(1902) SIBELIUS Sinfonia n. 2

Compositor: Jean Sibelius
Número de catálogo: Opus 43
Data da composição: 1901/1902
Estréia: 8 de março de 1902, em Helsinque — Sibelius regendo

Duração: cerca de 45 minutos
Efetivo: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 4 trompas, 3 trompetes, 3 trombones, 1 tuba, tímpano e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos, e contra-baixos)

Devido ao seu lugar na linha do tempo na história da música, Sibelius foi um compositor a repensar a Sinfonia, não como Mahler que a queria englobando todas as outras formas (o Concerto, o Oratório ou a Ópera), mas genuinamente como sinfonista, como aquele que quer combinar os sons dos instrumentos da orquestra, e precisa de um formato para isso. Esta Segunda de Sibelius é, na forma, aparentemente tradicional (4 movimentos), mas espelha-se na Quinta de Beethoven ao juntar os dois movimentos finais; fora isso, ele surpreende pelas combinações inusitadas de instrumentação, pela fragmentação da melodia, um pouco como Bruckner, mas ao contrário do colega austríaco, Sibelius não quer o acúmulo vertical de idéias para chegar ao céu: seu campo de trabalho é horizontal, plano, longas frases com suas repetições insistentes contrastando com mais longas ainda as frases ininterruptas, líricas e espaçosas. É como se suas partituras tivessem as dimensões da vastidão gelada de sua Finlândia.
 
Esta Sinfonia nasceu de uma jornada que mudaria para sempre a vida de Sibelius. No final de 1900, graças ao apoio financeiro do Barão Carpelan — um músico amador que se tornou seu amigo mais próximo e correspondente — Sibelius viajou para a Itália. Passou o inverno em Rapallo, uma pequena cidade perto de Gênova, onde o clima ensolarado e a paisagem mediterrânea contrastavam radicalmente com o rigor finlandês. Naquele período, Sibelius começou a esboçar os temas que formariam a Sinfonia, inclusive o motivo que se tornaria o coração do segundo movimento. Ao retornar pela Europa, passou por Praga e conheceu Antonín Dvořák, encontro que certamente deixou marcas em sua criação. Quando voltou à Finlândia, Sibelius tinha em mente uma obra que sintetizava suas reflexões sobre a vida, a morte e o destino de sua pátria.
 
O que torna essa Sinfonia particularmente genial é a forma como Sibelius constrói a obra. Ele não trabalha com grandes temas que se repetem intactos, mas com pequenas células musicais — fragmentos de apenas algumas notas — que se desenvolvem organicamente ao longo da partitura. Essas micro-células reaparecem constantemente, mas sempre transformadas, sempre em novos contextos, como se fossem raios de sol que vencem uma densa bruma. É através dessa técnica de crescimento gradual que Sibelius cria unidade na obra, mantendo o ouvinte em uma jornada contínua onde nada é estático, mas tudo flui de forma inevitável.

I. Allegretto — Poco allegro — Tranquillo, ma poco a poco ravvivando il tempo al allegro 
(Não tão rápido — Um pouco rápido — Tranqüilo, mas pouco a pouco reavivando até o rápido) — cerca de 10 minutos
O começo é com uma melodia entrecortada, ofegante, nas cordas, por sobre a qual oboés propõe um tema agilmente irônico e as trompas respondem com calma. Uma frase arrebatadora dos violinos, como se esses quisessem ocupar todos os espaços, dão o tom dessa Sinfonia como um todo. A forma desse primeiro movimento é bastante livre — como quase sempre em Sibelius — e se assemelha a um Poema Sinfônico que quer nos contar algo a respeito do autor e sua terra. Não por acaso as audiências da época ligaram a obra à causa finlandesa (à época sob domínio do Império Russo), e a Sinfonia é contemporânea de Finlandia, o grito de liberdade proposto por Sibelius em prol de sua pátria. Há algo de pastoral, mas a grandiosidade das frases faz com que esse sentimento se perca na monumentalidade e a impressão final é a de um poema épico.
 
