(1893) DVOŘÁK Sinfonia n. 9, "do Novo Mundo"

Z nového světa — From the New World

Compositor: Antonín Dvořák
Número de catálogo: Opus 95 / B 178
Data da composição: 10 de janeiro a 24 de maio de 1893
Estréia: 16 de dezembro de 1893 — Nova York, no Carnegie Hall, a New York Philharmonic sob regência de Anton Seidl

Duração: cerca de 43 minutos
Efetivo: 1 flauta-piccolo, 2 flautas, 2 oboés, 1 corne-inglês, 2 clarinetas, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, 1 tuba, tímpano, pratos, triângulo e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)

Em Junho de 1891 a milionária americana Jeanette Thurber, que havia conseguido aprovação do Congresso para fundar um Conservatório Nacional de Música em Nova York nos parâmetros do Conservatório francês — o que significava aceitar os estudantes por mérito, e não por indicação, o que, na prática, abria espaço a quem tivesse talento, não importando sexo, religião ou cor — convidou Dvořák para dirigir a instituição. Se era para ter um músico nacionalista para forjar a nova música da América, que fosse o melhor, disse a ela o próprio Tchaikovsky. A princípio, o compositor tcheco titubeou, mas logo a realidade do salário, 25 vezes superior ao seu em Praga, falou mais alto.  

Em 26 de setembro de 1892 Dvořák desembarcava em Nova York com a mulher e dois de seus 6 filhos. Tinha início sua aventura na América, que duraria dois anos e meio, até 1895. A Sinfonia sobre a qual nos debruçamos aqui é a tradução musical do impacto que esse "novo mundo" — nome que ele quis dar à obra — teve sobre ele.

I. Adagio — Allegro molto (Calmamente — Muito Rápido) — cerca de 9 minutos
A introdução lenta, majestosamente calma, já nos indica que uma grande obra, de profundo impacto, está se iniciando. Curioso que as primeiras sonoridades desse Adagio parecem mesmo é eslavas. É, talvez, como se fosse o autor se colocando na obra, chegando ao "Novo mundo". Mas logo uma atmosfera de frescor e grandiosidade domina a orquestra, e sentimos a referência, numa melodia muito característica da flauta, logo repetida pelos violinos, e replicada pela fanfarra, às influências irlandesas na América, e não se envergonhe caso lhe venha à lembrança os velhos filmes de faroeste, pois se estes ainda estavam por vir naquele longínquo 1893, o sabor daquela paisagem está descrito nesta música! A maestria com que Dvořák maneja o colorido orquestral é imensa, e suas invenções melódicas, aqui, o igualam ao melhor de Tchaikowsky. 

II. Largo (Bem devagar) — cerca de 13 minutos
Os trombones desenham uma paisagem espaçosa, e logo o corne-inglês entoa a melodia mais memorável desta obra. Ainda que o próprio Dvořák tenha dito em vida — inclusive em entrevista aos jornais novaiorquinos no dia da estréia — que não se utilizou de nenhum tema pré-existente, lemos em vários ensaios que ele teria se apropriado de lamentos dos negros (os spirituals) e de canções dos nativos indígenas. Esqueçam essa bobagem: é tudo original, dele. Mas, sem dúvida, não só lembra como parecem citações. Um desses temas foi transformado em 1992 na canção "Going home" por seu pupilo William Arms Fisher, ajudando a celebrizar ainda mais a obra. Num dado momento, algo da Pastoral de Beethoven parece vir à cena. É um movimento lento de uma majestade, de uma beleza indescritíveis. 

III. Scherzo: Molto vivace (Jogo: Muito vivaz) — cerca de 8 minutos
Não se assuste: a similitude com Beethoven é intencional. Sim, o início se parece com o Scherzo da Nona de Beethoven, é uma clara homenagem. E outra homenagem entra em cena: Dvořák estava mergulhado no poema épico "The Song of Hiawatha", do poeta americano Henry Wadsworth Longfellow que retrata índios nativos da América do Norte, e quis neste scherzo colocar em música a cena da dança ritual, uma festa na floresta. Outras frases são tipicamente eslavas, certamente suas reminiscências da Europa Central, mas talvez, também, sua percepção de que o folclore, aqui e acolá, acaba tendo elementos comuns.

IV. Allegro con fuoco (Rápido, com fogo) — cerca de 11 minutos
Num crescendo vertiginoso, a orquestra vai tomando fôlego até impor uma marcha de impacto magnífico. Há, aqui, um pouco de Wagner, e um pouco de Tchaikovsky (de quem Dvořák acabara de conhecer a Quinta Sinfonia). E muito Brahms, uma influência fortíssima, e a esta altura um amigo, com passagens que suscitam as Danças Húngaras. Trabalhando a idéia da forma cíclica, vamos ouvir voltar vários episódios dos movimentos anteriores.  Como dizia Leonard Bernstein, com seu humor peculiar, é a primeira Sinfonia multinacional. 

Um ocorrido não-musical e de pouca importância para a compreensão da obra, mas que se soma à esta análise como curiosidade: em 1969, ao pousar na Lua a Missão Apollo-11, o astronauta Neil Armstrong fez tocar uma gravação da Sinfonia do Novo Mundo, pois a obra tornara-se um ícone americano. Trata-se, portanto, da primeira Sinfonia tocada fora da atmosfera terrestre...

© RAFAEL FONSECA

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