(1895) SIBELIUS Poema Sinfônico "O Cisne de Tuonela"

Tuonelan joutsen

Compositor: Jean Sibelius
Número de catálogo: Opus 22 n. 2
Data da composição: de 1895; revisões em 1897 e 1900
Estréia: 13 de abril de 1896, em Helsinque — Sibelius regendo

Duração: cerca de 9 minutos
Efetivo: 1 oboé, 1 corne-inglês, 4 trompas, 3 trombones, tímpano, bumbo, 1 harpa e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos, e contra-baixos)

Antes de chegar a Tuonela, Sibelius já tinha recorrido ao Kalevala — a tradição oral finlandesa que remonta ao milênio anterior a Cristo — em 1892, com Kullervo, um episódio trágico da epopeia que ele expõe em escala monumental, transformando a história em uma Sinfonia de 5 movimentos, incluindo solistas vocais e coral, ao modelo de Berlioz. Isso é importante porque o Cisne de Tuonela nasce como continuidade dessa descoberta, quando Sibelius volta ao Kalevala como um reservatório de símbolos e paisagens mentais.

Depois de Kullervo, ele decide dar um passo ainda mais arriscado e planeja uma ópera baseada nas lendas de Lemminkäinen, do mesmo Kalevala. A ideia era contar, no palco, a trajetória desse aventureiro impetuoso, um sedutor inquieto, sempre em busca de prestígio, sempre atraído pelo perigo. Só que, em 1894, Sibelius vai a Bayreuth, ao teatro de festivais concebido por Richard Wagner, e sofre um choque estético daqueles que reorganizam a cabeça de qualquer jovem compositor. O magnetismo teatral wagneriano o empurra para o oposto: ele resolve recuar e repensar como encontrar uma voz própria sem ser engolido pelo germanismo dominante da época. A ópera começa a desmanchar, e do mesmo material surge outra ideia: um ciclo orquestral em quatro partes, as Quatro lendas de Lemminkäinen.

É nesse conjunto que aparece O Cisne de Tuonela. Nas tradições reunidas no Kalevala — organizado em livro no século XIX a partir de cantos orais — Tuonela é o mundo dos mortos. Ali corre o rio que separa os vivos do além; é uma fronteira que ninguém atravessa impunemente. O cisne, deslizando nessas águas funciona como criatura-sentinela do local, presença calma e absoluta num lugar onde tudo está em suspenso. Na lenda, Lemminkäinen é enviado para uma missão impossível: matar o cisne que nada no rio de Tuonela. Ao se aproximar das águas, ele cai numa emboscada, é morto e lançado ao rio, onde seu corpo se desfaz em fragmentos; a história prossegue dizendo que sua mãe, pressentindo a tragédia, vai ao encalço do filho, recolhe os pedaços e o traz de volta à vida. Sibelius não narra isso passo a passo. Ele escolhe um recorte, de dele faz o retrato: o cisne, o rio, o ar imóvel de um outro mundo, transformando aquele mito em um quadro.

Por isso a orquestração soa deliberadamente contida, sem o brilho tradicional: ausência de flautas, clarinetas e trompetes, o que evita a claridade sonora, como se a luz fosse proibida naquele cenário. Sua busca é pela magia da estória, da bruma que talvez paire por sobre essas águas. O solo de corne-inglês (um instrumento de sopro aparentado ao oboé, de timbre mais escuro e velado) desenha o nadar sombrio do Cisne.

© RAFAEL FONSECA



 
 


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