(1829-1845) MENDELSSOHN Canções sem palavras

Lieder ohne Worte

Compositor: Felix Mendelssohn
Data da composição: entre 1829 e 1845
Efetivo: piano
 

Quando se fala em Mendelssohn, o público costuma se lembrar antes das grandes obras orquestrais, do Octeto, da Abertura de Sonho de uma noite de verão, do Concerto para violino, das Sinfonias. As Canções sem palavras ocupam um outro espaço. Elas não nasceram para o gesto grandioso, e sim para a intimidade, no piano doméstico, a arte da sugestão, um tipo de lirismo que parece dizer tudo sem precisar declarar nada. Foram escritas ao longo de boa parte da vida adulta do compositor, reunidas em oito livros de seis peças cada, e acabaram definindo um gênero inteiro: a pequena peça cantabile para piano, concisa na forma, refinada na escrita e aberta à imaginação de quem escuta.

O próprio nome já é uma pequena poética em si. Mendelssohn sabia que o título podia intrigar. Como pode haver Canção sem palavras? Sua resposta, em cartas célebres, é das mais belas já escritas por um compositor: para ele, a música que amava não era vaga demais para ser posta em palavras, e sim precisa demais. As palavras, comparadas à música, podiam ser ambíguas; a música, ao contrário, enchia a alma de coisas mais exatas e mais ricas do que qualquer discurso. Essa defesa ajuda a entender todo o ciclo.

Cada peça tem perfil de canto, respiração de frase vocal, desenho melódico que parece pedir um texto; ao mesmo tempo, a ausência de texto preserva um espaço de imaginação que o compositor não queria fechar.
Há ainda outro aspecto importante. Essas peças foram imensamente populares no século XIX. Eram acessíveis a muitos pianistas, cabiam perfeitamente no ambiente burguês em que o piano era o objeto central da vida social europeia. Essas obras circularam entre amigos, patronos, jovens pianistas e até entre membros da família real britânica, para quem Mendelssohn chegou a preparar versões a quatro mãos de algumas delas.
Justamente por causa desse sucesso, passaram depois muito tempo sendo tratadas como música menor, elegantemente vazia, doméstica demais. A injustiça salta aos ouvidos quando se percorre o conjunto. O que essas miniaturas nos mostram, livro após livro, é um mestre absoluto da concisão: alguém capaz de criar uma atmosfera, com contraste, com caráter e arquitetura em dois, três, quatro minutos.

Outra cautela importante para quem entra nesse repertório: vários títulos pelos quais hoje conhecemos certas peças não surgiram todos do mesmo modo. Alguns são do próprio Mendelssohn e estes nós iremos manter na análise; outros foram acrescentados por editores posteriores e aparecem em partituras e gravações, mas por fidelidade aos desejos do compositor, não estão listados abaixo.
   

 
Livro I
Composição: 1829-1830
Número de catálogo: Opus 19-b

1. Andante con moto (Passo de caminhada, com movimento)
2. Andante espressivo (Passo de caminhada, com expressividade)
3. Molto allegro e vivace (Muito rápido e vivo)
4. Moderato (Moderadamente)
5. Poco agitato (Um pouco agitado)
6. Andante sostenuto “Venetianisches Gondellied” (Passo de caminhada, sustentado: Canção do gondoleiro veneziano)
 
O Primeiro Livro já apresenta quase tudo o que tornaria a coleção inconfundível. A escrita se baseia muitas vezes numa melodia muito nítida, sustentada por um acompanhamento que nunca é um mero preenchimento: ele participa, quase como uma segunda voz. Há aqui uma elegância herdeira de Mozart. Ao mesmo tempo, esse livro pode ser lido à luz de um momento muito particular da vida de Mendelssohn. Em 1830, antes de seguir para a Itália, ele passou em Weimar para visitar Goethe e prolongou essa visita por insistência do velho poeta. Era a última vez que eles se viam. Pouco depois, já imerso na experiência italiana que o próprio Goethe havia transformado em mito cultural para toda uma geração alemã, Mendelssohn escreve em Veneza a peça que fecharia o Opus, a primeira (no ciclo) Canção veneziana.
   
De um lado, o jovem compositor se despede do velho poeta num instante de descoberta do mundo; de outro, começa a dar forma definitiva a essas miniaturas que talvez sejam a parte mais intimamente poética de toda a sua produção para piano. O fecho do livro traz justamente a página em que a viagem italiana entra de maneira mais nítida no ciclo. O balanço de Barcarola é inequívoco, como se o piano imitasse o movimento da água. Foi esse primeiro livro que saiu em Londres, em 1832, sob o título Original Melodies for the Pianoforte, antes que a designação Songs Without Words se estabelecesse. Isso ajuda a perceber que Mendelssohn estava, naquele momento, fixando uma ideia nova.

