(1879) SMETANA Suíte "Minha Pátria"

Má vlast

Compositor: Bedřich Smetana
Data da composição: de 1872 a 1879
Estréia: 5 de novembro de 1882 em Praga, regência de Adolf Čech — a Suíte completa

Duração: cerca de 1 hora e 15 minutos
Efetivo: 2 flautas, 1 flauta-piccolo, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, 1 tuba, tímpanos, bumbo, triângulo, prato, harpa, e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)
   
Smetana foi um dos primeiros compositores europeus dedicado ao patriotismo musical, seja por suas óperas históricas ou por seus Poemas Sinfônicos, quase sempre ligados à sua Bohemia natal. Em 1862, deixa um cargo importante em Gotemburgo, Suécia, para voltar a Praga motivado pelas notícias de que um Teatro Nacional seria construído para dar espaço às óperas tchecas. Em 1874, porém, viu-se definhar em saúde por causa da sífilis, e o efeito mais cruel da doença foi a perda da audição. Portanto quase a integralidade da concepção de "Minha Pátria" deu-se no interior agora silencioso da mente do compositor.
   
São seis Poemas Sinfônicos que perfazem uma Suíte que pinta em retratos a Bohemia, Praga e a identidade do povo tcheco.
 
I. Vyšehrad
Castelo Alto
Data da composição: rascunhos de 1872; 1874
Estréia: 14 de março de 1875 em Praga, regência de Ludwig Slansky
Lento — Largo maestoso — Grandioso poco largamente — Allegro vivo ma non agitato — Lento ma non troppo (Lento — Bem devagar e majestoso — Grandioso e quase vagarosamente — Rápido e vivo mas sem agitação — Lento mas não muito) — cerca de 16 minutos
É o único trecho iniciado antes da surdez se abater sobre o compositor. Smetana começa sua homenagem à terra pátria pelo símbolo máximo de poder dos antigos bohemios, Vyšehrad, local onde os primeiros reis da dinastia Premislida construíram sua fortificação (hoje parte do Castelo de Praga), e que deu origem aos assentamentos que hoje formam a capital tcheca. As harpas iniciam um prelúdio que simboliza o canto dos bardos despertando as recordações do passado glorioso de Vyšehrad. Evocam-se aqui torneios medievais, batalhas, e por fim sua decadência e queda quando o domínio de Carlos IV fez da Bohemia parte do Sacro-Império. Os temas expostos neste primeiro Poema Sinfônico darão origem a todos os demais da Suíte, numa perfeita coesão das idéias musicais.
 
II. Vltava
O Moldava
Data da composição: novembro a dezembro de 1874
Estréia: 4 de abril de 1875 em Praga, regência de Adolf Čech
Allegro comodo non agitato — L'istesso tempo ma moderato — L'istesso tempo — Tempo I — Più moto (Rápido mas confortavelmente e sem agitação — Mesmo andamento, mais moderado — Mesmo andamento — Volta ao andamento inicial — Bem movimentado) — cerca de 12 minutos
Este Poema Sinfônico traça o caminho do Rio Moldava, que corta o país e sua capital. É o trecho mais célebre da obra, muito mais executado que qualquer outra música do autor e muita gente desconhece que ele é parte de uma Suíte. Flautas e clarinetas, no início, simulam o correr dos ribeirões que ao se unirem (toque do triângulo e entrada das cordas graves) dão forma ao rio. O moldava então flui sereno por prados e matas, e sua melodia tipicamente tcheca se impõe. Caçadas nas florestas irrompem através das trompas. Os primeiros vilarejos, ouve-se ao longe as festas dos aldeões, em uma dança típica de ritmo marcado. O tema principal retorna, em tons escuros e de caráter cintilante: anoitece,, temos o brilho da lua prateada refletida nas águas calmas. O tema é re-apresentado com urgência, nos coloca no turbilhão das Corredeiras de São João (local que hoje não existe mais, pois deu lugar a uma represa), e o choque violento das águas nas rochas transporta para um breve redemoinho, e logo o rio se expande, para entrar majestoso na cidade de Praga. O reflexo do Vyšehrad nas águas faz soar o tema do movimento anterior. O rio passa pelas pontes da cidade e segue seu curso até ter suas águas (e com isso o tema da obra) dissolvidas no Rio Elba.
     
