da composição: 1806
Estreia: 23 de dezembro de 1806 em Viena, Theater an der Wien — Franz Joseph Clement no violino

Duração: cerca de 40 minutos
Efetivo: violino solo; 1 flauta, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)

Dedicado ao violinista Franz Clement, que apoiou Beethoven durante o difícil processo de composição de sua única ópera "Fidelio", esta obra quando estreou suscitou muito espanto e críticas negativas por parte de alguns especialistas. Não poderia ser diferente: este é distante cerca de 3 décadas dos Concertos de Mozart e Haydn, e tanto já havia mudado na música. Mudanças essas, aliás, provocadas pelo próprio Beethoven. Lembrando que, ao escrever este Concerto, Beethoven já havia revolucionado a história da Sinfonia e da música com sua "Heroica"; já tinha ultrapassado toda e qualquer Sonata para piano com sua "Waldstein" e já havia criado uma inovadora linguagem própria de Concertos com o seu n. 4 para piano. Ou seja, quando chegamos a 1806 e sabemos que este vulcânico compositor preparava um Concerto para violino, algo de muito novo e surpreendente estava por vir.
 
Franz Clement, o dedicatário, merece apresentação. Menino-prodígio que Beethoven conhecera em 1794, quando o viu tocar aos 14 anos, depois se tornara o violinista principal e regente do Theater an der Wien; era dono de uma memória musical prodigiosa e de um estilo que os críticos da época descreviam pela elegância e pela delicadeza do toque. Foi em uma récita em seu benefício, em 7 de abril de 1805, que Beethoven regeu a estreia pública da Sinfonia Heroica; naquela mesma noite, Clement tocou um Concerto para violino de sua própria autoria. Para a récita beneficente do ano seguinte, encomendou ao amigo um Concerto novo; e Beethoven, na página de rosto do manuscrito, retribuiu com uma brincadeira: dedicou a obra par Clemenza pour Clement, por clemência, para Clement.
 
O destino imediato da obra, porém, foi ingrato. Depois da estreia fria, o Concerto mergulhou em um silêncio de quase quatro décadas, raramente lembrado, tido como estranho e árduo demais. O despertar veio em 1844, em Londres: um menino de 12 anos chamado Joseph Joachim o tocou com a orquestra da Sociedade Filarmônica, sob a regência de Felix Mendelssohn; o mesmo Mendelssohn que, oito anos antes, ressuscitara o Concerto para piano n. 4. A noite foi um triunfo, e Joachim construiu parte da própria lenda — além do talento extraordinário — como sendo o responsável por restituir essa obra ao repertório.

I. Allegro ma non troppo (Rápido mas nem tanto) — cerca de 25 minutos
A primeira surpresa, um choque para o ouvinte da época, fosse essa música o que fosse: a primeira coisa que se ouve são 5 batidas no tímpano, não muito altas, mas firmes o suficiente para impor uma atmosfera definitiva. Agora, começar assim um Concerto? Mais estranho ainda. Mas muito ainda estava por vir. Primeiro, perceber que esse toque de 5 batidas é a afirmação presente em todo o movimento — e com isso, a extraordinária capacidade de Beethoven de extrair música de pouquíssimo ou nenhum material melódico — que dura quase meia hora! Nenhum outro movimento musical fora tão longo, em Concerto ou Sinfonia, em toda a história da música até aqui. Passada a introdução, que soa exótica com os comentários emitidos pelos sopros, de maneira totalmente inusual, e os ataques contundentes de toda a orquestra, seguidos de uma bela frase sinfônica que já deixaria o ouvinte se perguntando "onde entra o solista?", e entra o violino solista em escalas para depois repetir aqueles comentários dos sopros, tendo o tímpano ao fundo, insistindo no toque de 5 batidas. Hoje nós achamos esse Concerto maravilhoso, mas isso tudo era muito estranho para a estética da época. E os que esperavam um violino cavando seu espaço — como nos Concertos do Classicismo, insistindo em propor ideias, contestando a orquestra —, aqui só terão um participante resoluto de seu papel solista "ma non troppo", já que o violino está inserido num poderoso tecido sinfônico, comentando, reforçando e complementando o discurso da orquestra, mas jamais se opondo frontalmente a ela.
   
II. Larghetto (Sem arrastar) — cerca de 10 minutos
Um movimento de total serenidade, uma frase lírica e poética de imensa beleza. Tudo transcorre tão calmamente, como poucas vezes se pode ouvir em Beethoven, até que perto do final, dois acordes majestosos avisam da transição que desembocará no vertiginoso finale:
   
III. Rondò: Allegro (Em ciclo: Rápido) — cerca de 9 minutos
A conclusão é calcada numa melodia de sabor popular, de viva paixão pela vida, como só em Beethoven podemos encontrar. Residem aqui as maiores dificuldades técnicas para o solista, que até agora foi bastante exigido, mas não como aqui, e que terá finalmente seu momento de brilhar destacando-se um pouco da orquestra, "à moda antiga" como se poderia dizer. Hoje, o Concerto que Viena estranhou reina absoluto: é, para muitos, o maior já escrito para o violino, e nenhum grande solista atravessa a carreira sem enfrentá-lo. Ele é o gêmeo do Concerto para piano n. 4, seu irmão de 1806; e se aquele inaugurou a era dos Concertos Românticos, este a confirmou no violino, elevando o gênero a uma altura que o século inteiro passaria a perseguir. Tudo a partir de cinco batidas de tímpanos e... um finale retumbante.
 
Opus 61a: a versão para piano
Em 1807, Muzio Clementi, o célebre compositor que então atuava como editor em Londres, encomendou a Beethoven uma versão desta obra para piano e orquestra, que entrou no catálogo como Opus 61a. Beethoven adaptou a parte solista e, de quebra, fez por ela o que não fizera pela original: escreveu cadenzas (as passagens em que a orquestra pausa e o solista improvisa). E a cadenza do primeiro movimento guarda uma jogada de mestre: o piano dialoga com os tímpanos, que trazem de volta as 5 batidas da abertura. 

Essa versão para piano é hoje uma curiosidade de catálogo; suas cadenzas, porém, ganharam vida própria, transcritas de volta ao violino por grandes intérpretes. Por isso, quem ouve certas gravações célebres do Concerto em sua versão original para violino pode se surpreender com os tímpanos invadindo a cadenza: é a herança da versão para piano.

© RAFAEL FONSECA

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