   
 
Livro II
Composição: 1830-1834
Número de catálogo: Opus 30

1. Andante espressivo (Passo de caminhada, com expressividade)
2. Allegro di molto (Rápido, com vontade de correr)
3. Adagio non troppo (Calmamente, sem exagero)
4. Agitato e con fuoco (Agitado e com fogo)
5. Andante grazioso (Passo de caminhada, com graciosidade)
6. Allegretto tranquillo “Venetianisches Gondellied” (Quase rápido e tranquilo: Canção do gondoleiro veneziano)
 
No Segundo Livro, a linguagem se torna mais contrastada. Se o primeiro volume encantava principalmente pela naturalidade, esse opus 30 mostra Mendelssohn ampliando o alcance expressivo dessas miniaturas. Há mais sombra, mais impulsividade, mais eloquência dramática em alguns números. 
 
A Canção n. 2 do livro tem um dado biográfico encantador: foi escrita para Fanny por ocasião do nascimento de seu filho em 1830. Isso reforça a impressão de que essas páginas pertencem também a uma esfera de convivência muito particular, feita de presentes, dedicatórias, amizades e circulação privada antes da publicação.
 
A Canção n. 6 é a segunda do conjunto total a trazer o epíteto de veneziana. A atmosfera da barcarola retorna, mas não se trata de repetição da fórmula. A gôndola parece navegar por sobre outras águas: o canto parece mais intimista, mais noturno.
Livro III
Composição: 1836-1837
Número de catálogo: Opus 38

1. Con moto (Com movimento)
2. Allegro non troppo (Rápido, sem exagero)
3. Presto e molto vivace (Muito rápido e muito vivo)
4. Andante (Passo de caminhada)
5. Agitato (Agitado)
6. Andante con moto: Duetto (Passo de caminhada, com movimento: Dueto)
O Terceiro Livro já pertence a uma fase de plena maturidade de Mendelssohn. Temos um cantar mais natural, com espontaneidade, embora por trás dessa naturalidade haja uma engenharia pianística requintadíssima.
A Canção n. 3 faz o piano parecer mais leve que o próprio instrumento. Uma perfeição de miniatura pianística com densidade de sentimento. Sem arroubos drásticos, ele desenha um conteúdo emotivo profundo.
A Canção mais atraente dessev Livro é número 6, o célebre Dueto. Mendelssohn a constrói como se duas vozes cantassem juntas. A peça foi composta em Frankfurt, pouco depois de ele conhecer a futura esposa. Mesmo sem saber desse dado biográfico, ao ouví-la você se sentiria diante de uma conversa íntima, de ternura palpável, com suas linhas melódicas que se entrelaçam delicadamente.
Livro IV
Composição: 1839-1841
Número de catálogo: Opus 53
 
1. Andante con moto (Passo de caminhada, com movimento)
2. Allegro non troppo (Rápido, sem exagero)
3. Presto agitato (Muito rápido e agitado)
4. Adagio (Com calma)
5. Allegro con fuoco: Volkslied (Rápido e com fogo — Canção Popular)
6. Molto allegro vivace (Muito rápido e vivo)
No Quarto Livro, as Canções sem palavras parecem ganhar grandiosidade; mas isso não quer dizer que fiquem espalhafatosas: Mendelssohn sempre as desenha dentro de uma moldura de certo pudor.
Teremos algumas Canções mais impetuosas e turbulentas; outras conservam aquele tom de confidência que é uma característica geral do ciclo completo.
A Canção n. 5, intitulada Canção Popular, merece atenção especial. A referência é reveladora, pois Mendelssohn equilibra a simplicidade mantendo a riqueza da escrita. O resultado não soa folclórico em um sentido literal: é como a lembrança, idealizada e estilizada, de uma Canção germânica antiga, desse compositor que conhecia profundamente Bach e Mozart.
Esse Quarto Livro tem algo de um rito de passagem. O lado lírico ainda domina, mas observamos que a tensão interna aumenta e a paleta de humores e sensações é mais variada. Cada uma das miniaturas começa a carregar um universo de sentimentos maior dentro de si.
Livro V
Composição: 1842-1844
Número de catálogo: Opus 62
 