III. Šárka
Šárka
Data da composição: 1875; terminado a 20 de fevereiro de 1875
Estréia: 17 de março de 1877 em Praga, regência de Adolf Čech
Allegro con fuoco ma non agitato — Più moderato assai — Moderato ma con calore — Moderato — Molto vivo — Più vivo (Rápido com fogo mas sem agitação — Muito moderado mesmo — Moderado mas quente — Moderado — Muito vivo — Mais vivo) — cerca de 10 minutos
Obra de extrema violência — musical assim como de conteúdo —, Šárka é personagem da tradição tcheca, guerreira que quer vingar-se de todos os homens devido a uma decepção amorosa. A introdução expõe o ódio de Šárka. Ouvimos a marcha dos escudeiros de Ctirad. Um solo lânguido de clarineta reproduz o gemido de Šárka, que se fez amarrar a uma árvore para simular estar em perigo. O solo de violoncelo que se segue é a paixão imediata de Ctirad ao ver a jovem donzela em suposto perigo. Ele a liberta, e temos uma festa na qual Šárka faz com todos bebam um preparo que colocará a todos em sono profundo. Um chamado de trompas é o aviso ara que as guerreiras comandadas por Šárka venham aniquilar o grupo, e a música conclui na atmosfera do ódio cego de Šárka na terrível carnificina. Os toques de desespero da partitura, que se inserem na loucura da personagem-título, também refletem o estado de espírito de Smetana, a esta altura em deplorável condição física por conta da sífilis.
         
IV. Z českých luhů a hájů
Pelos prados e bosques da Bohemia
Data da composição: 1875; terminado a 18 de outubro de 1875
Estréia: 10 de dezembro de 1875 [?] em Praga
Molto moderato — Allegro poco vivo, ma non troppo —Allegro quasi Polka — Tempo I — Allegro — Presto (Muito moderado — Rápido um pouco vico, mas não muito —Rápido, quase uma polca — Volta ao primeiro andamento — Rápido — Correndo) — cerca de 13 minutos
O mais genérico da série, mas de certa forma, um dos mais fortemente simbólicos — ao lado do segundo, O Moldava — por retratar, como escrevera o autor, "os sentimentos que temos ao contemplar a paisagem da Bohemia". Como o faz a "Pastoral" de Beethoven, aqui tem-se um quadro da natureza. Há certa melancolia, mas também um genuíno júbilo de amor à terra pátria. Foi após escrever este quarto Poema Sinfônico que Smetana decidiu que os anteriores, mais este e os próximos dois, deveriam ser apresentados em conjunto sob o título de "Minha Pátria".
             
V. Tábor
Tábor
Data da composição: 1878; terminado a 13 de dezembro de 1878
Estréia: 4 de janeiro de 1880 em Praga
Lento — Grandioso — Molto vivace — Lento — Molto vivace —Lento maestoso — Più animato (Lento — Grandioso — Muito vivaz — Lento — Muito vivaz —Lento e majestoso — Bastante animado) — cerca de 12 minutos
Por motivos de saúde, Smetana interrompera por quase três anos o processo de composição e em 1878 volta com este "Tábor", cidade do sul da Bohemia onde no século XIV os guerreiros hussitas — reformadores boêmios que seguiam Jan Hus, e que mais tarde se juntaram aos luteranos — resistiram às forças oficiais da Igreja e dos nobres, que acabaram por aniquilá-los. É, em relação aos anteriores, um trecho mais conciso do ponto-de-vista temático, de sobriedade religiosa, cujo coral "Ktož jsú boží bojovníci" (Vós que sois os combatentes de Deus) serve de base. Smetana quis retratar com música mais fatalista e impositiva a grande força de caráter que via nesses bravos resistentes.
                 
VI. Blaník
Blaník
Data da composição: 1878/1879; terminado a 9 de março de 1879
Estréia: 4 de janeiro de 1880 em Praga, junto com o trecho anterior
Allegro moderato — Andante non troppo — Più allegro ma non molto — Tempo di marcia — Grandioso — Tempo I — Largamente maestoso — Grandioso meno — Allegro — Vivace (Rápido moderado — Calmamente mas não muito — Bem rápido mas nem tanto — Tempo de marcha — Grandioso — Volta ao andamento inicial — Vagarosamente e majestoso — Grandioso mas menos que antes — Rápido — Com vivacidade) — cerca de 14 minutos
É, na verdade, continuidade do Poema Sinfônico anterior e utiliza da mesma temática, seja musical ou de inspiração. Mas se Tábor fala dos hussitas reais, Blaník é a montanha na qual os cavaleiros de São Venceslau repousam um sono do qual despertarão para defender sua pátria quando esta estiver ameaçada. O hino dos hussitas ressurge, o tema do Castelo (primeiro trecho da Suíte) também voltará. Um episódio de caráter épico, vencedor.

Após o término desta composição e sua estréia como Suíte completa em 1882, Smetana piorou a olhos vistos. Surtos de loucura fizeram com que fosse afastado do convívio. O maior nacionalista tcheco morreu demente a 12 de maio de 1884. 
 
© RAFAEL FONSECA
    

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