(1800) BEETHOVEN Sinfonia n. 1

Compositor: Ludwig van Beethoven
Número de catálogo: Opus 21
Data da composição: 1799 a 1800
Estréia: 2 de abril de 1800 — em Viena, no Burgtheater, regência do autor

Duração aproximada: 30 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos, contra-baixos)

Após experimentar-se em dois Concertos para piano, Beethoven investe sua força criativa num gênero que vinha crescendo em demanda e era dominado com total genialidade por seu mestre e professor Joseph Haydn: a Sinfonia. A própria palavra tem uma história reveladora: até bem pouco tempo antes, "sinfonia" designava o trecho puramente instrumental, não cantado, que abria obras maiores como óperas, oratórios e cantatas. Era a parte que a orquestra tocava sozinha antes de a voz entrar. Com o advento das orquestras regulares e de apresentações cada vez mais frequentes, esse trecho instrumental foi ganhando vida própria, desprendeu-se da obra cantada e tornou-se um gênero independente — a Sinfonia de concerto que conhecemos —, tendo no talento de Haydn seu norte definidor.

É nesta fórmula firmada por Haydn em mais de 100 Sinfonias — a última delas, numerada hoje como 104, foi apresentada em Londres numa temporada de concertos em 1795 — que nosso Beethoven, então com 30 anos, se apoia. Mas, como sabemos, os caminhos musicais apontavam em direções mais ambiciosas, e essa obra é a centelha que fará desabrochar a Sinfonia como um novo veículo para desague de um conteúdo mais profundo, pleno em sentimentos e emoções.
 
Há uma ironia rondando esta obra. O gênero que Beethoven escolhe para sua estreia sinfônica é o território de Haydn, o mestre de quem ele passara anos tentando se desvencilhar. A relação entre os dois andara arranhada desde as aulas, em Viena: Haydn, atarefado, dava pouca atenção às lições, e Beethoven, teimoso, chegou a buscar às escondidas um segundo professor; o velho mestre, irritado com a soberba do rapaz, o apelidava de grão-mogol. Há um episódio que diz tudo. Em 1793, Haydn escreveu ao Eleitor de Bonn, o nobre que sustentava Beethoven em Viena, elogiando o progresso do aluno e enviando algumas obras como prova. O Eleitor respondeu, seco, que aquelas peças já tinham sido compostas e ouvidas em Bonn antes de o rapaz partir — não provavam progresso nenhum. Mais tarde, Beethoven se recusaria a assinar-se "aluno de Haydn" nas publicações, dizendo que nunca aprendera nada com ele. E, no entanto, é deste mestre que ele herda a forma que agora começa a forçar por dentro. O fantasma de Bonn ainda o seguia: esta Sinfonia seria, a princípio, dedicada justamente àquele Eleitor, num gesto de reconciliação tardia, mas o nobre morreu em 1801, antes da publicação, e a dedicatória acabou indo para um protetor vienense.

I. Adagio molto — Allegro con brio 
(Muito calmamente — Rápido e com brio) — cerca de 10 minutos
Obedecendo à estrutura tradicional da Forma-Sonata (uma introdução lenta, a exibição do tema, a exibição de um segundo tema, a repetição do primeiro, o desenvolvimento, que era a conversa entre os dois temas, a re-exposição do tema principal e a chamada coda ou finalização da idéia), Beethoven encaixou-se no esperado. Mas o primeiro acorde já desconcerta a platéia — a de 1800, não nossos ouvintes de hoje! — com uma dissonância. Sim, repare atentamente ao acorde inicial. Repare que a nota da flauta parece deslocada, fora do lugar. Ali está a dissonância, que se repete no segundo acorde. Para nossos ouvidos, que já passaram pelos Stravinskys e Prokofievs, tal atrevimento passa imperceptível. Mas o nobre apertado em sua roupa debruada com bordados infinitos, a peruca lhe abafando o crânio, que ia ao teatro esperando suaves harmonias, temeroso de um Napoleão em seu encalço, esse certamente sentiu essa dissonância, bem como os ferozes ataques das cordas e os crescendos vigorosos, como ofensa pessoal. Um crítico, presente à estréia, destilou: — "Mais parece música militar, [...] só consegue atordoar, sem jamais atingir ao coração". Pois é justamente o coração, talvez com incômodo para a realidade da época, é que é atingido, daí a força que as Sinfonias de Beethoven irão exercer nos músicos posteriores. O movimento segue chacoalhando as melodias graciosas que se esperasse encontrar em Mozart ou Haydn, levando-as a um limite cheio de tensão.

II. Andante cantabile con moto 
(Confortavelmente, cantável e com movimento) — cerca de 6 minutos
Inicia-se lírico, ao modo de Haydn, mas logo se perceberá, por baixo do tecido sonoro educado e cortês, um vulcão a ebulir, fazendo tremer o solo sagrado da estética clássica. E é aqui que se ouve, com clareza, aquela novidade que tanto incomodou o crítico: os diálogos entre os sopros e as cordas, em que a flauta, o oboé, a clarineta respondem às cordas como parceiros de igual peso, com beleza melódica e inventividade. Como no movimento anterior, o ouvinte é colocado numa fronteira de onde se pode ver o Romantismo e sentir a baforada de seus ventos turbulentos. É como o caminhante que, ao chegar ao cume de uma montanha, vê diante de si a paisagem que alcançará. Ela está lá, mas há ainda um caminho a percorrer...

III. Menuetto: Allegro molto e vivace 
(Passo miúdo: Muito rápido e com vivacidade) — cerca de 4 minutos
Minueto? Bem, sejamos claros, esse movimento é um Minueto só no título. Até então, toda Sinfonia tinha um Minueto, e depois dessa obra, a prática cairá, progressivamente, em desuso. É por iniciativa do próprio Beethoven, que já na Segunda Sinfonia adotará um Scherzo como terceiro movimento de Sinfonia, sepultando a prática do Minueto sem maiores cerimônias. Mas, de fato, isso já aconteceu aqui. Esse movimento em nada se assemelha à dança de Corte francesa, o passo-miúdo, tantas vezes burilado, por Haydn, Mozart, Boccherini, Johann Stamitz, Carl Friedrich Abel e muitos outros; ele é, na verdade, um Scherzo, agitado, contundente, num andamento vertiginoso que seria impossível adotar num Minueto.

IV. Finale: Adagio — Allegro molto e vivace 
(Final: Com calma — Muito rápido e com vivacidade) — cerca de 6 minutos
O finale surpreende ainda mais: uma introdução lenta, não usual para um último movimento, inicia-se em explosão, criando um clima de apreensão que dará lugar, de surpresa, ao alegre tema do movimento. É um trecho curto, conciso. A obra é concluída com luminosidade, graça e imenso poder sinfônico. Nota-se, nesse movimento, a compreensão de Beethoven da orquestra enquanto organismo único, ao passo que, de certa maneira, seus contemporâneos tratavam o conjunto instrumental como uma união de diferentes vozes, ele a vê como uma voz uníssona. 

© RAFAEL FONSECA

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