É importante notar que, embora o público finlandês tenha rapidamente associado a Sinfonia à luta pela autonomia nacional — chegando a chamá-la de "Sinfonia da Independência" — o próprio Sibelius sempre negou que a obra tivesse um programa político explícito. O que Sibelius criou foi uma obra de construção musical pura, impregnada de amor à sua pátria, mas fundamentalmente focada no domínio de sua linguagem artística. A leitura nacionalista é real e compreensível — especialmente considerando o contexto de opressão russa que a Finlândia enfrentava — mas é uma interpretação que o público e os críticos posteriores projetaram na obra, não algo que Sibelius tenha intencionalmente programado.

II. Tempo andante, ma rubato — Andante sostenuto
(Tempo do passo de caminhada, mas roubado — Passo de caminhada sustentado) — cerca de 15 minutos
Aqui temos o coração sombrio da obra. Começa com um pulso grave e insistente, sobre o qual surgem linhas que soam como fala contida, quase como uma recitação inquieta. A música alterna entre episódios agitados — onde os metais fazem interferências dramáticas — e passagens mais suspensas, como se alguém estivesse lutando com pensamentos escuros. Há momentos em que a música parece abrir uma janela para algo monumental e quase trágico, antes de recuar novamente para uma atmosfera nebulosa.  
 
Antes de se tornar a Sinfonia que conhecemos, Sibelius havia considerado outras formas para esta obra. Em seus esboços de Rapallo, ele anotou uma cena que o fascinava: Don Juan, sentado em seu palácio, recebe um visitante misterioso. Pergunta quem é, mas o visitante não responde. Começa a cantar — era a Morte. Esta imagem literária, inspirada na tradição de Dante e Mozart, não se tornou o programa explícito da Sinfonia, mas deixou suas marcas, especialmente no segundo movimento, onde a música parece oscilar entre a serenidade e a angústia, entre a vida e forças mais sombrias.
 
Esse segundo movimento não é muito diferente do primeiro nas características, embora mais misterioso (no princípio) e enfático pelos contrastes (no todo), além de bastante sombrio. Fica a cargo dos metais fazer interferências que iluminam a atmosfera de aflição. Críticos da época perceberam neste movimento um protesto, uma paisagem emocional atormentada. Fica a cargo dos metais fazer interferências que iluminam a atmosfera de aflição, criando um contraste que define todo o movimento.

III. Vivacissimo — Lento e suave — Largamente 
(Muito vivo — Lento e suave — Vagarosamente) — cerca de 6 minutos
Embora o andamento não o diga, é um Scherzo. Lampejos frenéticos aparecem nas cordas, e o movimento adquire o aspecto de um turbilhão sonoro. Até chegar a seção central, um episódio doce e suave dos oboés e das clarinetas, que desemboca numa daquelas frases típicas de Sibelius, espaçosa, porém curta. E logo se volta ao turbilhão, que vai acumulando energia e ganhando altura para — exatamente como na Quinta de Beethoven — desembocar numa avalanche sonora:
  
— attacca:
IV. Finale: Allegro moderato
(sem interromper, Final: Rápido mas moderado) — cerca de 15 minutos
Explode uma frase majestosa, ao modo de canção Romântica, simples mas de grande impacto. E tudo parece conduzir o ouvinte a paisagens geladas, onde o que aquece vem da música. Contrastando com o tema principal do movimento, sempre exposto com amplitude, pequenos episódios onde instrumentos de sopros comentam com curtas reflexões. Vez ou outra, as fanfarras empurram o som para cima, até que o topo da montanha de Sibelius é alcançado.
 
Há uma qualidade de luminosidade neste final que remete à experiência italiana de Sibelius em Rapallo. A luz do Mediterrâneo parece estar ali, aquecendo as paisagens geladas da Finlândia. Mas — e isto é crucial — a obra não pega emprestado nenhum italianismo. Ela permanece essencialmente finlandesa, do início ao fim, como se Sibelius tivesse absorvido apenas a sensação de luz e calor, transformando-a em sua própria linguagem nórdica.

© RAFAEL FONSECA



 
 


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