1. Andante espressivo (Passo de caminhada, com expressividade)
2. Allegro con fuoco (Rápido e com fogo)
3. Andante maestoso (Passo de caminhada, majestosamente)
4. Allegro con anima (Rápido, com vida)
5. Andante con moto: Venetianisches Gondellied (Passo de caminhada, com movimento: Canção do gondoleiro veneziano)
6. Allegretto grazioso: Frühlingslied (Quase rápido e graciosamente: Canção de Primavera)
O Quinto Livro é o mais famoso de todos, e não por acaso. Aqui se concentram algumas das Canções mais populares de toda a coleção.
O arco expressivo desse conjunto é extraordinário. Poucos conjuntos de seis peças conseguem reunir, num espaço tão compacto, elegância, graça, luto, movimento líquido e puro júbilo. A dedicatória foi feita a Clara Schumann, o que também nos diz muito. Se, antes, muitas das Canções sem palavras foram destinadas a amigos, familiares, pessoas que tocavam piano de maneira amadora, eram cultas mas não eram profissionais — agora estamos diante de um gesto de reconhecimento entre dois grandes músicos que eram muito importantes na vida pianística de seu tempo.
A Canção n. 2 desenha, com simplicidade e sinceridade, a melodia mais bela de todos esses Livros.
A Canção n. 3 pode surpreender: faz lembrar a introdução da mais famosa Sinfonia de Beethoven e antecipa de maneira inequívoca o início da Quinta Sinfonia de Mahler. Seu desenrolar é solene e poderoso, mas vejamos isso dentro do contexto desse conjunto: Mendelssohn nunca é excessivamente dramático nem desenha contrastes agressivos.

A Canção veneziana desse Quinto Livro eleva a Barcarola a um grau altíssimo de refinamento. É uma das peças que contribui para a fama desse conjunto.
Quanto à Canção de Primavera, a última desse bloco, é a mais famosa de todas as Canções sem palavras. Mas sua fama e sua melodia fácil e deliciosa pode nos esconder a perfeição d e sua construção. Com economia de meios, sem nenhum excesso, Mendelssohn nos seduz com beleza sincera.
Livro VI
Composição: 1843-1845
Número de catálogo: Opus 67
 
1. Andante (Passo de caminhada)
2. Allegro leggiero (Rápido e leve)
3. Andante tranquillo (Passo de caminhada, com tranquilidade)
4. Presto (Muito rápido)
5. Moderato (Moderadamente)
6. Allegro non troppo (Rápido, sem exagero)
O Sexto Livro foi o último publicado em vida do compositor e, nele, temos um Mendelssohn mais intimista.
A joia desse bloco é Canção n. 4, rapidíssima, cujo acompanhamento veloz sugere quase visualmente a roca de fiar em movimento. O piano cintila, corre, borda e murmura; ainda assim, o virtuosismo permanece subordinado ao cantar imaginário.
Livro VII
Composição: 1843-1845
Número de catálogo: Opus 85
1. Andante espressivo (Passo de caminhada, com expressividade) 2. Allegro agitato (Rápido e agitado) 3. Presto (Muito rápido) 4. Andante sostenuto (Passo de caminhada, sustentando as notas) 5. Allegretto (Quase rápido) 6. Allegretto con moto (Quase rápido, com movimento)  
O Sétimo Livro só viria a ser publicado depois da morte de Mendelssohn. Isso muda a escuta, por não se tratar de um conjunto concebido para ser lançado em vida. Trata-se de uma reunião tardia, feita pelo dono da Casa Editorial Simrock, assim como o será o Livro seguinte, o Oitavo. Eles tentaram mimetizar o arco dramático dos Livros anteriores, oferecendo ao mundo as Canções sem palavras que, com a morte de Mendelssohn, poderiam ter ficado esquecidas.
As peças mantêm o perfil lírico que consagrou o gênero, embora passe a impressão geral de um Mendelssohn mais intimista e recolhido, quase tímido. É como se fossem confissões secretas.
Livro VIII
Composição: 1842-1845
Número de catálogo: Opus 102
1. Andante un poco agitato (Passo de caminhada, um pouco agitado)
2. Adagio (Com calma)
3. Presto (Muito rápido)
4. Un poco agitato, ma andante (Um pouco agitado, mas mante do um passo de caminhada)
5. Allegro vivace (Rápido e vivo)
6. Andante (Passo de caminhada)
O Oitavo Livro, também uma publicação póstuma, fecha a coleção com um ar de despedida serena, como se Mendelssohn deixasse o ciclo dissolver-se aos poucos.
O fascínio aqui vem de estarmos ouvindo o último desdobramento de uma invenção que acompanhou Mendelssohn por quase toda a vida. Nessas páginas finais temos o mestre da graça e da limpidez melódica de sempre, os últimos lampejos de um universo já plenamente formado. Escutar os oito livros em sequência é perceber que essas peças não são uma curiosidade de atmosfera graciosa do catálogo de Mendelssohn: elas estão no centro de sua arte. Aqui aparecem a disciplina formal, a delicadeza de colorido, o pudor expressivo ao expor emoções com tanta elegância... A extraordinária capacidade de sugerir intimidades sem inflamar o discurso.


© RAFAEL FONSECA





 

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